Page 7 - Boletim APE_224
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cRóNIcAs (cont.)





           viesse avivar o crepúsculo matinal. Depois gritou lá para   nada me convence que os pretos também são portugueses…
           dentro: – anda daí rapariga! Deixa-o da mão, que o “ti”   se  os  tratam  tão  mal!...  Que  o  Chico  da  Júlia  bem  me
           Delfim até agora ainda tem medo de ter a porta aberta   contou o que por lá viu, de fome e porrada!...
           para dar de comer à gente!... Raio do velho! – E a mulher   Era assim, o seu homem, com aquelas ideias de bon-
           levantou substancialmente as gargalhadas.          dade dentro do coração.
              Uma mulher jovem apareceu logo e foi ela quem repa-   Nas obras por onde andara – sempre como servente
           rou nos dois junto à parede da taberna, encolhidos e tristes.  para não ter que dar o nome certo – tudo correra bem,
              Queríamos uma boleia… – balbuciou a mãe do garo-  que  ele  era  um  homem  manso  e  trabalhador,  até  que
           to deixando no ar uma justificação murmurada.      outros homens lhe foram dizendo que a vida deles podia
              Ó pai! Dás uma boleia a esta mulher e mais ao miúdo   mudar…
           dela?                                                 O cachopo ia fazer dois anos quando lhe tinham leva-
              O  homem,  já  a  entrar  na  carrinha,  virou-se  a  custo   do o pai. E ela sentira-o na carne e na alma.
           para a filha e disse em tom alegre: – eu dou, mas só se for   De longe vira-os derrubarem-lhes a barraca, partindo
           na caixa de carga, claro está, mas olhem que os caixotes   e escavacando tudo. Até lhes tinham mijado para cima dos
           cheiram um bocado a peixe…se eles quiserem!... Levo-os   parcos haveres destruídos…
           até ao fim do mundo… O fim do mundo hoje é em Pe-     Nessa noite dormira abraçada à criança, dentro de uma
           niche… – gargalhou um pouco e acabou de enfiar-se na   moita no pinhal da Paiã, que os vizinhos haviam tomado
           carrinha,  deixando  ao  cuidado  da  mulher  e  da  filha  a   o partido dos da secreta, e só passados dois dias ela pôde
           “arrumação”  dos  dois  fortuitos  passageiros.  Os  caixotes   aproximar-se, por mor da criança, para saber do seu homem
           foram dispostos a jeito e até havia um oleado que poderia   e catar o que houvesse no meio dos destroços… Só que
           servir para os proteger do frio.                   não havia nada; parecia até que a casota deles nunca tinha
              Ah! Vossemecê quer ir até Peniche com o seu filho?   existido. Mesmo os restos inúteis o fogo posto por eles os
           – Perguntou a mulher do camionista, curiosa de saber mais   levara; restavam as cinzas.
           coisas, assim que lhe disseram o destino que pretendiam.   Um  arrepio  percorreu-lhe  o  corpo,  e  a  desagradável
           –  Queremos sim,  vizinha! É por via  de uma  tia  doente   sensação levou-a a puxar ainda mais para si o pequeno.
           que lá tenho… – Foi a resposta contristada que cortou um   Havia  de  o  ter  de  volta,  dizia-lhe  o  coração.  Se  tinha
           pouco a alegria das outras. – Deixe lá, vai ver que tudo   conseguido descobrir o seu homem na cadeia de Peniche…
           há-de correr bem para a velhota!                   Se  sobrevivera  até  ali  com  o  filho…  Havia  de  o  ter  de
              Mãe e filha entraram logo para a cabine e a carrinha   volta…
           arrancou, com cuidado, metendo-se à estrada. A porta da   A mesma determinação todos os meses; a mesma cer-
           tasca  do  Delfim,  cauteloso,  tornou  a  semicerrar-se,  não   teza  sempre  reforçada  ao  ver  no  rosto  olheirento  do
           fosse o diabo tecê-las!                            companheiro  o  sorriso  bondoso  com  que  ele  olhava  os
              Aliviada, a mulher aconchegou o filho, puxando-o para   dois durante os trinta minutos que durava a visita, com o
           si, e esticou um pouco mais o oleado, até quase o passar   guarda a assistir.
           sobre as suas cabeças. Assim, no meio dos caixotes, ninguém   Os solavancos da carripana foram-lhe entorpecendo os
           os veria. Estava, portanto, tudo a correr de feição: sorte,   sentidos e acabou por adormecer com o pequenito abra-
           terem encontrado aquela família tão bem disposta, a dar-   çado a ela.
           -lhes boleia mesmo até Peniche. Não se lembrava de lhe   A viagem foi longa porque o homem conduzia devagar,
           ter acontecido tanta naqueles quatro anos em que tinha   mas não houve incidentes que lhes pusessem em causa a
           o homem preso… Dois em que fora autorizada a levar-lhe   boleia. Só em Torres Vedras, já a manhã tinha despontado,
           o filho à visita uma vez por mês…                  magnífica,  uma  grande  algazarra  os  colhera  em  súbito
              Com amargura, recordou o passado. A barraquinha de   pânico, receosos de perderem tão boa boleia. Aquela gen-
           madeira, bem cuidada, ali à Paiã. O homem com trabalho   te parecia doida varrida, a gritar palavras sem nexo para
           certo  a  cuidar  da  vida  deles.  Os  poucos  vizinhos  sem   um camião enorme cheio de soldados de armas em punho
           nenhum interesse de fazerem perguntas…             gritando também, e atiravam-lhes flores… cravos verme-
              Fora o diabo ele ter fugido das sortes e ser descoberto!  lhos… Que seria aquilo?!
              Na altura ela já estava grávida. Por isso e por não que-  Os  da  carrinha  também  tinham  gritado,  todos  três,
           rer ir para a guerra matar os pretos é que o seu homem   como se o homem ainda tivesse menos juízo do que as
           havia faltado. Tinham vindo da terra fugidos os dois para   duas mulheres! E isso é que lhes tinha enchido o coração
           Lisboa, que o homem dela não tinha letras mas era esper-  de  angústia.  Se  fossem  presos  quando  é  que  poderiam
           to como um coelho bravo…                           tornar a Peniche para ver o seu querido?!
              Para  a  guerra  não  vou,  lhe  dissera,  nem  te  deixo  de   Mas  o  camionista  tinha  a  sua  vida  e  nunca  parou:
           barriga grande sem ninguém que te dê uma côdea. Não   Torres Vedras logo ficou para trás e o receio deles tam-
           quero matar gente e muito menos na terra dos outros; que   bém…


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