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                                  A propósito do acordo



                                  ortográfico de 1990


           LICÍNIO GRANADA
           19490154




                ACORDO. Arauto da consciência cívica e cultural   com  talento  e  sentido  estético  –  Garrett,  Eça,  Pessoa,
           O  duma comunidade que se singularizava por inefáveis   Aquilino, Torga, Agustina,  Saramago. Alongar  esta  lista
           laços  de  solidariedade  e  elevado  índice  de  aproveita-   seria exaustivo.
           mento escolar, o Boletim da APE arquiva na beleza das
           suas páginas, uma profusão de temas e acontecimentos,   A INSENSIBILIDADE DOS PODERES PÚBLICOS.
           vividos na imparável voragem dos tempos por sucessivas   O  desenvolvimento  da  cultura  nacional,  ora  a  popular,
           gerações  de  jovens.  Porque  escrita  e  leitura  são  pólos   ora  a  erudita,  tem  sido  afectado  por  severas  reduções
           complementares  da  mesma  matriz  cultural,  o  presente   orçamentais.  E  nesta  escassez  de  meios,  persiste-se  em
           artigo propõe ocupar-se, numa postura meramente pes-  privilegiar o binómio ciência e tecnologia, em detrimen-
           soal, do tão propalado acordo ortográfico de 1990. Pre-  to do estudo das humanidades, relegando estas para um
           tendi compô-lo há mais tempo, mas impertinente doen-  escalão inferior. Parece tardar a aceitação de que o saber,
           ça  manteve-me  hospitalizado  e  inactivo  por  um  longo   nas suas múltiplas vertentes, promove o desenvolvimen-
           espaço de dez semanas. Se não erro, foi no ano de 2011   to cognitivo, porque alarga os horizontes pessoais, con-
           que apareceram em Portugal, com visível frequência, os   ferindo  uma  visão  mais  clara  e  assertiva  da  vida.  Não
           primeiros  livros,  jornais  e  revistas  escritos  segundo  o   admira, por isso, que uma população culta tenha melhor
           supradito  acordo.  Confesso  que  jamais  senti  o  menor   preparação crítica e esteja mais habilitada para interpre-
           comprazimento por este grilhão atirado ao país de forma   tar  as  atribulações  e  as  complexidades  do  mundo  con-
           impositiva, numa chocante rendição ao modo de escrever   temporâneo. Acresce, que estudos realizados além-fron-
           brasileiro. Seria curial que os intelectuais portugueses, ou   teiras,  indicam  ser  a  população  com  melhor  nível  de
           parte deles, tivessem sido previamente consultados – lin-  escolaridade, a mais feliz e a que desfruta de maior bem-
           guistas, académicos, professores, críticos literários, histo-  -estar subjectivo. A este propósito, não posso silenciar o
           riadores.  Como  é  do  conhecimento  geral,  faz  parte  do   meu repúdio pela suspensão dos feriados nacionais de 1
           acordo, a eliminação das consoantes mudas, assim como   de Dezembro e 5 de Outubro, desrespeito primário pela
           de muitos acentos gráficos, a par de uma pluralidade de   nossa História, afigurando-se por outro lado, muito du-
           alterações introduzidas nas regras de formação das pala-  vidosos  os  alegados  benefícios  daí  resultantes  para  a
           vras compostas, o que descaracteriza a nossa língua neo-   economia nacional.
           latina, prestigiada a partir do século XIII, quando passou
           a  ser  obrigatório  o  seu  uso  em  todos  os  documentos   EPÍLOGO.  Outras  potências  colonizadoras,  como  a
           oficiais, em substituição do Latim, que foi a língua fran-  Inglaterra e a França, souberam preservar a sua integri-
           ca  dos  mundos  clássico  e  medieval.  Pena  é  que  um   dade linguística sem recorrerem a arranjos acomodatícios
           acordo  tão  abrangente  não  tenha  abolido  as  estafadas   e a ditames que pusessem em causa a dimensão cultural
           expressões  do  tipo “há  uma  semana  atrás”; “há  muitos   da língua. Notemos, por exemplo, que os ingleses escre-
           anos atrás”. É claro que “uma semana à frente” ou “mui-  vem  “harbour”,  “programme”,  “centre”,  enquanto  os
           tos anos à frente”, não podia ser. São frases temporais de   norte-americanos  usam  “harbor”,  “program”,  “center”.
           que  muito  se  abusa  em  Portugal  e  no  Brasil,  quer  na   Pelas razões expostas, e respeitando sempre as opiniões
           escrita, quer na oralidade. Ponha-se de parte nestes casos,   diferentes,  o  autor  deste  modesto  apontamento,  conti-
           o uso simultâneo do verbo “haver” e do advérbio “atrás”.   nuará, sem presunção intelectual, a ignorar o acordo de
           E  prefira-se  “uma  semana  atrás”  ou  “há  uma  semana”;   1990, escrevendo português como os seus dignos profes-
           “muitos anos atrás” ou “há muitos anos”. A língua portu-  sores ensinaram, salvaguardadas as mutações ocorridas ao
           guesa  atingiu  o  apogeu  no  século  XVI  com  Luís  de   longo  dos  anos,  consequentes  da  evolução  natural  da
           Camões e Padre António Vieira, nomes geniais da litera-  língua,  como  acontece  desde  que  a  difusão  do  Latim
           tura  portuguesa  e  prosseguiu  com  outras  figuras  notá-   vulgar na Península Ibérica, lhe deu origem.
           veis do nosso património literário, que apuraram a prosa



           4  |  Boletim da Associação dos Pupilos do Exército
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