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evocações
HUmBerTo LoLA DoS reiS
1941.0159
foi falar com o Cônsul e ambos, tanto intercederam por
ele junto do Comandante, que este acabou por anular o
Amália rodrigues no castigo.
Quando a recepção terminou, já tarde na noite, a voz
da Amália já estava ligeiramente rouca, mas sempre linda,
Afonso de Albuquerque com tonalidades diferentes que a tornavam única em
Portugal. Aliás, só há pouco tempo, na televisão, ouvi um
conhecido fadista dizer que a Amália era a única fadista
que conseguia cantar o mesmo fado em 4 tons diferentes.
A história que vos vou contar passou-se exactamente E demonstraram!
na mesma cidade (Dacar) onde ocorreu o episódio que A largada do nosso navio estava programada para a
contei no Boletim anterior (Bravata de Guarda-marinha), manhã desse dia, pois já passava da meia-noite e o nosso
somente com alguns dias de diferença. comandante teve a genial ideia de convidar a Amália para
Dacar era uma cidade com muitos imigrantes portu- ir a bordo cantar para os marinheiros que não tinham tido
gueses, alguns dos quais em muito ajudaram à sua criação a oportunidade de a ouvir nem de a conhecer pessoalmen-
e desenvolvimento. Nesse ano (1953), festejava-se o cen- te. Ela devia estar cansada, mas aceitou imediatamente, a
tenário da sua fundação e as autoridades locais, através das rir, dizendo que seria um palco onde nunca tinha actuado.
vias competentes, pediram ao governo português para Quando chegámos ao navio e a tripulação soube o que
enviar um navio que representaria Portugal nos festejos. ia acontecer, era ver os sargentos e marinheiros a saltarem
Foi a razão porque o Afonso de Albuquerque fez escala das camas e, mesmo em pijama, a correrem para a sala dos
naquele porto, aproveitando a sua proximidade já no re- oficiais, que ficou a abarrotar! E a Amália agradeceu a
gresso da nossa viagem, que nos levou até Timor, (atraves- presença deles, com um sorriso aberto. E começou a can-
sámos cerca de 5 vezes o Equador), visitámos todas as tar. Alguns marinheiros, mais chegados ao fado, iam pe-
nossas colónias (como na altura se chamavam) e ainda dindo este ou aquele, e ela cantava. Mas algumas vezes
Hong-Kong, Singapura, Indonésia e muito mais países e aconteceu ela já não se lembrar da letra toda. Não se
portos estrangeiros. Foi uma viagem que deixou a todos
nós muitas saudades! Mas as referidas autoridades de
Dacar, não se ficaram pela presença do navio português.
Para abrilhantar e valorizar ainda mais os festejos, convi-
daram a Amália Rodrigues para estar presente no jantar
de gala e no baile que se seguiu. A nossa rapaziada, quan-
do soube, ficou doida de alegria, pois eram todos grandes
fãs da referida Senhora, que ficou encantada quando viu
todas aquelas fardas e todos aqueles rostos jovens fixados
nela. Fez questão de dançar com todos os oficiais e guardas-
-marinha, que éramos cerca de 20. Aqui, o Lola, também
andou com ela nos braços e reparei que tinha uma con-
versa muito agradável, com uma voz linda, e já alguma
cultura. Era uma mulher completa, que, embora se não
pudesse dizer que era linda, era bastante bonita e muito
sexy, com as maças do rosto salientes, franca, com a sua
alegria e à-vontade que fazia com que se sentisse bem em
qualquer ambiente. Enfim, era uma mulher que fazia, sem
o pretender, com que os homens se apaixonassem facil-
mente por ela. Passou a noite a dançar e a cantar.
Um pormenor curioso e significativo da maneira de ser
da Amália. Durante as nossas conversas soube que o Sam-
paio tinha sido punido pelo Comandante por qualquer
falta cometida (não me lembro o que foi) e estava proibi-
do de sair de bordo até Lisboa. Sem dizer nada a ninguém
6 Boletim da associação dos PuPilos do exército