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viesse avivar o crepúsculo matinal. Depois gritou lá para nada me convence que os pretos também são portugueses…
dentro: – anda daí rapariga! Deixa-o da mão, que o “ti” se os tratam tão mal!... Que o Chico da Júlia bem me
Delfim até agora ainda tem medo de ter a porta aberta contou o que por lá viu, de fome e porrada!...
para dar de comer à gente!... Raio do velho! – E a mulher Era assim, o seu homem, com aquelas ideias de bon-
levantou substancialmente as gargalhadas. dade dentro do coração.
Uma mulher jovem apareceu logo e foi ela quem repa- Nas obras por onde andara – sempre como servente
rou nos dois junto à parede da taberna, encolhidos e tristes. para não ter que dar o nome certo – tudo correra bem,
Queríamos uma boleia… – balbuciou a mãe do garo- que ele era um homem manso e trabalhador, até que
to deixando no ar uma justificação murmurada. outros homens lhe foram dizendo que a vida deles podia
Ó pai! Dás uma boleia a esta mulher e mais ao miúdo mudar…
dela? O cachopo ia fazer dois anos quando lhe tinham leva-
O homem, já a entrar na carrinha, virou-se a custo do o pai. E ela sentira-o na carne e na alma.
para a filha e disse em tom alegre: – eu dou, mas só se for De longe vira-os derrubarem-lhes a barraca, partindo
na caixa de carga, claro está, mas olhem que os caixotes e escavacando tudo. Até lhes tinham mijado para cima dos
cheiram um bocado a peixe…se eles quiserem!... Levo-os parcos haveres destruídos…
até ao fim do mundo… O fim do mundo hoje é em Pe- Nessa noite dormira abraçada à criança, dentro de uma
niche… – gargalhou um pouco e acabou de enfiar-se na moita no pinhal da Paiã, que os vizinhos haviam tomado
carrinha, deixando ao cuidado da mulher e da filha a o partido dos da secreta, e só passados dois dias ela pôde
“arrumação” dos dois fortuitos passageiros. Os caixotes aproximar-se, por mor da criança, para saber do seu homem
foram dispostos a jeito e até havia um oleado que poderia e catar o que houvesse no meio dos destroços… Só que
servir para os proteger do frio. não havia nada; parecia até que a casota deles nunca tinha
Ah! Vossemecê quer ir até Peniche com o seu filho? existido. Mesmo os restos inúteis o fogo posto por eles os
– Perguntou a mulher do camionista, curiosa de saber mais levara; restavam as cinzas.
coisas, assim que lhe disseram o destino que pretendiam. Um arrepio percorreu-lhe o corpo, e a desagradável
– Queremos sim, vizinha! É por via de uma tia doente sensação levou-a a puxar ainda mais para si o pequeno.
que lá tenho… – Foi a resposta contristada que cortou um Havia de o ter de volta, dizia-lhe o coração. Se tinha
pouco a alegria das outras. – Deixe lá, vai ver que tudo conseguido descobrir o seu homem na cadeia de Peniche…
há-de correr bem para a velhota! Se sobrevivera até ali com o filho… Havia de o ter de
Mãe e filha entraram logo para a cabine e a carrinha volta…
arrancou, com cuidado, metendo-se à estrada. A porta da A mesma determinação todos os meses; a mesma cer-
tasca do Delfim, cauteloso, tornou a semicerrar-se, não teza sempre reforçada ao ver no rosto olheirento do
fosse o diabo tecê-las! companheiro o sorriso bondoso com que ele olhava os
Aliviada, a mulher aconchegou o filho, puxando-o para dois durante os trinta minutos que durava a visita, com o
si, e esticou um pouco mais o oleado, até quase o passar guarda a assistir.
sobre as suas cabeças. Assim, no meio dos caixotes, ninguém Os solavancos da carripana foram-lhe entorpecendo os
os veria. Estava, portanto, tudo a correr de feição: sorte, sentidos e acabou por adormecer com o pequenito abra-
terem encontrado aquela família tão bem disposta, a dar- çado a ela.
-lhes boleia mesmo até Peniche. Não se lembrava de lhe A viagem foi longa porque o homem conduzia devagar,
ter acontecido tanta naqueles quatro anos em que tinha mas não houve incidentes que lhes pusessem em causa a
o homem preso… Dois em que fora autorizada a levar-lhe boleia. Só em Torres Vedras, já a manhã tinha despontado,
o filho à visita uma vez por mês… magnífica, uma grande algazarra os colhera em súbito
Com amargura, recordou o passado. A barraquinha de pânico, receosos de perderem tão boa boleia. Aquela gen-
madeira, bem cuidada, ali à Paiã. O homem com trabalho te parecia doida varrida, a gritar palavras sem nexo para
certo a cuidar da vida deles. Os poucos vizinhos sem um camião enorme cheio de soldados de armas em punho
nenhum interesse de fazerem perguntas… gritando também, e atiravam-lhes flores… cravos verme-
Fora o diabo ele ter fugido das sortes e ser descoberto! lhos… Que seria aquilo?!
Na altura ela já estava grávida. Por isso e por não que- Os da carrinha também tinham gritado, todos três,
rer ir para a guerra matar os pretos é que o seu homem como se o homem ainda tivesse menos juízo do que as
havia faltado. Tinham vindo da terra fugidos os dois para duas mulheres! E isso é que lhes tinha enchido o coração
Lisboa, que o homem dela não tinha letras mas era esper- de angústia. Se fossem presos quando é que poderiam
to como um coelho bravo… tornar a Peniche para ver o seu querido?!
Para a guerra não vou, lhe dissera, nem te deixo de Mas o camionista tinha a sua vida e nunca parou:
barriga grande sem ninguém que te dê uma côdea. Não Torres Vedras logo ficou para trás e o receio deles tam-
quero matar gente e muito menos na terra dos outros; que bém…
Boletim da Associação dos Pupilos do Exército | 5