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evocações
Um dia no Pilão
Rui CAbRAl telo
1948.0265
(06H30) A corneta do “cabo batata” está a debitar os acor- coração e corri. Fui dos últimos. O Chefe já olhava de soslaio
des da alvorada. Estou tão quentinho dentro da cama. Quem para os atrasados. Tive sorte e não levei nenhuma lambada, o
tem coragem de ir para a friagem que está lá fora? Puseram o gajo hoje devia estar bem-disposto.
Pilão neste Convento danado que só tem casas de pedra fria. Enquanto as faltas eram tiradas as minhas pobres orelhas
Ainda por cima é dia de banho e se não vou lá não riscam o gelavam completamente, nem podía levantar a gola. Já tinha a
meu número. Depois lá vou ter de ir à Companhia justificar a pele das ditas completamente engelhada das sucessivas friei-
falta e nem ao menos estou constipado. Sei que há uns gajos ras. Os frades deveriam ter sido grandes pecadores para virem
especialistas em fintar o Sargento de dia. Entram, dão o número para um convento mesmo nas faldas da serra de Monsanto.
e conseguem pirar-se sem tomar banho. Não sou capaz de o Chiça! Não deveria haver lugar mais frio em Lisboa. A voz do
fazer; não só pelo medo de ser caçado como estou habituado Comandante de Batalhão fez-me acordar das minhas lucubra-
a lavar-me. Há tipos que tanto fogem ao banho que até já chei- ções históricas.
ram mal. ...
Bem, vamos a isso. Vou de toalha e sabonete, vá lá que o A formatura andou e ao entrar no refeitório já se notava
meu pijama é de boa flanela e sempre me safa do frio destes um pouco mais de calor. As cafeteiras de alumínio fumegavam
corredores tipo morgue. alinhadas junto dos tabuleiros do pão e da marmelada. Vá lá
Ao passar pelo “Esguia” lá dei o número. A água está boa. que não era aquele malfadado queijo tipo solarine sólida. Os
Quentinha. Bolas! Esfriou de repente. Grito: “Oh “Esguia” a água pequenos-almoços alternavam entre queijo, manteiga ou mar-
está fria!!!” O gajo passou pelo meu balneário a tentar ver quem melada. Rapidamente se comeu. O mestre Cuco e os restantes
falara. Fiquei como se fosse um anjinho. Gaita! A água aqueceu empregados eram céleres a distribuir os tabuleiros pelas mesas.
de repente, que grande escaldão. “Oh transparente a água está À voz, levantámo-nos e saímos por filas de mesas de sete alu-
quente”. A algazarra era tremenda e o nosso sargento corria nos cada, sendo o que se sentava a topo o chefe da dita. Tinha
de junto das manivelas da caldeira para os balneários tentan- apenas um quarto de hora para regressar à camarata e trazer a
do caçar quem falava, mas não tinha sorte, a malta calava-se pasta com os livros para a nova formatura (07H30).
a tempo. Que o filho dele, condiscípulo do meu tempo, me As aulas eram na 2ª Secção em Benfica frente ao Bairro do
perdoe, mas nada me move contra. Era assim que as coisas se Grandela. Todos os dias, a formatura serpenteava pela Estrada
passavam. de Benfica para grande chatice das pessoas em automóveis
Tomado o banho lá voltei à camarata. Tirei a roupa interior e eléctricos que nos seguiam a passo de boi. A rapaziada es-
do saco da roupa lavada, pensei duas vezes se deixaria o pija- merava-se a marchar bem, com passadas ritmadas e sonoras
ma por baixo do fato de cotim. Já se ouvia o toque para e os Comandantes de Pelotão davam sonoramente as vozes
a formatura do pequeno-almoço (07H00). Deixei o marcando o ritmo de “Esquerdo! Esquerdo! Esquerdo direito”
pijama, vesti duas camisolas por baixo, enfiei ou “Esquerdo direito hop dois”.
o fato, os chanatos, a samarra de mescla Subíamos as escadas da entrada da 2ª em passo acelera-
azul e corri. Cá fora o frio apanhou- do, formávamos o Batalhão na parada empedrada e, depois de
me como o gume duma nava- “Sentido! Direita volver! Destroçar!” Tínhamos dez minutos para
lha afiada. Quase tentado ir à “reta”(1) “esturrar uma vagem”(2) e regressar às formatu-
a voltar atrás para ver ras por cursos, e dentro destes por turmas. Aí já era o Chefe
do pijama, fiz de turma que comandava e tirava faltas. Já não havia galhe-
das tripas tas. Éramos todos mais ou menos da mesma idade. Também
à voz seguíamos para as aulas onde, geralmente, o Professor
já nos esperava. 1º Tempo 08H00-08H50; 2º Tempo
09H00-09H50; 3º Tempo 10H00-10H50; 4º tem-
po 11H00-11H50. As aulas eram teóricas, físicas
(Ginástica, desportos e aplicação militar), oficinas
(Serralharia, Fundição, Forja e Carpintaria) e práti-
cas (Laboratório). Tudo isto devidamente escalona-
do pela semana.
Entre cada aula voltávamos a formar, mas ago-
ra no corredor. Só entrávamos quando chegava o
professor da aula seguinte. De manhã nas quatro
aulas raramente havia “furos”. Quando os havia
aproveitava-se para uma volta ou alguma explora-
ção à quinta do lado fanar umas frutas sempre com
um olho no burro e outro no cigano, não viesse de
lá o guarda da dita.
Chegada a hora de almoço (12H00) nova for-
matura do Batalhão e marcha de volta à 1ª Secção.
À chegada apenas tempo para lavar mãos, pen-
tear e esperar pelo toque de formatura para a 2ª
refeição. Essa formatura (12H30) era aproveitada
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