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A crise do tomate
ANTóNIO BARROSO
19460120
mbora não seja um conservador ferrenho, nem sequer geiros alguma vez se comparassem aos genuínos portu-
Eum saudosista de tempos passados, não deixo, porém gueses.
de fazer, muitas vezes, comparações com muitas das coisas Mas continuando.
que, actualmente, deveriam ter sofrido uma evolução que Primeiro aparecem uns tomatinhos, rosados, redondi-
lhes permitisse, ou uma melhor apresentação, ou um as- nhos, pouco maiores que os berlindes dos nossos jogos de
pecto mais atraente, ou ainda uma embalagem mais ape- criança. Chamam-lhe tomate cereja. Cereja, porquê? Só
lativa. Estou certo que todos vós que me estais lendo, se for pelo tamanho miniatura com que se apresenta ao
vereis da veracidade desta minha afirmação, com o pros- olhar, pois até parece um tomate de brinquedo para crian-
seguimento da narrativa. ças à procura de encontrar, nas leituras proibidas, o segre-
Ora, à laia de exemplo do que pretendo explicitar, do da vida. Não há, no nosso país, dona de casa que se
experimentem entrar num supermercado e seguir na di- preze, que, ao ver um tomate destes, não deseje logo
recção dos frescos, isto é, das verduras, quer dizer dos passar adiante, porque, além da alface e do pepino, não
produtos hortícolas. lhe conseguirem disfarçar a inferioridade, tem em casa
Não notam nada? Não, de verdade? Que falta de poder tomate de melhor qualidade.
de observação. Logo a seguir, embora em caixa diferente para contras-
Pois bem, logo de início, reparem nos nabos, não, não tar na forma, surge um outro tomate, de forma tão bizar-
são esses, isto é, não me refiro aos clientes que, disfarça- ra que nem nome específico tem, já que parece um híbri-
damente vão apalpando o grelo que vêem à sua frente, do do tomate normal com o tomate cereja, encimado por
quando é, expressamente, proibido tocar nos artigos expos- um tumor. Convenço-me que, nem espremido, dará prazer
tos, mas aquelas bolas brancas com rama muito fanada, a quem o consome. É que a forma anatómica, que mais
que, em vez do verde da horta, apresenta o tom amarela- parece uma cabaça miniatura, não é de molde a preencher
do do longo tempo no expositor. a imaginação duma mente desejosa de tomates como
Mas, sem nos alongarmos em mais pormenores, vamos havia outrora.
seguir o trajecto delineado, e agora sim, vêem? Entrámos Passamos, finalmente, ao compartimento onde pululam
na secção dos tomates onde várias espécies se alinham nas os tomates ditos normais, mas encimados por um letrei-
prateleiras. Era aqui mesmo que eu queria chegar. ro onde, além do preço, se pode ainda ler "origem-Espa-
A primeira coisa que se repara, logo de início, é que nha". Será que esta informação se destina a justificar a
já não há tomates em condições. Podem verificar todas as deficiência do produto, ou será antes uma maneira sim-
variedades existentes, mas tomate português, rijo, de encher ples de dizer "desculpem, já não há tomates portugue-
a mão e ficar no olho, não existe mais como antigamente. ses". Estes, por enquanto, ainda são os que o "amigo Za-
Agora, até os tomates são importados, como se os estran- patero" vai enviando para a sua província portuguesa, pois
pouco falta para o recebimento dos tomates da chanceler
alemã, para fazer uma salada temperada com o azeite
espanhol, das oliveiras que já cobrem todo o Alentejo
português.
Aqui, dá para pensar no motivo da inexistência deste
genuíno produto nacional, orgulho de gerações de ante-
passados, mas as conclusões acabam por se tornar tão
claras, tão óbvias, tão constrangedoras, que a sua divulga-
ção, embora obrigatória, causa amargos íntimos.
Na parte interna, a moderna mocidade, adoptando as
novas modas e tantos outros costumes que a globalização
arrasta consigo, aglomera-se na grande cidade, deixando,
nos campos, ao abandono, os tomates que pais e avós lhes
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