Page 13 - Boletim 267 da APE
P. 13
BOLETIM APE | OUT/DEZ 2022 CULTURA E CONHECIMENTO
O príncipe regente Dom Pedro: A estrada para o Ipiranga
Um pouco antes de realiar a separação política do Brasil em relação a Portugal, o Príncipe Regente do Brasil, o Infante Dom Pedro, futuro Imperador Dom Pedro I, do
Brasil, e Rei Dom Pedro IV, de Portugal, empreendeu, no final de agosto de 1822, uma longa viagem para, pessoalmente, realizar a pacificação da Província de São Paulo. Alguns dias depois, quase no final de sua passagem pela região, como bem sabemos, em 07 de setembro de 1822, nos arredores da Vila de São Paulo, a evolução dos acontecimentos políticos o leva a declarar a Independência do Brasil.
No momento em que o Brasil comemora os 200 anos de sua emancipação da Pátria-mãe portuguesa, este artigo visa mostrar aos nossos leitores portugueses um pouco mais desse episódio que, mesmo no Brasil, é bem pouco conhecido em seus detalhes. Além da parte histórica, o texto busca resgatar um pouco da exuberante paisagem geográfica que era vivenciada pelos viajantes que, no começo do século XIX, rumavam do Rio de Janeiro (então capital do Brasil) para São Paulo de Piratininga (capital da província de São Paulo) e Santos (cidade no litoral paulista).
Outro ponto importante é entender a estudada cadência, e o trajeto, da viagem do Príncipe Dom Pedro para aquele destino, seguindo pelo chamado “Caminho para São Paulo”, e aproveitando o roteiro, de cerca de 600 km, para fazer ligações pessoais e estreitar laços políticos com a nascente elite cafeeira do Vale do Paraíba; apoio essencial para seus planos futuros. Ao final da leitura é possível que o nosso leitor venha a concordar que o Infante Dom Pedro somente tenha tomado a decisão que tomou no Riacho Ipiranga, em 07 de setembro de 1822, graças ao forte suporte político amealhado nessa longa e, provavelmente, cansativa viagem.
O Brasil do começo do século XIX era ainda um território, certamente pelas suas vastidões, ainda bastante atrasado no que tange a integração entre seus diversos territórios componentes. A maior parte de seus cerca de 4 milhões de habitantes, então súditos do Rei de Portugal, estava distribuída em diversos núcleos litorâneos, esparsos, e alguns núcleos populacionais no interior (o maior deles era justamente São Paulo de Piratininga), todos com precária infraestrutura de comunicações interna, o que se devia, certamente, à desafiadora geografia daquelas partes do vasto território então ainda português.
Constrastando com tal atraso aparente, desde a chegada da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, em março de 1808 (como conseqüência da 1a Invasão Francesa), a antiga possessão do Reino de Portugal sofrera mudanças bastante significativas, haja vista a necessidade de prover aquela cidade com os meios essenciais para o governo do extenso Império Português. Lembrando que o então regente de Portugal, Príncipe Dom João, viera para o Rio de Janeiro, como uma das hipóteses, de forma a resistir à já mencionada
invasão francesa do Marechal Junot que pretendia, justamente, capturar a família real portuguesa, e forçando-a a se voltar contra a Grã-Bretanha.
Em chegando ao Rio de Janeiro, as principais medidas tomadas pelo Príncipe Regente Dom João, e que tornaram a cidade uma típica sede de poder, no padrão europeu foram: 1) a criação de um banco de fomento (o Banco do Brasil) e da Casa da Moeda, 2) a instalação de uma fábrica de pólvora e de arsenais de guerra e de marinha – entre outras indústrias; 3) a criação de um curso de formação de oficiais militares, 4) a abertura dos portos brasileiros para o comércio internacional, 5) a ativação das secretarias e ministérios portugueses no Rio de Janeiro, dentre outras medidas que confirmaram a mudança da governança portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro.
Com a morte da Rainha Maria I, no Rio de Janeiro, em 1816, o Príncipe Regente Dom João passa à condição de Rei de Portugal. Uma de suas medidas mais importantes dessa nova fase foi a transformação do Brasil em Reino Unido a Portugal e Algarves, o que confirma a sua rápida evolução política desde 1808.
Após a Revolução do Porto, em 1820, entrentanto, o Reino de Portugal enfrenta uma grave crise política que visa transformar o regime político do Reino de um modelo absolutista para um constitucional. Tal mudança política frustra o projeto joanino de manter a sede no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, criado em 1816, fora da Europa; isto leva o Rei, sem outra saída, a não ser voltar a Portugal, o que faz em abril de 1821, deixando o Infante Dom Pedro como regente dos domínios brasileiros.
Em 9 de janeiro de 1822 (o chamado Dia do Fico), num grande passo para a autonomia do Brasil, o Infante rejeita ordens peremptórias para retornar a Portugal. A partir daí confronta, e expulsa, tropas portuguesas sediadas no Brasil, fiéis às Cortes Liberais, tentando, ao mesmo tempo, manter o Brasil como parte do Reino Unido.
Em agosto de 1822, o então Príncipe-Regente Dom Pedro acha-se no Rio de Janeiro, sede do governo português no Brasil, onde trabalha intensamente na busca de apoios para uma decisão que, na visão de muitos, naquele momento, cedo ou tarde terá que tomar: separação política ou não de Portugal? Naquele ano de 1822, entre diversas outras províncias (Pará, Bahia e Cisplatina em especial), duas estavam apresentando instabilidades que ameaçavam se agravar: Minas Gerais e São Paulo. Duas províncias- chave que, juntamente com o Rio de Janeiro, formavam (e formam até hoje) a core area do Brasil; estavam em franco desenvolvimento econômico e social, sendo importantes fornecedores de alimentos e outros insumos para a sede política no Rio de Janeiro.
Hermes Menna Barreto Laranja Gonçalves*
11