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cróNicas



          JAciNTo rego De ALmeiDA
          1952.0049
                                                             dante e não tenho coragem de explicar que não sou) com
                                                             os velhos companheiros de estrada damo-nos conta que
                                                             há entre nós palavras, afectos e intenções que são intem-
          conflito de gerações?                              porais,  não  envelheceram.  E  isto  é  tão  simples  como  o
                                                             esvoaçar das asas de uma borboleta.
                                                               Depois da reunião fui ver o filme “O bom soldado”, do
                                                             realizador japonês Koji Wakamatsu que nos anos setenta
                                                             do século passado advogou a luta armada e que nos seus
            Durante o almoço, um almirante reformado falou na
          música “Parva que eu sou” do grupo Deolinda, “a música   filmes mais recentes (o outro é “Exército Vermelho Unido”)
          é  engraçada”…um  outro  mencionou  os  recibos  verdes  e   traça um retrato das gerações do seu país devastadas pela
          interrompeu  para  dizer  que  falta  “rua”  na  democracia   II Grande Guerra e pela guerrilha urbana dos anos seten-
          portuguesa, que a letra da música dos Deolinda é confor-  ta. Repito: gerações devastadas.
          mista, “não tem a força das músicas de protesto do nosso   Mas regresso ao ponto de partida desta crónica, a mú-
          tempo”,  e  que  a  Praça  Tahrir,  no  Cairo,  tornou-se  um   sica “Parva que sou eu”. Agora temos em Portugal elevados
          símbolo de liberdade.                              déficits público e externo, desemprego, uma recessão eco-
            – A praça da liberdade – sussurrei.              nómica  à  vista,  um  modelo  político  envelhecido,  uma
            O  almoço  destinava-se  a  organizar  as  comemorações   justiça cara e morosa e uma reforma do estado eternamen-
          dos cinquenta anos da entrada na Escola Naval do curso   te  adiada,  mas  há  também  estado  social,  boas  infra-
          de que fiz parte. O curso “Nuno Tristão” que deu um Minis-   -estruturas,crédito e democracia que não existiram para a
          tro do Mar e Secretario de Estado dos Negócios Estrangei-  geração anterior. Na vida da geração de que faço parte, o
          ros,  dez  almirantes,  um  deles  ex-Chefe  do  Estado-Maior   Estado Novo zelava pelas contas certas, mas havia miséria,
          General das Forças Armadas e outro ex-Chefe do Estado-   ausência de estado social e um gigantesco deficit demo-
          -Maior da Armada, muitos chefes militares que se bateram   crático. E este deficit teve um elevado preço que foi pago.
          nas três frentes da guerra colonial, três desertores que se   Essa geração fez o que fez, viveu o  boom económico, as
          exilaram no estrangeiro e foram amnistiados após a Revo-  mudanças  urbanas,  a  liberação  dos  costumes,  a  guerra
          lução de 1974, vários revolucionários de primeira hora do   colonial  e  a  descolonização,  a  globalização,  muitos  não
          25  de Abril  que  instaurou  a  democracia  no  país,  um  ou   sobreviveram…  e  a  organização  das  comemorações  do
          outro bem sucedidos empresários, um professor universi-  meio  século  da  entrada  do  curso  de  que  fiz  parte  na
          tário, um antigo vereador da Câmara Municipal de Lisboa,   Escola Naval permite uma amostragem que fala por si.
          um médico, um (cujo paradeiro se desconhecia)que morreu   Sabemos que o progresso não é contínuo, desenvolve-
          na Nova Zelândia num desastre num monomotor quando   -se  por  ciclos  e  a  geração  do  Deolinda  é  a  primeira,  no
          (diz-se) exercia a profissão de fotógrafo aéreo, um antigo   nosso país, que irá regredir em relação à geração anterior
          forcado do grupo de Montemor, um antigo árbitro de tor-  em  termos  de  parâmetros  de  bem-estar.  Isto  após  um
          neios  internacionais  de  bridge,  outro  columbófilo,  um    período longo (de quase meio século) de desenvolvimen-
          antigo presidente do Vitória de Setúbal, um (já me esque-  to  continuado.  Jean-François  Lyotard  escreveu  sobre  o
          cia) brilhante músico e compositor de guitarra portuguesa   assunto,  o  surgimento  do  conceito  de  progresso  a  partir
          e vai por aí fora. Participar da organização destas comemo-  do século XVIII e o fim de uma modernidade que con-
          rações foi como entrar num túnel do tempo.         templava  progresso  sem  fim  com  o  que  isso  arrasta  de
            Em 1961, éramos noventa e cinco jovens cadetes (um   utopia. Se se leu o filósofo francês poderá compreender-se
          número mais elevado do que o habitual devido ao início   a necessidade de conceber um outro horizonte para o que
          da guerra em Angola),pensávamos de forma diferente, mas   vem pela frente. A geração do Deolinda, como todas as
          partilhámos as mesmas aventuras com os sonhos de que   outras, tem direito à indignação, mas tem também a tare-
          precisamos para viver. Agora na faixa dos setenta anos e   fa de construir a sua história de uma forma ou de outra
          com netos voltamos a estar juntos para: missa por sufrágio   com a ajuda das gerações mais antigas. Para não se tornar
          dos dezanove que já faleceram, visitas ao Chefe do Estado-   também  uma  geração  devastada  por  razões  tais  como
          -Maior da Armada e à Escola Naval, homenagem ao patro-   expectativas  irrealistas,  frustração  e  alienação  social.  No
          no, jantar comemorativo, livro de curso…fiquei surpreen-  plano individual é claro que tem que se lutar pela felici-
          dido  com  o  convite  (sou  segundo-tenente  na  reserva   dade e pelo bem-estar e ter sorte. É a vida como ela é.
          desde 1974, sem direito a pensão) para participar da orga-   O  conflito  de  gerações  que  a  canção  evoca  é  uma
          nização.  Sou  o  único  civil  do  grupo,  o  que  é  visível  na   falácia. A praça da liberdade está aberta para ser ocupada
          aparência  e  nos  gestos.  Nos  almoços-reuniões  no  Clube   com  ideias  e  projectos  para  o  futuro  com  a  alegria  e  a
          Militar Naval (onde os funcionários me tratam por coman-  juventude das gerações mais novas.


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