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evocações
QUeiróS De AzeVeDo
1944286
mais vale ser careca do
que não ter cabelo!
e a memória não me falha aquilo que vou contar-vos
Spassou-se no ano de 1945, tinha eu então onze anos
de idade e já era o meu segundo ano de “Pilão”. Como O João Lourenço era um bom rapaz, podendo utilizar-
nasci em 1933 espero que me revelem qualquer falha de -se até a gíria de porreiríssimo, mas tinha o tremendo
memória que possa prejudicar a veracidade da narrativa, complexo de ser já naquela altura, em que teria não mais
se é que algum de vós, que me estais a ler neste momen- do que dezassete/dezoito anos de idade, um tanto ou quan-
to, se recordará desta ocorrência que vos vou relatar, com to careca, ainda que por esse tempo a calvície dele não
a agravante de que muitos poucos colegas desses tempos fosse nenhum exagero! Exagero sim era o complexo, porque
remotos estavam presentes no acontecimento! E a verda- quem se referisse a ele podia contar com “Sarilhos Grandes”,
de verdadinha é que, por vezes, ainda que nem sempre, como se fosse natural da localidade que tem esse nome!
dou comigo a ter a sensação de que as lembranças do Ora por esse tempo tinha-mos no “Pilão” um dueto de
passado mais remoto me parecem mais reais do que as putos gozões de se lhes tirar o chapéu! E eram os dois do
lembranças de há meia dúzia de anos, mas creio que tais meu curso: o 61, Rui Alberto Louro Coelho e o 82, Antó-
ocorrências são dadas, medicamente falando, como lapsos nio Jorge de Oliveira Romualdo. O primeiro que era um
normais de memória decorrentes da velhice! Mas vamos grande ginasta, hoje é Coronel reformado e há muitas
então à narrativa de quando se passou no ginásio da 1ª décadas que não o vejo; o segundo, que também é Coronel
Secção do I.P.E. onde ia ser iniciado mais um dos ensaios reformado está infelizmente, confinado a uma cadeira de
para récita da festa anual do nosso querido Instituto. rodas com dificuldades de recuperação, mas enquanto há
O grande palco fora montado do lado das escadarias vida há esperança e todos camaradas lhe desejam que tal
que dão acesso às galerias superiores que circundavam, e venha a acontecer.
ainda circundam, todo o ginásio, e das escadas que dão Ora os dois “pardais” calculando de antemão o que se
acesso à cave, na altura arrecadação de material desporti- iria passar, foram antecipadamente esconder-se numa das
vo, mas onde também era normalmente montado um bar citadas galerias que, por via da localização do palco, ficavam
de apoio aos participantes nos bailes dos Alunos Novos, tapadas das vistas de quem estivesse do lado dos especta-
do Carnaval, do Aniversário do Instituto e dos Finalistas. dores porque os cenários já estavam colocados e os ma-
Estava então tudo a postos para dar início ao ensaio, landrecos acreditavam não poder ser detectados!
com os alunos que iriam participar no evento já prepara- Após os cumprimentos ao nosso Brigadeiro ele deu logo
dos, quando chegou o ensaiador, que era um antigo Direc- início aos trabalhos do ensaio de quanto ia constar da re-
tor do I.P.E: O prestigiadíssimo Brigadeiro Tamagnini presentação. E logo calhou ser o João Lourenço, já todo
Barbosa que, por muito gostar do “Pilão” e muito saber de ataviado para entrar em cena, o primeiro a ir para o palco
teatro, se tinha disponibilizado para vir dirigir os ensaios depois de uma breve recapitulação da forma como o “artis-
que, creio, já estariam a decorrer há uns dias mas a preci- ta” deveria actuar, quer em relação à dicção do texto deco-
sarem desta intervenção do Brigadeiro. rado, quer em actuação gestual, para que a cena decorresse
Devo dizer-vos que eu me encontrava no local porque da melhor maneira, a contento de quanto se pretendia.
era ajudante dos alunos mais velhos que pintavam os ce- Sobe então o João Lourenço para os bastidores à ordem
nários, facto este que posso provar com documentação de “entra João”, proferida pelo Brigadeiro, o João entrou
fotográfica! no palco com o treinado espalhafato, equipado com um
Bem, mas vamos ao que interessa! E o que interessa é fato de banho à 1920, com riscas azuis e brancas, munido
que um dos “artistas” era o há muito falecido Capitão- de uma diminuta cana de pesca sustentando um peixe
-Tenente João Lourenço, filho do 1º Sargento enfermeiro vermelho em celulóide, numa das mãos e um colorido
do Instituto, graduado austero mas muito competente que balde de lata, supostamente destinado ao isco, na outra,
vivia dentro do Instituto com a família no andar por cima proferindo alto e bom som: – EUREKA! Cá está um e
da enfermaria da 1ª Secção. (continua na página seguinte)
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