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CRÓNICAS
BOLETIM APE | ABR/JUN 2023
pessoas responderá certamente que é o Monte Evereste, com os seus impressionantes 8.848m acima do nível médio do mar. Mas parece que existem 2 outros pretendentes ao título. Se contarmos a partir da parte sólida da crosta ter- restre, então o vulcão Mauna Kea, no Havai, conta com uns impressionantes 10.241m, dos quais cerca de 6.000m estão submersos. Se medirmos desde o centro da Terra, então o Chimborazo, que se eleva 6.263m acima do nível médio do mar, ainda fica a ganhar perto de 1.800m ao Evereste, uma vez que se situa no Equador e, como sabemos, o nosso pla- neta é oval e não uma esfera perfeita.
Depois de um dia de viagem chegámos então à localidade de Riobamba, onde pernoitámos antes de seguir para o Campo Base do Chimborazo. O acampamento situa-se a 5.400m e instalamo-nos em tendas comunitárias, onde nos apertamos com os restantes ocupantes, qual jogo de Tetris, tentando encaixar mochila, botas e saco-cama. A tarde vai a meio, ainda há tempo para jantar na tenda-messe, antes do nervoso descanso que antecede a saída nocturna.
Desta vez não há estrelas, que se escondem por detrás das nuvens que nos acompanharão durante todo o dia. Perto da 1:00 caminhamos vagarosamente, uma brisa gelada e cortante teima em entrar por entre as camadas de roupa que trago vestidas. Nevou muito nos últimos dias, as condições do terreno são preocupantes. Chegamos a um ponto onde o risco de avalanche parece elevado, gera-se alguma tensão entre os guias, tentando decidir se devem prosseguir ou voltar para trás. Alguns grupos tomam esta opção, no nosso caso, após longa deliberação, sigo apenas eu e o guia principal, o Robinson.
A subida é muito dura e ingreme. Não podemos fazer paragens devido ao risco de avalanche, o frio vai- se intensificando à medida que ganhamos altitude. Vou colocando mais camadas de roupa, que nunca parecem ser suficientes. A visibilidade é muito reduzida e chegamos a perdermo-nos por um breve período. A neve está fofa e enterramo-nos até aos joelhos, por vezes até à cintura. Vamos abrindo caminho, a custo, até que às 6:16 não resta mais nada para subir, chegamos ao cume. Tirámos as habituais fotos, desta vez sem nascer do Sol, nem paisagem no horizonte, pois a visibilidade é nula. Ao fim de 15 gelados minutos iniciamos a descida, mas antes tenho ainda tempo de gravar mais um vídeo para o André... ainda não foi desta que apareceu o Yeti.
Não tive as vistas deslumbrantes dos 2 primeiros vul- cões, mas as condições dramáticas da subida deram-lhe um toque adicional na sensação de sa- tisfação por chegar ao topo. Não sou propriamente viciado no risco e adre- nalina, mas este tipo de desafios na montanha pode constituir um factor adicional de motivação. Só vos digo que por detrás da máscara (gelada) de esforço, esteve sempre um rasga-
do sorriso na minha cara.
Bem, num piscar de olhos des-
cemos para a segurança do acam- pamento. Um pequeno-almoço apressado e deslizo para Riobamba, ponto de pernoita antes de seguir para Quito. E é em Quito que em- barco de volta a Portugal, seguindo o caminho inverso da ida. Sabem, às vezes quando estou na monta- nha, sozinho, aborrecido, descon- fortável, com frio, com saudades de casa, pergunto a mim mesmo, “mas porque é que eu me presto a todas estas
privações, quando podia estar no conforto do lar?”. Conhe- ço inclusivamente alguns companheiros de expedição que juraram a pés juntos vender todo o material de escalada e nunca mais repetir este tipo de aventuras. Pois, mas assim que chego a casa, todas essas dúvidas desvanecem e a per- gunta passa a ser “qual será o meu próximo destino?”. Não percam a próxima aventura...
*O autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.
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