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cróNicas






            se sentiu tolhido por um regime cinzento e asfixiante, que   -se mesmo numa matriz de permutação assente em algo-
            negava até o sonho que a liberdade nos impele a deixar   ritmos e regras matemáticas, para reger as entradas e saídas
            crescer dentro de nós. tal como ele, o meu percurso mili-  dos diversos naipes de vozes, não é mais do que um rigo-
            tar,  iniciado  nos  pupilos  e  depois  complexa  e  de  certo   roso jogo do gato e do rato entre silêncios e sons que se
            modo  sofredoramente  assumido  durante  toda  a  minha   perseguem consecutivamente, variando apenas nas harmo-
            carreira,  foram  trinta  e  seis  anos  de  vida  provisória  que   nias que se sucedem e de cada vez que parecem terminar,
            cumpri quase contra-natura, tempo e vivências de que não   se reinventam até um êxtase de emoções, em que os silên-
            me queixo, mas de que me arrependo não ter tido a co-  cios morrem e renascem ao mesmo ritmo das notas que
            ragem  suficiente  para  repelir.  orgulho-me  de  ter  sabido   se lhes opõem... sem silêncios, nada disto seria possível!
            gerir  esse  tempo,  de  sempre  ter  tido  a  consciência  de  o   cada um de nós é um ser gerador e gestor dos nossos
            criticar naquilo que me era impossível calar, mas também   silêncios e quantas vezes não é preferível soltá-los estri-
            de ter dado o meu melhor e tentado contribuir para a sua   dentemente  contra  os  argumentos  de  quem  julga  que  a
            humanização, na apertada teia duma mentalidade que não   razão  é  uma  arma  sonora  que  nos  cala  pelo  volume  de
            cabia na minha própria. não se é militar por se exercer a   decibeis  com  que  pretendem  inundar  a  nossa  serena  e
            profissão de militar. eu exerci-a sem realmente o ser, por-  silenciosa razão...
            que isso sempre foi incompatível com a minha interiori-  se tivesse sido possível, duma forma entendível, este
            dade,  mas  tentei  ser  honesto  comigo  próprio  e  com  a   meu escrito de hoje, teria contemplado apenas um pro-
            instituição.  sincero  e  feliz  dentro  dela,  talvez  não  tenha   fundo silêncio de reflexão e nostalgia de coisas que ainda
            sido...                                            me  fazem  acreditar  na  determinante  importância  das
               uma  vida  assim  é  também  recheada  de  silêncios,  em   pessoas e dos afectos. no importante que é podermos dizer,
            contraponto com picos de indignação que não conseguimos   simplesmente, que gostamos de alguém, que partilhamos
            por  vezes  reprimir.  assumo  essa  dicotomia  plenamente,   e que acrescentamos qualidade de vida a nós e aos outros,
            porque  reside  também  nos  consensos,  a  arte  da  fuga  às   só pelo facto de sermos aquilo que somos... dizê-lo, mesmo
            contrariedades da vida. e aqui, voltamos de novo à música.   em silêncio...
            a arte da fuga, peça inacabada do compositor alemão Johann
            Sebastian Bach, com a suas fugas e contrapontos, baseando-                       lisboa. 08. maio. 2011





















                         A. Borges Pires, Santos Pereira, Pires Pereira & Associados, RL



                                               ÁREAS PREFERENCIAIS:
                           DIREITO LABORAL, DIREITO COMERCIAL, DIREITO CIVIL,

                                  CONTENCIOSO CIVIL, LABORAL E COMERCIAL



                                         António Borges Pires: abp@abpa.pt
                                       Henrique Santos Pereira: hsp@abpa.pt

          AMOREIRAS, TORRE 3, 5º PISO, 511, 1070-274 LISBOA | TEL. +351 212 454 262 - FAX: +351 212 454 284





       6  Boletim da associação dos PuPilos do exército
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