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                        Portugueses no Oriente



                                      De canetas Montblanc
                                    a fruteiras em cristal …                                    CâNDIDO DE AzEVEDO
                                                                                                       19600364




               telenovela que por aí ainda se arrasta de nome Face   do socorreu Calicut contra as forças do Samorim, e  que
           A  Oculta, tem-nos permitido ficar a conhecer, surpre-  aos  28  anos  de  idade,  pela  via  de  sucessão  indicada
           endidos e incrédulos, as manobras e os jogos de bastidores   por D. João III, sucede em 1525 ao Vice-Rei da Índia,
           que por aí vão…. Veio claramente mostrar-nos da podridão   D. Vasco da Gama. Foi um homem intrépido e desin-
           que assola o país! Pelos silêncios, declarações evasivas e   teressado, educado na escola da severidade (tanta falta
           desencontradas de políticos importantes, autarcas, gestores   que essa escola tem feito nos dias de hoje). O mouro
           de  empresas  públicas  e  altos  funcionários,  fica  no  ar  a   Melique Yaz,  senhor  de  Diu,  para  resgatar  os  males
           suspeita  de  que  aquilo  que  vamos  sabendo  é  apenas  a   porventura causados pelos seus corsários ao comércio
           ponta de um icebergue. Sim, porque já ninguém acredita   português, enviou ao novo Vice-Rei um rico presente
           tratar-se apenas de ofertas de caixas de robalos, canetas   tanto  útil  como  agradável:  uma  cimitarra  em  ouro
           Montblanc, decantadores e fruteiras em cristal ou jarras   cravejado de rubis e diamantes, lindas caixas em laca
           de  prata,  por  mais  que  jurem.  Engraçado  é  uma  coisa   repletas de aljôfar e pérolas, cavalos e tapetes da Pérsia,
           comum a todos … são que todos eles recebiam, não de-  belas odaliscas, exímias na arte da dança do ventre, e
           volviam, e a maioria nem procurava saber quem as man-  muito mais. Tudo rejeitou o jovem D. Henrique dizen-
           dava… Quantas mais “faces ocultas” não haverão por aí…   do que não o podia aceitar «por serem riquezas que os
           No caso presente, coitado do pobre do nosso homem do   portugueses não tomavam dos mouros, senão os ganhos
           ferro-velho, nesta árdua tarefa de oferecer ao longo destes   das guerras que com eles têm!».
           últimos anos estas centenas de prendas pelo Natal, apenas   O juramento anti corrupção atrás referido era o que
           e só pelo simples espírito natalício, e jamais senhores, para   os “patéis”,  encarregados  de  arrendarem  as  terras  da
           garantir cumplicidades e facilitar favores na manutenção   administração e recolher as rendas das 72 aldeias de
           dos seus ganhos de milhões… Elementar meu caro Watson,   Dadrá  e  Nagar Aveli,  territórios  maratas  cedidos  aos
           diria Sherlock Holmes se alguma vez fosse vivo!    portugueses em 1779 a troco da paz, e incorporados
              É caso para não rir, mas sim chorar, pois de nada mais   no  distrito  de  Damão  (antigo  Estado  Português  da
           se trata senão o de mais uma vez estes “comissários polí-  Índia), tinham que prestar perante a autoridade admi-
           ticos”, de todas as idades, procurarem passar um atestado   nistrativa.
           de menoridade e estupidez a todos nós, os não “boys”, o   Assim rezava tal juramento: «Nós, patéis, tendo dado
           povo  português!  Enfim…uma  miséria  inadmissível  com    as  mãos  e  apanhado  um  torrão  de  terra  das  nossas
           o  secretismo,  os  jogos  de  cintura  e  o  contrabando  das   respectivas aldeias, um pedaço de excremento de vaca,
           influências a subverterem a transparência e a vida demo-  arroz e um bocado de palha, juramos por Purmocheruz
           crática que ambicionamos.                          (uma das milhares de divindades diferentes que os hindus
              Aqui  pelo  Oriente  Português  essa  má  administração   cultivam),  que  fielmente  mostraremos  e  caminharemos
           da causa pública e o desejo ambicioso de enriquecer fa-  pelo verdadeiro limite das nossas aldeias, e honradamente
           cilmente, também “animou” muitos fidalgos e alguns go-  cumpriremos os trabalhos […] e se assim o não fizermos,
           vernadores e Vice-Reis a tirar proveito das suas posições.   permita  deus  que  morramos  antes  de  chegarmos  às
           Estes, entregando-se sem rebuço aos favores e subornos,   nossas casas, ou sejam estas queimadas; que morram
           contribuíram também, sem dúvida alguma, para a deca-  as nossas mulheres, os nossos filhos e o nosso gado; que
           dência do Império … o que certamente levou a que um   as terras que cultivamos não produzam ou que deus
           dos actores intervenientes na telenovela “Face Oculta”, de   nos castigue, por qualquer outro aflitivo modo». Ater-
           cabelo já grisalho, advogasse ser «uma prática social, velha   rador juramento oriundo do tempo do Império Mara-
           de  décadas,  para  não  dizer  de  séculos,  genericamente   ta e que as autoridades administrativas portuguesas não
           aceite, praticada e consentida».                   conseguiram  “suavizar”  por  exigência  da  população
              Mas neste Oriente também houve louváveis exemplos   gentílica, os “varlis”.
           de  integridade  e  até  um  juramento  interessante,  anti-   Enfim  verdades,  esta  última  de  terras  de  gente
           -corrupção, que se cumpria a preceito.             marata; as nossas, neste cantinho à beira mar plantado,
              Louvável exemplo foi o do capitão D. Henrique de   são  outras “verdades”,  digamos,  da  terra  de  gente  já
           Menezes, herói das batalhas de Panane e Coutele quan-  marada…!


                                                                              Boletim da Associação dos Pupilos do Exército  |  5
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