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O ter de cumprir horários, o regime militar, a obriga-
          toriedade  de  tempos  de  estudo,  a  ginástica  e  desportos,
          deram-me uma noção de responsabilidade que ainda hoje
          norteia todos os meus actos.
            A  minha  casa  ficava  a  poucos  minutos  de  comboio,
          aquelas  maquinetas  barulhentas  cobertas  de  fuligem  da
          queima do carvão, já minhas conhecidas das viagens diárias
          aquando da frequência do liceu, e quase todos os fins-de-
          -semana passava lá as tardes de sábado e o dia de domin-
          go, regressando ao Pilão pelas dez da noite. Essas estadias
          serviram para complementar a minha educação a par da
          que  tinha  no  Instituto. Aproveitava  também  os  fins-de-
          -semana e as férias para conviver com raparigas e rapazes   e húmidas faziam-nos desejar a cama de colchão de palha
          conterrâneos. Esse convívio semanal complementou bem   e de cobertores sempre poucos e demasiado frios, mas que
          a falta do elemento feminino no internato. Um dos pro-  depois de aquecidas pelos nossos jovens corpos nos pare-
          blemas que observei em alguns rapazes cujas terras eram   ciam acolhedores forninhos de onde não apetecia sair. De
          mais longínquas e a situação económica familiar não lhes   manhã muito cedo o levantar era penoso e, muitas vezes,
          permitia  irem  a  casa  nos  fins-de-semana,  era  o  pouco    eram os pijamas de flanela que nos aqueciam, mantidos
          à-vontade que mostravam na presença de elementos femi-  por dentro das fardas. Nos dias muito invernosos, princi-
          ninos, o que só acontecia nas férias e às vezes nem nessas   palmente os de chuva, vestíamos samarras azuis de mescla
          pois viviam muitas vezes em aldeias recônditas onde essa   grossa, cujas golas era completamente proibido levantar,
          convivência nem sempre era bem aceite. O meu caso foi   na tentativa nos proteger o pescoço.
          diferente, a terra onde vivia era muito próxima da capital   Vida  austera  e  difícil  que  nos  fez  homens  e  nos  faz
          e os hábitos eram bastante mais abertos apesar da época   hoje apreciar mais a vida cheia de comodidades que usu-
          ainda ser de algumas mentalidades bem fechadas. Tive um   fruímos. Vida que nos deu força para vencermos as agruras
          convívio são com bastantes raparigas, quer das que lá viviam   e  dificuldades  que  ao  longo  dos  anos  se  nos  depararam.
          quer das que lá passavam o verão, o que contribuiu para   Mas para mim o melhor que o meu Pilão me deu foi o
          uma formação saudável.                             valor da amizade cimentada pela vivência em comum no
            Lembro-me das conversas que mantinha com os amigos   internato, assim como os valores que me foram transmiti-
          a quem descrevia o ambiente vivido no Pilão. Sentia enor-  dos  pelos  grandes  mestres  que,  à  época,  eram  também
          me orgulho de aparecer lá na terra fardado, de lhes contar   grandes educadores. Naqueles tempos os professores eram
          como se tratavam os professores, educadores e militares do   quase vitalícios, permanecendo muitos anos no Instituto
          serviço interno, pelos seus postos e não pelo incaracterísti-  leccionando as mesmas disciplinas, tendo um conhecimen-
          co “Sr. Dr.” como nos liceus se usava, como a disciplina era   to  total  dos  seus  formandos,  contribuindo  assim,  quase
          imposta pelas formaturas e toques de corneta que identi-  como pais, para a formação do nosso carácter.
          ficávamos com clareza e que nos indicavam o que fazer e   Foi  essa  ordem  e  formação  vividas  no  Pilão  que  me
          na  hora,  como  os  alunos  graduados  actuavam  impondo   levaram a seguir a vida militar apesar do meu Pai ser civil.
          disciplina,  quase  sempre  com  um  discernimento  e  uma   Foi  essa  educação  que  me  ajudou  a  passar  sem  grandes
          maturidade pouco vulgares em rapazes daquela idade. Ter   traumas situações difíceis vividas em África.
          uma ou mais estrelas nos ombros era uma honra e a maio-  Claro que, ao lerem isto, não pensem que fui um Pilão
          ria dos que as detinham fazia por as merecer. Poucos foram   exemplar.  Também  fiz  as  minhas  malandrices  e  muitas
          os que as não respeitaram ou que delas se serviram para   vezes quebrei as regras o que me valeu alguns castigos e
          exorbitarem  na  autoridade.  Lembro-me  bem  dos  amigos   até algumas “festinhas” infligidas por graduados, no sentido
          que me escutavam boquiabertos quando lhes descrevia a   de demonstrarem o seu desagrado pelas situações criadas,
          instrução militar usando e manuseando armas que eles só   mas sempre tudo aceitei como medida pedagógica e ne-
          conheciam dos livros, filmes e paradas militares.  nhum ressentimento me ficou.
            Mas  na  vida  de  internato  nem  tudo  eram  rosas.  Os   A  única  coisa  para  que  não  fui  preparado  foi  para
          tempos eram austeros e as comodidades muito poucas. O   conviver  em  organizações  dirigidas  por  pessoas  que  da
          frio da serra de Monsanto enregelava os pobres ossos co-  disciplina e da ordem têm um mau conceito e que acham
          bertos com pouca roupa e fardas de cotim gélidas. Duran-  que  aqueles  que  esses  valores  preconizam  são  atrasados
          te  o  dia,  as  actividades  escolares  e  do  internato  faziam   mentais  castrados  de  vontade  própria.  Isso  trouxe-me
          esquecer o clima inóspito, mas à noite tudo era diferente.   algumas agruras e alguns sapos engoli.
          As salas de alunos de pedra fria e altos tectos conventuais,   Mas Pilão me formei, Pilão tenho vivido e Pilão con-
          sem qualquer espécie de aquecimento, as camaratas frias   tinuo. Morrerei Pilão.


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