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cRóNIcAs (cont.)
Ainda mal refeito daquela cena, e antes de poder cor- ensinar as técnicas de sobrevivência, e logo pensei que a
rer às estrebarias do palácio para ver em primeiro lugar falta de harmonia daquele ser, o desfeiteava, mas algo
um lindo cavalo lusitano que a Coudelaria de Alter tinha havia, um sentimento, uma alma, que superava a falta da
oferecido a meu pai, não fosse a maldição realizar-se, vi, beleza estética. E, então, não é que um segundo clic se fez
de súbito, um pequeno sapo que saltitava entre os caules ouvir, ainda com maior intensidade. Era a beleza da alma.
das plantas e, imediatamente, me achei a seu lado, pulan- Doutra feita, quando meditava à beira do lago dos
do, numa perfeita imitação, que eu, no entanto, considerei nenúfares, reparei numa pequena criança que se debruçava,
bem desajeitada. Compreendi, então, que a profecia se perigosamente, para brincar com a água. Era-me impossível
havia realizado e, envergonhado com o traje verde e vis- avisá-la do perigo que corria e que acabou por suceder. No
coso que me cobria, aflito e desesperado, corri a esconder- entanto, sem que disso me tivesse apercebido, um pequeno
-me entre aqueles arbustos que me cercavam. cão, rafeiro, que mais tarde ouvi chamar de Jóia, atirou-se
Para além de não ter palavras para vos explicar todos para o lago e foi puxando a criança para a margem. Aqui,
os martírios e as agruras por que passei, desde a fuga às no meu pensamento só existia a palavra amor, e como é
pedradas dos meninos, os saltos para escapar às enxadas belo apreciar os actos que o mesmo origina. Um terceiro
dos jardineiros, ou a fuga aos gatos vadios que me procu- clic soou logo a seguir. Era a beleza do amor.
ravam para almoço, levaria horas a enumerá-las devida- Então, repentinamente, senti-me eu, de novo, encosta-
mente. Passava o tempo escondido em buracos do jardim do a um banco do jardim, semi encoberto pelo arvoredo,
ou em poças de água que, no Inverno, me faziam tiritar e para espanto e surpresa dum par de namorados, que ali
suspirar pelo ar condicionado do meu confortável quarto. procuravam refúgio dos olhares indiscretos.
Um dia, quando vi surgirem dois pequenos lagartinhos, Pronto, eis a minha história. Muitos não acreditarão,
possivelmente filhos do meu vizinho das pedras, e surgirem considerá-la-ão inverosímil, pensarão tratar-se dum conto
novas minhocas dos buracos que as abrigavam no jardim, para crianças, e não verão a beleza, como eu a vi naqueles
dei por mim a pensar na beleza e magia da vida que se momentos de infortúnio. Agora que aquela fase já passou,
reproduzia a cada momento. E um clic soou de imediato, e com mais uns anos em cima, continuo belo porque os
como se cronometrasse um acontecimento. Era a beleza espelhos não enganam.
da vida. A Jóia foi a cadelinha que eu adoptei e, por favor, não
Doutra vez, assisti a uma pequena ave, sem uma pati- me chamem Adónis, eu continuo, modestamente, a ser
nha, saltitar, desajeitada, em torno dum filhote para lhe Tiago.
Boletim da Associação dos Pupilos do Exército | 7