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cróNicas



            ANTóNio BArroSo
            1946.0120


            crónica duma acidentada viagem


            ao café da esquina que é o mesmo que dizer Fui a penates beber uma bica





               Era uma vez...                                  tunidade de soltar um comentário, uma exclamação, um
                                                               suspiro, nada, e apoiando-me, alternadamente, apenas numa
               Ora bolas! Era uma vez... o tanas... Quem é que estou   das pernas, que não têm a obrigação, sozinhas e por tanto
            a tentar enganar?                                  tempo, de suster mais de cento e dez quilos bem pesados.
               É que esta crónica não se refere a nenhuma enfadonha   Assim que pude, desci um lanço de escadas e escapu-
            história de fadas e duendes para adormecer criancinhas. O   li-me pela porta principal do edifício, cuja fechadura, para
            assunto é muito mais sério e profundo, digno de interesse   minha  vergonha  –  anterior  administrador  –  se  encontra
            académico. Trata-se de descrever a odisseia, sempre pre-  num  impecável  estado  de  conservação.  Dantes,  fechava
            sente, duma complexa deslocação a paragens tão longínquas   umas  vezes,  outras  não. Agora  já  não  há  intermitências,
            como  à  Avenida  dos  Maristas,  na  Parede  –  conhecem?   não fecha nunca.
            Não!!! Santa ignorância! – com todos os perigos inerentes   Entrei, então, na linda, luxuosa, extensa e cosmopolita
            e os obstáculos que, necessariamente, têm de ser ultrapas-  rua marginal, sobranceira à turística ribeira das Marianas,
            sados. Tem muito que se lhe diga. Ufa!             paradisíaco local que, salvaguardando embora as respecti-
               Pois bem, tudo começou num dia qualquer deste mês,   vas distâncias, nos faz lembrar Guanabara, Copacabana ou
            ou do mês anterior, já não me recordo – se bem que a data   a Barra da Tijuca. Falta a vista do Corcovado ou do Cris-
            exacta seja pouco relevante, para o caso – numa manhã   to Rei, mas o que é isso que uma imaginação treinada e
            que resolvi situar sem chuva, para não ter de carregar com   fértil não possa superar? É apenas uma questão perspec-
            as respectivas coberturas. Se falasse numa manhã de ne-  tiva! Ou de tempo! Ou, até mesmo, de memória!
            voeiro,  logo  me  apelidariam  de  monárquico  por  evocar    Porém, continuando, evitei cair num buraco do passeio,
            D. Sebastião, o que, diga-se em abono da verdade, não me   estrategicamente, colocado mesmo por debaixo da janela
            incomodaria, minimamente. Por isso, fica assente, era ape-  do  meu  vizinho,  porque  já  estava  precavido  e  à  espera
            nas  uma  manhã  normal,  como  tantas  outras,  com  o  sol   duma jovial brincadeira da Câmara – ou da Junta de Fre-
            suficiente para secar a roupa no estendal das traseiras.  guesia. Ai estes serviços públicos, e as suas maneiras sim-
               Comecei a aventura abrindo a porta de casa – não sei   páticas de desejar bom dia aos munícipes!
            outra forma de sair pois não me assemelho a Houdini, nem   Estragam-nos com mimos!
            possuo o poder da desmaterialização – na altura correcta,   As pedras arrancadas da calçada e que deveriam estar
            no sítio certo o no momento oportuno, como diria o meu   junto do local, em monte, para serem atiradas à cabeça do
            amigo Toino da Buraca, típico e afamado cigano, empresá-  presidente, quando por aqui passasse, como retribuição e
            rio de roupas de marca, que exerce a sua actividade, todas   resposta ao passatempo, devem ter sido levadas por algum
            as quintas feiras, na FIC – Feira Internacional de Carcave-  incivilizado para se compensar do IRS pago e calcetar o
            los – empoleirado num exíguo estrado de madeira.   quintal,  ou  então  para,  primeiro,  praticar  com  a  sogra
               Continuando,  porém,  logo  ali,  dei  de  caras  com  um   antes de entrar na brincadeira geral.
            pequeno saco de pano semiaberto, parecendo conter arti-  Pensando  estar  livre  de  armadilhas,  acabei  por  pisar
            gos de limpeza, dois tapetes assentes no corrimão e, su-  uma pastosa poia que parecia ter sido feita mesmo à me-
            postamente  escovados,  um  balde  de  plástico  com  água   dida  do  meu  pé.  Era  difícil  livrar-me  daquele  obstáculo
            ensaboada, um encardido e esfarrapado pano do chão, uma   porque  outros  havia  à  frente,  atrás,  dos  lados,  e  com  as
            longa esfregona de cabo encarnado e, na continuação des-  formas mais inconcebíveis que imaginar se possa. Não fora
            ta,  uma  anafada  senhora  Maria,  pessoa  de  farta  palavra,   a involuntária pisadela, que me fez vociferar raios e coris-
            afiada língua e não menos prolongada eloquência.   cos, e até teria ficado a contemplar os desenhos artísticos
               É-me  possível  descrever  o  cenário  com  tanto  rigor,   que forravam toda aquela parte do passeio. Agora compre-
            porque nele permaneci quinze longos e dolorosos minutos,   endo  porque  a  todo  este  conjunto  se  costuma  chamar
            ouvindo as primeiras notícias da manhã, as últimas da zona   calçada  à  portuguesa.  É  típico! Artisticamente,  perfeito!
            e as previsões para o resto do dia, sem ter sequer a opor-  E, sobretudo, turístico!



       8  Boletim da associação dos PuPilos do exército
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