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cróNicas



          erNANi BALSA
          1960.0300


          balsa a mil tempos... nos silêncios da memória






            o meu pai era músico. foi músico durante toda a vida.   área de desenvolvimento da sua arte, à justa medida das
          mesmo quando deixou de tocar, devido às contingências   suas capacidades e gostos musicais.
          da idade, todo o seu discurso, a sua atitude, o seu sorriso   embora possa não parecer, a ligação destes apontamen-
          ou tristeza, eram breves e inspiradas melodias de huma-  tos, que me fazem recordar o meu pai, a música e o seu
          nismo e bondade. os silêncios, mais constantes na última   trajecto e importância na vida dele e na minha, tem tudo
          fase da sua vida, eram também silêncios musicais, compas-  a  ver  com  uma  abordagem  que  sempre  quis  fazer  à
          sos de espera, que serenamente aguardavam o sinal dum   importância dos silêncios.
          maestro,  talvez  imaginário,  latente  ainda  no  seu  sub-   quando falamos, nos expressamos, interpretamos qual-
          -consciente, para atacar a nota e o compasso da sua pauta   quer  gesto  artístico,  em  qualquer  forma  de  expressão
          tantas vezes copiada e seguida à risca, como se exige numa   corporal ou intelectual, os silêncios estão lá. são hiatos do
          orquestra, agora na vida em direcção à morte...    nosso  discurso,  dos  quais  precisamos  para  evidenciar  a
            lembro-me da sua aturada tarefa de copiar pautas, para   parte  mais  visível,  audível  ou  principal  do  mesmo.  sem
          os mais diversos naipes da banda ou da orquestra, tarefa   silêncios, todo o acto discursivo ficaria incompleto e mui-
          essa  que  lhe  trazia  mais  alguns  dinheiros,  que  juntava   tas  vezes  ininteligível.  é  nos  silêncios  que  apoiamos  o
          àquilo que ganhava em diversas formações musicais onde   desenvolvimento  do  nosso  raciocínio,  é  deles  que  nos
          pertencia. o seu principal papel era na banda da gnr, para   servimos  para  dar  ênfase  a  determinadas  passagens  ou
          onde havia entrado ainda novo, após uma curta passagem   neles nos apoiamos para introduzir um breve, mas rigoro-
          pelas fileiras do exército, seguindo as passadas do seu pai,   so e indispensável, instante de reflexão ou de dúvida, sem
          cabo correeiro, aquele que tratava de arreios e outros arte-   os  quais  qualquer  discurso  se  tornaria  numa  linguagem
          factos ligados às artes equestres da instituição castrense.   sem alma e efeito emocional. os silêncios são a narrativa
          devolve-me a memória leves recordações sobre as histórias   duma meditação nunca revelada, mas que marcam defini-
          que me contava desse tempo, em que habitavam dentro   tivamente aquilo que ouvimos, vemos ou sentimos.
          das muralhas do castelo de s. jorge e donde, nos tempos   lembro-me do meu pai quase sempre fardado e uma
          conturbados  da  primeira  república,  assistiam,  numa     memória que conservo é do orgulho de o ver em concer-
          situação de observadores privilegiados, às escaramuças ou   tos, garboso e aprumado, dissimulando, no entanto, a sua
          revoltas entre as diversas facções políticas beligerantes que   condição de militar, com a mestria com que executava o
          a esse tempo floresciam, numa época em que a república   instrumento, o dominava e nele se sublimava numa arte
          ainda caminhava hesitantemente nos primeiros passos dum   única de interpretar com sons, as obras mais marcantes da
          regime que finalmente tinha deposto a monarquia.   história da música. ainda hoje conservo, em lugar de des-
            para além da sua principal actividade na banda da gnr,   taque, na casa que habitámos, um oboé e um corne-inglês,
          ia tendo outras intervenções musicais, quer em orquestras,   suas ferramentas de arte e de trabalho, espólio a que falta
          como a da antiga emissora nacional, quer noutras de ín-  ainda um clarinete, entretanto perdido nas curvas do tem-
          dole mais clássica e também nas pequenas orquestras que   po...  e  quedo-me  por  vezes,  no  silêncio  da  casa,  a olhar
          se constituíam para os espectáculos de revista no parque   aqueles que foram os seus utensílios de trabalho durante
          mayer. era uma luta constante em busca de novos proven-  toda uma vida. o silêncio ajuda-nos a recordar e a embru-
          tos para fazer face ao custo de vida perante o magro salá-  lhar numa serena nostalgia os momentos que foram im-
          rio militar. foi aliás dentro destes condicionalismos finan-  portantes para nós e para aqueles que afectivamente nos
          ceiros que se deu a minha entrada para os pupilos, decisão   rodearam.
          tomada no sentido de aliar um mais baixo custo na minha   agora, que posso analisar à distância o percurso que foi
          educação e maiores oportunidade de formação escolar e   o seu, julgo poder concluir que, também ele, viveu toda
          cívica.                                            uma  vida  militar  sem  se  sentir  aprisionado  pela  teia  de
            acabou a sua carreira militar, já reformado da gnr, como   incongruências  que  o  espartilho  das  regras  e  disciplina
          instrumentista  na  conceituada  orquestra  filarmónica  do   militar constituiriam para ele, uma pessoa de cultura au-
          teatro de s. carlos, instituição onde finalmente tinha uma   todidacta, de pensamento livre e humanista, que sempre


                                                                                         Boletim da associação dos PuPilos do exército  5
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