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para, além de tirar as faltas, haver revista pelos oficiais Coman-
       dantes das Companhias administrativas. Barbas, cabelos, estado
       do fardamento e chanatos de atanado eram revistados minucio-
       samente. Alguns chegavam à minúcia de reparar em unhas e
       aspecto geral. Ainda bem que assim acontecia visto a tendência
       ser um pouco para o desleixo e o fardamento deteriorar-se ra-
       pidamente com as brincadeiras e os intermináveis desafios de
       futebol.
          O almoço (12H45) era a nossa principal refeição, normal-
       mente barulhenta e acelerada. O mestre Cuco e seus mucha-
       chos serviam com rapidez, surdos aos dichotes da rapaziada. O
       Oficial de dia patrulhava o refeitório por entre as filas de mesas
       atento  a  qualquer  exagero.  Comia-se  em  meia  hora  para  se
       poder aproveitar o tempo.
          Entre o almoço e a nova formatura para as aulas, jogavam-
       -se montes de desafios de futebol, muitas vezes de mesa contra
       mesa, ou seja 7 contra 7. As bolas trapeiras e algumas de bor-  abluções e cuidar da apresentação até ao toque para o jantar
       racha, levadas pelos mais endinheirados, rolavam pelo campo   (20H00). Depois dos trinados do “Cabo batata” lá se fazia mais
       dividido para vários desafios, sem marcas visíveis mas respei-  uma formatura debaixo do frio cortante de Monsanto, mas mais
       tadas. Livros e barretes formavam as balizas. Eu, pouco dado a   suportável do que de manhã. Antes do jantar e com os alunos
       futebóis, chamava o cão Billy e partíamos para o muro da ribeira   ainda de pé junto às mesas, era lida, pelo aluno de dia, a ordem
       à caça das ratas. Alguns amigos da “seita”(3) acompanhavam-  de serviço e só depois a voz de sentar dada pelos batalhões. O
       me nessa e noutras actividades cinegéticas sendo as lagartixas   jantar era mais demorado que o almoço, não havia tanta pressa
       as presas mais apreciadas.                             e  a  sorna  imperava.  Aqui  já  se  faziam  algumas  malandrices,
          Depois era a repetição da formatura para as aulas da tarde   como acertar nos parceiros com bolas de pão certeiramente
       (13H30) e muitas vezes, na primeira aula, era difícil manter os   piparotadas.
       olhos abertos dado o cansaço da brincadeira. 5º Tempo 14H00-  Entre o jantar e o recolher o tempo era passado onde mais
       14H50; 6º Tempo 15H00-15H50; 7º Tempo 16H00-16H50;     nos apetecesse. Normalmente nas salas de alunos para se jogar
       8º Tempo 17H00-17H50.                                  damas ou xadrez, ouvir música e ler os jornais. Ao toque de
                                                              recolher (22H00) dirigíamo-nos para as camaratas e caíamos
                                                              à cama. Falava-se e contavam-se histórias intermináveis, princi-
                                                              palmente dos namoros na “shanta”(5), aos companheiros do
                                                              lado. Ao toque de silêncio (22H30) tínhamos de nos calar pois
                                                              os  Sargentos  de  dia  apareciam  e  passavam  revistas.  O  sono
                                                              vencia-nos rapidamente. As actividades diárias tinham-nos dei-
                                                              xado exaustos. O toque de nova alvorada regressava depressa
                                                              demais. Eram 06H30 do dia seguinte.
                                                                 Aos sábados, a parte da manhã era passada na instrução mi-
                                                              litar até ao almoço. Após esse período e depois das preparações
                                                              necessárias, limpar botões com tala e solarine, engraxar sapatos
                                                              ou botas, dirigíamo-nos à portaria onde o oficial de dia passava
                                                              revista e verificava pelas listas se os alunos tinham ou não direi-
                                                              to a saída. Havia as saídas de bom comportamento, média 14,
                                                              média 10 e geral. As polantices (6) davam castigos de privação
                                                              de saída e muitas vezes fiquei demasiado tempo enclausura-
          Voltávamos quase noite para a 1ª. Um pequeno tempo de   do, não por falta de média, que felizmente era boa, mas por
       intervalo e seguiam-se quase duas horas de estudo antes do   comportamento sofrível e até mau. A saída era até domingo ao
       jantar. Esses estudos eram acompanhados por um professor.   recolher (22H00). 2ª Feira outra semana começava.
       Uns estudavam mesmo, outros fingiam, outros liam banda de-
       senhada que se escondia entre os livros. Uma vez fui apanhado   Linguagem pilónica:
       pelo cara de “calhandro” (4), Major de Engenharia e excelente
       matemático, a ler “O mosquito”. Adorava BD e as histórias do
       Cuto eram uma tentação. Apanhei uma das maiores estaladas   (1) - Retrete
       das muitas que levei no Pilão. Remédio santo. Fiquei curado   (2) - Fumar um cigarro.
       e com ele nunca mais li banda desenhada, tinha de estudar   (3) - Grupo de companheiros de aventuras.
       mesmo. As galhetas não me causaram nunca ressentimentos,   (4) - O célebre penico.
       só serviram para aprender como me devia comportar face a
       cada um.                                                  (5) - A terra natal de cada um.
          Após  os  estudos  um  pequeno  intervalo  para  algumas   (6) - Malandrices

                                                                                                dos
                                                                                                   Pupilos
                                                                                         Associação
                                                                                 Boletim
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                                                                                                                 |
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 8 | Boletim da Associação dos Pupilos do Exército                               Boletim da Associação dos Pupilos do Exército | 9
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