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                                  O príncipe sapo


           ANTóNIO BARROSO
           19460120




                uando se começa uma história pelo “era uma vez...”,   situavam nuns ilhéus, lá para os confins do reino e a quem
           Qde  imediato,  se  está  a  induzir  o  leitor,  para  um   eram  atribuídos  poderes  maléficos  que  se  comentavam,
           acontecimento  fictício  que  se  irá  narrar,  situado  num   em surdina, e de que eu duvidava, mas que, infelizmente,
           passado mais ou menos longínquo.                       acabei, por experiência própria, comprovando a sua
              Ora, a odisseia, aventura, tragédia ou o que         veracidade.
           mais lhe queiramos chamar, e que vou relatar,              Um dia, farto daquela perseguição, vi-me obri-
           é  verídica,  situa-se  nos  nossos  dias  e  passou-se   gado a dizer-lhe:
           comigo, tendo, portanto, toda a verosimilhan-                  – Menina – e quanto esta palavra me repug-
           ça que os leitores lhe pretendam atribuir.                     nou pronunciar, já que de menina nada tinha
           Assim, para uma maior facilidade de                              – agradeço que não se atravesse mais no
           enumeração dos factos, toda a narra-                              meu caminho – ao que ela respondeu,
           tiva  será  contada  na  forma  dum                                 rojando-se ao chão, a meus pés:
           discurso directo.                                                      – Oh! meu príncipe adorado, casa
              Ora, há uns anos atrás, não muitos,                               comigo que eu te darei tudo o que
           habitava o faustoso e imponente palácio                           desejares.
           dos Sonhos, situado no reino da Fantasia, onde meu pai   – Só se fosse louco – repliquei, afastando-me, rapida-
           era Rei absoluto, e eu o Príncipe herdeiro. Na pia baptis-  mente.
           mal foi-me dado o nome de Tiago, colhido dum ancestral   A Feia, chamemos-lhe assim, porque nem sequer sei,
           que se tornou célebre pela sua erudição poética e cujas   ainda hoje, o seu nome verdadeiro, lavada em lágrimas, foi
           obras acompanharam os séculos e constam dos livros di-  fazer queixinhas à mamã (costume que ainda hoje se usa
           dácticos em uso nas escolas. Ainda podia ser visto nalguns   nas  famílias  poderosas)  que,  em  defesa  do  seu  rebento,
           selos que meu pai mandava editar para gozo da maioria   aproveitou para pôr em prática os poderes de que tanto
           dos coleccionadores e contribuição generosa para reposi-  se cochichava pelos corredores do palácio.
           ção dos níveis dos cofres do estado.                  Então,  quando,  um  dia,  me  encontrava,  no  jardim,
              Meus pais ainda se sentiram tentados a chamar-me de   sentado à beira do lago dos nenúfares, gozando a ameni-
           Adónis, mas concluíram que a mitologia grega nada tinha   dade  da  primavera  e  a  companhia  daquele  bando  de
           a ver com o nosso reino.                           garças de cintura fina e saias rodadas, surgiu, bem no alto
              Era um jovem e formoso príncipe, diga-se sem falsa   das escadarias, desgrenhada e de braços escanzelados, com
           modéstia,  não  só  porque  todos  os  espelhos  do  palácio   as vestes  negras esvoaçando ao vento,  a  bruxa condessa
           assim o afirmavam, como também o diziam, embevecidas,   que logo vociferou em voz rouca – também se dizia (in-
           as fidalgas casadoiras que pululavam por todos os sítios   trigas palacianas) que ela abusava da aguardente com que
           onde me deslocava. Nesse séquito que eu dispensaria de   fazia as mistelas:
           bom grado, por já se tornar maçador e repetitivo, havia   –  Príncipe  –  e  enquanto  eu  a  olhava  surpreendido,
           uma rapariga, se assim se lhe poderia chamar, pois era de   continuou – ofendeste de tal modo a minha filhinha ido-
           tal forma feia, seca, esquelética e achatada de peito, que   latrada, amor da minha vida, que, para isso, só existe uma
           os espelhos estalavam à sua passagem, e todos os animais   forma de expiação de culpa.
           fugiam à sua aproximação. Perseguia-me por todo o lado,   Por toda a assistência passou um frémito de medo e,
           numa  insistência  contínua,  metódica,  diária  e  deveras   sem me dar tempo a balbuciar uma única palavra, lançou-
           embaraçosa. Se queria um gelado, logo me surgia com um   -me uma maldição:
           cone de chocolate; se estava com calor, à minha frente,   –  A  partir  deste  momento,  príncipe,  serás  igual  ao
           surgia um refresco de maracujá ou outro que achasse que   primeiro animal que passar perto de ti, e só regressarás à
           eu gostaria; se, em dada altura, me apetecia...bem, é me-  tua verdadeira forma quando souberes apreciar três coisas
           lhor passarmos adiante.                            verdadeiramente  belas  –  e  lançando  faíscas  dos  olhos
              Era ela filha da condessa Lucrécia, cujos domínios se   enormes, soltou um rugido que fez empalidecer o sol.



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