Page 6 - Boletim APE_226
P. 6
cRóNIcAs
A propósito do acordo
ortográfico de 1990
LICÍNIO GRANADA
19490154
ACORDO. Arauto da consciência cívica e cultural com talento e sentido estético – Garrett, Eça, Pessoa,
O duma comunidade que se singularizava por inefáveis Aquilino, Torga, Agustina, Saramago. Alongar esta lista
laços de solidariedade e elevado índice de aproveita- seria exaustivo.
mento escolar, o Boletim da APE arquiva na beleza das
suas páginas, uma profusão de temas e acontecimentos, A INSENSIBILIDADE DOS PODERES PÚBLICOS.
vividos na imparável voragem dos tempos por sucessivas O desenvolvimento da cultura nacional, ora a popular,
gerações de jovens. Porque escrita e leitura são pólos ora a erudita, tem sido afectado por severas reduções
complementares da mesma matriz cultural, o presente orçamentais. E nesta escassez de meios, persiste-se em
artigo propõe ocupar-se, numa postura meramente pes- privilegiar o binómio ciência e tecnologia, em detrimen-
soal, do tão propalado acordo ortográfico de 1990. Pre- to do estudo das humanidades, relegando estas para um
tendi compô-lo há mais tempo, mas impertinente doen- escalão inferior. Parece tardar a aceitação de que o saber,
ça manteve-me hospitalizado e inactivo por um longo nas suas múltiplas vertentes, promove o desenvolvimen-
espaço de dez semanas. Se não erro, foi no ano de 2011 to cognitivo, porque alarga os horizontes pessoais, con-
que apareceram em Portugal, com visível frequência, os ferindo uma visão mais clara e assertiva da vida. Não
primeiros livros, jornais e revistas escritos segundo o admira, por isso, que uma população culta tenha melhor
supradito acordo. Confesso que jamais senti o menor preparação crítica e esteja mais habilitada para interpre-
comprazimento por este grilhão atirado ao país de forma tar as atribulações e as complexidades do mundo con-
impositiva, numa chocante rendição ao modo de escrever temporâneo. Acresce, que estudos realizados além-fron-
brasileiro. Seria curial que os intelectuais portugueses, ou teiras, indicam ser a população com melhor nível de
parte deles, tivessem sido previamente consultados – lin- escolaridade, a mais feliz e a que desfruta de maior bem-
guistas, académicos, professores, críticos literários, histo- -estar subjectivo. A este propósito, não posso silenciar o
riadores. Como é do conhecimento geral, faz parte do meu repúdio pela suspensão dos feriados nacionais de 1
acordo, a eliminação das consoantes mudas, assim como de Dezembro e 5 de Outubro, desrespeito primário pela
de muitos acentos gráficos, a par de uma pluralidade de nossa História, afigurando-se por outro lado, muito du-
alterações introduzidas nas regras de formação das pala- vidosos os alegados benefícios daí resultantes para a
vras compostas, o que descaracteriza a nossa língua neo- economia nacional.
latina, prestigiada a partir do século XIII, quando passou
a ser obrigatório o seu uso em todos os documentos EPÍLOGO. Outras potências colonizadoras, como a
oficiais, em substituição do Latim, que foi a língua fran- Inglaterra e a França, souberam preservar a sua integri-
ca dos mundos clássico e medieval. Pena é que um dade linguística sem recorrerem a arranjos acomodatícios
acordo tão abrangente não tenha abolido as estafadas e a ditames que pusessem em causa a dimensão cultural
expressões do tipo “há uma semana atrás”; “há muitos da língua. Notemos, por exemplo, que os ingleses escre-
anos atrás”. É claro que “uma semana à frente” ou “mui- vem “harbour”, “programme”, “centre”, enquanto os
tos anos à frente”, não podia ser. São frases temporais de norte-americanos usam “harbor”, “program”, “center”.
que muito se abusa em Portugal e no Brasil, quer na Pelas razões expostas, e respeitando sempre as opiniões
escrita, quer na oralidade. Ponha-se de parte nestes casos, diferentes, o autor deste modesto apontamento, conti-
o uso simultâneo do verbo “haver” e do advérbio “atrás”. nuará, sem presunção intelectual, a ignorar o acordo de
E prefira-se “uma semana atrás” ou “há uma semana”; 1990, escrevendo português como os seus dignos profes-
“muitos anos atrás” ou “há muitos anos”. A língua portu- sores ensinaram, salvaguardadas as mutações ocorridas ao
guesa atingiu o apogeu no século XVI com Luís de longo dos anos, consequentes da evolução natural da
Camões e Padre António Vieira, nomes geniais da litera- língua, como acontece desde que a difusão do Latim
tura portuguesa e prosseguiu com outras figuras notá- vulgar na Península Ibérica, lhe deu origem.
veis do nosso património literário, que apuraram a prosa
4 | Boletim da Associação dos Pupilos do Exército