Page 10 - Boletim APE_224
P. 10

cRóNIcAs











                                  A crise do tomate


           ANTóNIO BARROSO
           19460120




               mbora não seja um conservador ferrenho, nem sequer   geiros  alguma  vez  se  comparassem  aos  genuínos  portu-
           Eum saudosista de tempos passados, não deixo, porém   gueses.
           de fazer, muitas vezes, comparações com muitas das coisas   Mas continuando.
           que, actualmente, deveriam ter sofrido uma evolução que   Primeiro aparecem uns tomatinhos, rosados, redondi-
           lhes permitisse, ou uma melhor apresentação, ou um as-  nhos, pouco maiores que os berlindes dos nossos jogos de
           pecto mais atraente, ou ainda uma embalagem mais ape-  criança. Chamam-lhe tomate cereja. Cereja, porquê? Só
           lativa.  Estou  certo  que  todos  vós  que  me  estais  lendo,   se for pelo tamanho miniatura com que se apresenta ao
           vereis da veracidade desta minha afirmação, com o pros-  olhar, pois até parece um tomate de brinquedo para crian-
           seguimento da narrativa.                           ças à procura de encontrar, nas leituras proibidas, o segre-
              Ora,  à  laia  de  exemplo  do  que  pretendo  explicitar,   do da vida. Não há, no nosso país, dona de casa que se
           experimentem entrar num supermercado e seguir na di-  preze,  que,  ao  ver  um  tomate  destes,  não  deseje  logo
           recção  dos  frescos,  isto  é,  das  verduras,  quer  dizer  dos   passar adiante, porque, além da alface e do pepino, não
           produtos hortícolas.                               lhe  conseguirem  disfarçar  a  inferioridade,  tem  em  casa
              Não notam nada? Não, de verdade? Que falta de poder   tomate de melhor qualidade.
           de observação.                                        Logo a seguir, embora em caixa diferente para contras-
              Pois bem, logo de início, reparem nos nabos, não, não   tar na forma, surge um outro tomate, de forma tão bizar-
           são esses, isto é, não me refiro aos clientes que, disfarça-  ra que nem nome específico tem, já que parece um híbri-
           damente  vão  apalpando  o  grelo  que  vêem  à  sua  frente,   do do tomate normal com o tomate cereja, encimado por
           quando é, expressamente, proibido tocar nos artigos expos-   um tumor. Convenço-me que, nem espremido, dará prazer
           tos, mas aquelas bolas brancas com rama muito fanada,   a quem o consome. É que a forma anatómica, que mais
           que, em vez do verde da horta, apresenta o tom amarela-  parece uma cabaça miniatura, não é de molde a preencher
           do do longo tempo no expositor.                    a  imaginação  duma  mente  desejosa  de  tomates  como
              Mas, sem nos alongarmos em mais pormenores, vamos   havia outrora.
           seguir o trajecto delineado, e agora sim, vêem? Entrámos   Passamos, finalmente, ao compartimento onde pululam
           na secção dos tomates onde várias espécies se alinham nas   os tomates ditos normais, mas encimados por um letrei-
           prateleiras. Era aqui mesmo que eu queria chegar.  ro onde, além do preço, se pode ainda ler "origem-Espa-
              A primeira coisa que se repara, logo de início, é que   nha".  Será  que  esta  informação  se  destina  a  justificar  a
           já não há tomates em condições. Podem verificar todas as   deficiência do produto, ou será antes uma maneira sim-
           variedades existentes, mas tomate português, rijo, de encher   ples  de  dizer  "desculpem,  já não há  tomates portugue-
           a mão e ficar no olho, não existe mais como antigamente.   ses". Estes, por enquanto, ainda são os que o "amigo Za-
           Agora, até os tomates são importados, como se os estran-  patero" vai enviando para a sua província portuguesa, pois
                                                              pouco falta para o recebimento dos tomates da chanceler
                                                              alemã,  para  fazer  uma  salada  temperada  com  o  azeite
                                                              espanhol,  das  oliveiras  que  já  cobrem  todo  o Alentejo
                                                              português.
                                                                 Aqui, dá para pensar no motivo da inexistência deste
                                                              genuíno produto nacional, orgulho de gerações de ante-
                                                              passados,  mas  as  conclusões  acabam  por  se  tornar  tão
                                                              claras, tão óbvias, tão constrangedoras, que a sua divulga-
                                                              ção, embora obrigatória, causa amargos íntimos.
                                                                 Na parte interna, a moderna mocidade, adoptando as
                                                              novas modas e tantos outros costumes que a globalização
                                                              arrasta consigo, aglomera-se na grande cidade, deixando,
                                                              nos campos, ao abandono, os tomates que pais e avós lhes



           8  |  Boletim da Associação dos Pupilos do Exército
   5   6   7   8   9   10   11   12   13   14   15