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                                  Praça da Paz Celestial


           JACINTO R. DE ALMEIDA
           19520049




                                                                 Tiananmen é, enfim, uma praça de Estado. De um lado
                                                              a entrada meridional da Cidade Proibida (também conhe-
                                                              cida por Palácio Imperial) com o grande retrato pintado
                                                              de Mao Tse-Tung (anualmente substituído por outro igual
                                                              para manter-se novo). Na outra extremidade, em frente,
                                                              o  Mausoléu  de  Mao,  venerado  pai  da  nova  China  (um
                                                              modesto  ajudante  de  bibliotecário  da  Universidade  de
                                                              Pequim que, em 1921, juntamente com onze camaradas
              oi em Junho, há 23 anos. Em uma inesquecível imagem   fundou o Partido Comunista Chinês, numa casa na con-
           Fda história da televisão (a força da imagem, penso),   cessão  francesa  em  Shangai  e  tornou-se  um  dos  mais
           vê-se um estudante (?) chinês a tentar impedir a marcha   influentes líderes mundiais do século XX).
           de uma coluna de tanques na Praça Tiananmen. A iden-  – Mao nunca saiu do país, nunca foi ao estrangeiro –
           tidade e o destino desse herói anónimo são um mistério   segredou-me  o  guia  enquanto  olhávamos  as  esculturas
           assim como o número (centenas ou milhares?) de mortos   externas  que  evocam  o realismo  socialista à  entrada do
           durante o mês e meio de protestos que abalaram o regime   Mausoléu.
           chinês em 1989.                                       Do lado esquerdo, o Museu Nacional da China e em
              – O meu nome é Hong Fen (nome fictício) que signi-  frente ao museu, o Palácio do Povo, sede da nomenklatura
           fica “montanha vermelha” e o seu? – perguntou-me o guia   do regime, ambos de traça soviética. No centro, um obe-
           (um sujeito de meia idade licenciado em Letras, línguas   lisco dedicado aos heróis da pátria. Uma faixa enumera o
           latinas) a caminho de uma das entradas da Praça Tianan-  “Espírito de Beijing: Patriotismo – Inovação – Inclusão –
           men, no centro de Beijing.                         Virtude”.  A  praça  e  os  seus  edifícios  (com  exceção  do
              – Jacinto.                                      Palácio do Povo), com presença ostensiva de polícias, cordiais
              – E o que significa?                            e desarmados, são visitados todos os dias por milhares de
              – Bem, era o nome do meu pai e é uma flor – respondi.  chineses vindos da província em autocarros, das estepes, do
              – Uma flor? Tiananmen significa Praça da Paz Celestial   Tibete, da Manchúria, a convite das autoridades.
           – disse o guia enquanto os nossos pertences eram minu-  A Cidade Proibida, sede do poder das dinastias Ming
           ciosamente submetidos a uma revista que reteve o meu   e Qing, entre 1420 e 1912, é um enorme complexo de
           isqueiro.                                          palácios, jardins, pátios interiores, pavilhões (um deles, o
              Ao  meu  lado,  um  velho  turista  inglês  dizia  para  a   Wenyuange, Pavilhão da Literatura Erudita com o teto de
           mulher: “com a atual crise, daqui a uns 30 anos, já não   esmalte negro, símbolo da água para prevenir incêndios e
           estamos vivos, mas vai ser moda no ocidente as mulheres   proteger  os  livros,  que  serviu  como  biblioteca  imperial
           fazerem operação plástica para porem os olhos em bico”.   para  guardar  a  primeira  antologia  completa  do  país)  e
           Pôs os polegares nos cantos dos olhos da mulher e ambos   outros monumentos. Tem 9.900 quartos que acolheram
           sorriram com cumplicidade.                         6.000 funcionários, centenas ou milhares de concubinas
              E então, tivemos acesso à Praça da Paz Celestial, uma   do  imperador,  eunucos…o  mundo  dos  imperadores  e
           praça  que  não  é  comparável  a  nenhuma  outra.  Pela  di-  imperatrizes com os fantasmas da nobreza, as intrigas da
           mensão demasiado grande para uma praça, 44 hectares,   corte, poetas, amores clandestinos, suicidas, até a “O últi-
           por não ter restaurantes, cafés ou centro comercial e por   mo imperador” (tão bem evocado no filme de Bernardo
           não  se  perceber  grande  preocupação  do  ponto  de  vista   Bertoluccio), Puyi, que abdicou do trono em 1912.
           estético,  portanto  ela  não  é  comparável  à  Praça  de  São   O extraordinário Museu Nacional da China lembra que
           Marcos  (Veneza),  à  Grand  Place  (Bruxelas),  a  Times   o  território  do  país  foi  um  dos  centros  da  evolução  da
           Square (New-York), à Praça Vermelha (Moscovo), à Place   espécie humana, fósseis, a lentidão da evolução, a irrupção
           da la Concorde (Paris) ou à Praça do Comércio (Lisboa),   da humanidade, a longa incubação da inteligência, as inven-
           apenas para citar praças conhecidas ou reconhecidas pela   ções, uma civilização com cinco mil anos, a vida campo-
           sua beleza ou importância urbana.                  nesa, o império, aspetos da vida das muitas regiões do país,



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