Page 7 - Boletim numero 261 da APE
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BOLETIM APE | ABR/JUN 2021
isso a outra vida, pois eu nem sequer sei tocar esse instru- mento. As teclas tocavam sozinhas, se calhar já fui pianista... O caule da rosa era castanho e delicado, com poucos es- pinhos e assim sou eu, se me tocam com suavidade tudo
bem, senão sei picar e muito!
As folhas representam as nossas ligações energéticas:
do lado direito, estava uma folha grande e comprida em for- ma de espada, fortemente agarrada ao caule, que associei ao nome do meu marido Jorge e ao simbolismo da nossa união. Outra folha desse lado, em forma de coração, fez-me pensar na grande ligação que tenho com a minha irmã.
O lado esquerdo é o dos filhos, uma das folhas era muito verde e viçosa, com uma folhinha pequena agarrada a ela (a minha neta Inês nasceu passado um ano). A outra folha era mais frágil, em forma de armadura, escolha anterior de quem veio ao mundo fechado num corpo com menos recursos (a armadura) para redescobrir a sua essência, com a minha ajuda.
Por baixo da rosa, uns anéis a girar mostram as vidas passadas. O primeiro anel levou-me ao séc. XIII e a uma vila pacata no sul da Europa, num dia de muito calor, eu muito jovem de cabelos compridos e olhos azuis, rebelde e incon- formada. A pobreza da família fez-me fugir dali, deixando para trás um grande amor. Refiz a minha vida com um mer- cador, tive filhos e netos, fui feliz. Mas ficou uma mágoa interior pelo passado que abandonei e pela oportunidade perdida de conciliar as duas coisas...
No segundo anel recuei até ao séc. XIV, no norte da Euro- pa, vivia sozinha no meio da floresta e tinha dons de curandei- ra. As pessoas temiam-me, mas recorriam a mim quando pre- cisavam, porque ministrava poções com ervas e óleos e curava até pela imposição das mãos. À semelhança das runas, lançava pedras para fazer predições, mas isso era apenas um artifício para disfarçar, pois a minha forte intuição bastava para ver o interior e as doenças de quem me consultava. Na- quela altura, as pessoas que tinham dons especiais eram cha- madas de bruxas e lançadas na fogueira da Inquisição...
Por fim, na base da rosa, estavam os meus projetos de futuro, dos quais destaco a pintura e a escrita como terapia e o desenvolvimento da espiritualidade.
Acabei por fazer um quadro com esta leitura, que resul- tou num patchwork montado com desenhos soltos, para os quais não tinha encontrado utilidade.
É verdade que ainda hoje padeço de calor crónico nas costas e nos ombros, o que dá azo a discórdias com o Jorge por causa do ar condicionado. Mantenho os olhos azuis de outros tempos, mas já acalmei a inconformidade, tenho que me preservar! Continuo solitária por natureza e poderia ter ido para Medicina (na altura entrava direto!), mas não me ar- rependo do trajeto que escolhi. E tenho espiritualidade q.b. para enfrentar a vida olhando para o lado cheio do copo!
Pese embora o ceticismo de alguns sobre estas matérias, espero que se tenham sentado comigo na secretária, à luz da vela, acompanhando o desfolhar da rosa, tocando o cau- le (com delicadeza!), apreciando a graciosidade das formas e cores das folhas e entrando na espiral dos tempos passa- dos que foram modelando o presente...
E como levo muito a sério os meus propósitos, cá estou eu, com este texto, a dar corpo a um dos meus projetos de futuro, na base da rosa...
CRÓNICAS 5