Page 14 - Boletim 267 da APE
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 CULTURA E CONHECIMENTO
BOLETIM APE | OUT/DEZ 2022
 No final de março e começo de abril daquele ano, o Príncipe Dom Pedro estivera na província de Minas Gerais buscando atingir uma série de objetivos políticos. Um deles era desarmar uma provável revolta que estava se armando, em função da situação política no Reino, como um todo, instável desde os eventos do Porto, em 1820. Outros objetivos atingidos foram: garantir o suporte das lideranças políticas locais e, não muito evidente, naquele momento, o suprimento de víveres, e outros recursos, para o Rio de Janeiro - no caso de um bloqueio naval da Marinha Portuguesa.
Da mesma forma, a Província de São Paulo, cuja capital era a vila de São Paulo de Piratininga, achava-se conturbada por disputas políticas que ameaçavam escalar para o confronto aberto. O cerne da questão estava numa briga entre conservadores e liberais em torno do governo da Província. Dom Pedro tentara moderar, sem sucesso, a disputa, que incluía irmãos do seu principal Ministro de Estado: José Bonifácio de Andrada e Silva. Em junho, o Governo Central chegou a mandar tropas para intervir na situação, para forçar a execução de suas ordens, mas um acordo evitou a escalada do conflito. Em face da aparente normalidade, que calhava não durar, Dom Pedro, em meados de agosto, decide ir pessoalmente a São Paulo para dirimir o conflito.
Desde sua chegada ao Brasil, em 1808, a Família Real Portuguesa se instalara numa propriedade de um comerciante local, antiga propriedade jesuíta, onde havia um palacete que mais próximo se aproximava das necessidades da rotina da Corte Real portuguesa. O casarão, passível de ser expandido, ficava nos então subúrbios do Rio de Janeiro, numa área conhecida pela “boa vista” da Baía de Guanabara. Daí o nome da herdade que entrou para a história: Quinta da Boa Vista.
Foi daquele palacete, expandido e modificado por Dom João VI, o Paço Real de São Cristóvão, que o Príncipe Dom Pedro partiu, com diminuta escolta (ele e mais 04 cavaleiros), no dia 14 de agosto de 1822, logo cedo, com destino à Real Fazenda de Santa Cruz. O destino final, como vimos acima, era a capital da então Província de São Paulo, onde pretendiam chegar seguindo pelo “Caminho para São Paulo”, ou “Estrada dos Tropeiros”, também chamada de “Estrada Real de Santa Cruz”.
Independente de seu nome, desde 1724 ou 1725, esse caminho viabilizava a ligação entre o Rio de Janeiro e São
Paulo, longe da costa marítima, ou seja, de modo mais seguro do que o arriscado “Caminho Velho” (marcado pela ameaça de naufrágios ou, mais comumente, de ataques de corsários e piratas). Este, desde 1697, pelo Porto de Paraty, e depois subindo a Serra do Mar (no traçado aproximado das estradas estaduais SP-171 e RJ-165, que hoje ligam as atuais cidades de Paraty a Guaratinguetá), fazia a mesma ligação.
Cabe destacar que o objetivo da Estrada Real de Santa Cruz era, indo além da ligação com o Vale do Paraíba paulista, proporcionar um caminho específico para escoar o ouro proveniente da ”Minas de Cuiabá”, no Mato Grosso. Com o fim do Ciclo do Ouro, do meio para o final do século XVIII, esta e outras estradas aguardam o advento de uma nova cultura exportadora.
O caminho escolhido por Dom Pedro, e sua comitiva, passava pelas atuais localidades de Santa Cruz (Real Fazenda de Santa Cruz), Itaguaí e São João Marcos (Fazenda Olaria), todas na Província do Rio de Janeiro; na sequência, já entrando na então Província de São Paulo, seguia por Bananal (Fazenda Três Barras), São José do Barreiro (Fazenda Pau D´Alho) e, na seqüência, Areias. Finalmente, conectando- se com o antigo “Caminho Velho” no então porto fluvial de Cachoeira Paulista (em pleno Vale do Rio Paraíba do Sul), seguia pelas margens do Paraíba, rio acima, quase até São Paulo (de Piratininga).
Do Paço de São Cristóvão a Santa Cruz, hoje em dia, leva- se menos que uma hora de viagem de carro, dependendo do tráfego urbano, mas naquela época a jornada levava várias horas a cavalo, para atingir a então Fazenda Real de Santa Cruz. Esta, originalmente uma herdade dos jesuítas, naquela época já pertencia à Coroa Portuguesa. Naquela propriedade, a comitiva pernoitou, tendo continuado a viagem no dia seguinte.
A partir de Santa Cruz, em 15 de agosto, os viajantes começaram a trilhar, efetivamente, o chamado “Caminho para São Paulo”, o que implicava, obrigatoriamente, numa íngreme travessia da Serra do Mar (naquele trecho conhecido por Serra da Calçada). O trecho, chamado Estrada Real da Serra da Calçada, em aclive acentuado, foi construída por escravos, estando revestida por pedras irregulares espaçadas (o chamado pé-de-moleque) para facilitar o tráfego de cavalos, mulas e carroças.
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