Page 9 - Boletim APE_226
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cRóNIcAs (cont.)





              Ainda mal refeito daquela cena, e antes de poder cor-  ensinar as técnicas de sobrevivência, e logo pensei que a
           rer às estrebarias do palácio para ver em primeiro lugar   falta  de  harmonia  daquele  ser,  o  desfeiteava,  mas  algo
           um lindo cavalo lusitano que a Coudelaria de Alter tinha   havia, um sentimento, uma alma, que superava a falta da
           oferecido a meu pai, não fosse a maldição realizar-se, vi,   beleza estética. E, então, não é que um segundo clic se fez
           de súbito, um pequeno sapo que saltitava entre os caules   ouvir, ainda com maior intensidade. Era a beleza da alma.
           das plantas e, imediatamente, me achei a seu lado, pulan-  Doutra  feita,  quando  meditava  à  beira  do  lago  dos
           do, numa perfeita imitação, que eu, no entanto, considerei   nenúfares, reparei numa pequena criança que se debruçava,
           bem  desajeitada.  Compreendi,  então,  que  a  profecia  se   perigosamente, para brincar com a água. Era-me impossível
           havia realizado e, envergonhado com o traje verde e vis-  avisá-la do perigo que corria e que acabou por suceder. No
           coso que me cobria, aflito e desesperado, corri a esconder-   entanto, sem que disso me tivesse apercebido, um pequeno
           -me entre aqueles arbustos que me cercavam.        cão, rafeiro, que mais tarde ouvi chamar de Jóia, atirou-se
              Para além de não ter palavras para vos explicar todos   para o lago e foi puxando a criança para a margem. Aqui,
           os martírios e as agruras por que passei, desde a fuga às   no meu pensamento só existia a palavra amor, e como é
           pedradas dos meninos, os saltos para escapar às enxadas   belo apreciar os actos que o mesmo origina. Um terceiro
           dos jardineiros, ou a fuga aos gatos vadios que me procu-  clic soou logo a seguir. Era a beleza do amor.
           ravam para almoço, levaria horas a enumerá-las devida-  Então, repentinamente, senti-me eu, de novo, encosta-
           mente. Passava o tempo escondido em buracos do jardim   do a um banco do jardim, semi encoberto pelo arvoredo,
           ou em poças de água que, no Inverno, me faziam tiritar e   para espanto e surpresa dum par de namorados, que ali
           suspirar pelo ar condicionado do meu confortável quarto.  procuravam refúgio dos olhares indiscretos.
              Um dia, quando vi surgirem dois pequenos lagartinhos,   Pronto, eis a minha história. Muitos não acreditarão,
           possivelmente filhos do meu vizinho das pedras, e surgirem   considerá-la-ão inverosímil, pensarão tratar-se dum conto
           novas minhocas dos buracos que as abrigavam no jardim,   para crianças, e não verão a beleza, como eu a vi naqueles
           dei por mim a pensar na beleza e magia da vida que se   momentos de infortúnio. Agora que aquela fase já passou,
           reproduzia a cada momento. E um clic soou de imediato,   e com mais uns anos em cima, continuo belo porque os
           como se cronometrasse um acontecimento. Era a beleza   espelhos não enganam.
           da vida.                                              A Jóia foi a cadelinha que eu adoptei e, por favor, não
              Doutra vez, assisti a uma pequena ave, sem uma pati-  me  chamem Adónis,  eu  continuo,  modestamente,  a  ser
           nha, saltitar, desajeitada, em torno dum filhote para lhe   Tiago.













































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