Page 6 - Boletim APE_224
P. 6
cRóNIcAs
25 de Abril – sempre com
evolução permanente
QUEIRóS DE AzEVEDO
19440286
aquela madrugada da primavera de 1974 a aragem Entrou. Lá estava o saco com o pão, bem apertado para
Ncortava no monte do Privilégio. não endurecer muito; as duas latas de conserva e o naco
Era o dia 26 de Abril e tinha chuviscado na véspera. de toucinho. Para o miúdo havia também duas laranjas e
A terra, ainda húmida, enregelava ainda mais o am- se fosse preciso algum reforço levava os cobres amealhados
biente desconfortável no velho moinho, meio desmante- com tanto sacrifício e que haviam de servir para comprar
lado, que servia de guarida àqueles dois pobres seres alguma coisa ao companheiro, quando chegasse a Peniche,
humanos. se tudo corresse bem.
A mulher levantou-se e antes de ir espreitar o romper Acordou o pimpolho, de seis anos, que se levantou sem
da alva aconchegou mais o filho com os farrapos que lhe qualquer resistência ou queixume porque as suas reacções
tinham servido de cobertura. No entanto já era tempo! eram, desde há muito, sempre condicionadas pela luta
Dali a nada havia de nascer a manhã e eles tinham de comum da sobrevivência. Se a mãe o acordava ele levan-
se pôr a caminho. tava-se imediatamente, atento ao que fosse necessário
A mulher alisou os cabelos com as mãos, estragadas fazer, totalmente identificado com a mulher que lhe dera
por mil trabalhos e carregos, e espreguiçou-se. a vida e que tanto amava à sua maneira de menino-homem
Era ainda nova, de menos de trinta anos, mas quem que já não conhecia brinquedos nem folganças.
poderia acertar-lhe na idade ao fixar aqueles olhos sofridos, Depois de breve arranjo saíram tiritando para o alvo-
aquela expressão permanentemente distante, os lábios recer que despontava e foram, carreiro abaixo, até à estra-
gretados na face encovada? da de Loures, deixando para trás a silhueta trágica mas
Passou a corroída porta presa por arames de fardo e familiar do moinho.
saiu. Dali a escassos minutos estavam junto à tasca do Del-
Lá longe, para os lados de Odivelas, as luzes do casario fim, onde costumavam comprar o pouco que podiam. A
pareciam pirilampos fulgurando aqui e ali. Era a prova de réstia de luz e a porta entreaberta àquela hora eram indi-
que os trabalhadores começavam a levantar-se para dar cadores seguros de que os camionistas podiam parar para
início a mais um dia de luta pela vida, mas ela não pode- matarem o bicho com a pinga de aguardente e a sardinha
ria ir fazer a entrega dos sacos de linhagem que cosera na frita ou de escabeche. Era, portanto provável que a sorte
véspera, durante todo o dia. Talvez no dia seguinte, pensou os bafejasse. Sempre havia boas almas com um pouco de
preocupada, se acaso não tivesse sorte com os transportes. solidariedade humana para correrem o risco de transpor-
Paciência! O importante era conseguir a viagem… tar dois passageiros clandestinos nas caixas de carga; que
Antes de entrar no moinho contabilizou mentalmente as multas eram pesadas e a polícia parecia nunca estar
os parcos meios e haveres de que dispunha. disposta a perdoar aos mais pobres.
Era sempre assim todos os meses desde que ficara sem Ao chegarem perto da réstia de luz verificaram que
o seu homem, e assim continuaria a ser até que o reaves- bem perto da porta da tasca estava estacionada uma car-
se, nem que tivesse de passar o resto da vida a partir lenha, rinha de caixa aberta, contendo apenas alguns caixotes
a fazer recados, a lavar a roupa dos outros e a comer o vazios e o coração da mulher encheu-se de esperança. Lá
pão que o diabo amassasse. Um dia havia de ter o seu de dentro chegou-lhe o som de vozes alegres e sonoras
homem de volta e tudo tornaria a ser diferente. gargalhadas: puseram-se à escuta mas a mulher só conse-
Recordando o companheiro o coração apertou-se-lhe guiu perceber que falavam de liberdade. Isso avivou-lhe a
de saudade e angústia. mágoa permanente e, desinteressada, afastou-se um pou-
Faziam-lhe falta aqueles braços fortes que a apertavam co da porta com o filho. Mas logo depois a porta abriu-se
com ternura, a cara barbada a roçar-lhe na sua, o sorriso e saiu um homem cinquentão, baixo e gordo, seguido por
alegre, o cheiro do corpo suado a lavar-se no balde às uma mulher um pouco mais alta do que ele, rondando
tardes, depois do trabalho de trolha. E o amor pelo filho pela mesma idade.
de ambos! As horas de brincadeiras ingénuas com o bebé… A mulher parou, a rir-se, virou-se e abriu a porta da
Que homem tão bom! tasca, de par em par, fazendo com que a luz do interior
4 | Boletim da Associação dos Pupilos do Exército