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EVOCAÇÕEs
O fazer por gosto
JOSÉ F. LEANDRO
19510321
omo introdução a este escrito, começo por recordar Infelizmente o Touro Pereira, o 31, “O Chulé” já nos
Cos meus primeiros momentos de vivência no Pilão. deixou há alguns anos mas não é tarde para manifestar a
Outubro de 1951, fardar, despedida do pai na portaria da amizade que por ele contraí.
1ª Secção, lagriminha ao canto do olho e eis-me a cami- Quanto ao Horta, se ler esta prosa, que dê notícias.
nho da camarata. O Corte Real, andará, certamente por Timor e,
No percurso sou abordado por quatro putos que, para dificilmente terá ocasião para estabelecer qualquer con-
mim, naquela altura, já eram uns matulões. Perguntas da tacto.
praxe: que número tens, de onde és, tens primas, tens Vamos ao essencial da questão.
manas, etc. Humberto António Igre-
Um calduço à laia de despedida e vai lá para a cama- ja André, nasceu em Lisboa
rata que isso passa. Lógico que este primeiro episódio não a 23Julho1937 e foi admi-
me deixou nada animado. Daí, se calhar, a razão de nun- tido no Instituto Profissional
ca o ter esquecido. Passados poucos dias, já conhecia dos Pupilos dos Exércitos
perfeitamente o grupo e evitava, por todos os meios, de Terra e Mar, em Outubro
cruzar-me com qualquer dos elementos que o consti- de 1949.
tuíam. E quem eram eles? Atribuíram-lhe o núme-
Raul Maria Touro Pereira, 19490031. ro 383 e, sabe-se lá porquê,
Eduardo Viriato Pereira Horta, 19490382. a alcunha de “Chanato”.
Humberto António Igreja André, 19490383. Cedo mostrou que o seu
José Alexandrino Corte Real, 19500401. grande amor não eram os livros. Relacionava-se mui-
Este grupo, a que mais tarde se juntou um ou outro to melhor com as disciplinas de futebol, voleibol, mesa
elemento, era conhecido pela “ Seita do Cabra “, alcunha alemã, cama elástica e outras, do que com as curricula-
do Horta. res.
Se por razões óbvias, a minha animosidade por este Os livros, sebentas e cadernos de apontamentos, davam
grupo era significativa, dois anos mais tarde, comecei a um jeitão para marcar, o comprimento das balizas de
mudar de opinião. futebol. O limite em altura era a olho, dependendo da
Quis a sorte que no meu primeiro ano de Indústria, estatura do guarda-redes e dos argumentos físicos de quem
tivesse como companheiros de curso, o Touro Pereira e o defendia e de quem atacava.
Igreja André. O Horta andava já no segundo ano de In- Com livros, bolas, ginástica e atletismo à mistura, o
dústria mas convivíamos bastante dado que tínhamos André terminou o seu curso de Indústria, Mecânica Auto,
muitas aulas, conjuntamente. É neste contacto do dia-a- em Julho de 1958 tendo ingressado no Exército em
-dia que me começo a aperceber da personalidade destes Agosto desse mesmo ano. Foi colocado em Santa Marga-
três “irreverentes sócios”. Entretanto, o Corte Real tinha rida no Grupo de Carros de Combate.
deixado o Instituto. Rapidamente as suas aptidões para o futebol (futebol
Após a saída do Pilão e durante uma carreira militar de 5) e voleibol, foram postas em destaque, tendo-se
de muitos anos, tive oportunidade de acompanhar, com sagrado Campeão Nacional Militar, nestas duas modali-
alguma frequência, o Touro Pereira e o Igreja André. O dades.
Horta abandonou a vida militar, cumprida que foi uma Durante a sua estadia em Santa Margarida defendeu,
comissão de serviço, em Angola, na qual o acompanhei. como federado em futebol de 11, a camisola do Grupo
Depois disto nunca mais tive notícias suas. Desportivo de Torres Novas.
Tudo isto vem a propósito do escrito a respeito do Fez duas comissões de serviço em Angola, Agosto de
meu caro camarada Igreja André, mas que serve, também, 1964 a Fevereiro de 1966 e Dezembro de 1967 a Agos-
para recordar outros antigos companheiros que em tem- to de 1969.
pos idos, me provocaram alguns calafrios. Da sua folha de serviços constam quatro louvores.
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