Page 34 - Boletim numero 260 da APE
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OS NOSSOS PROFISSIONAIS
A vida tem muitos desígnios!
BOLETIM APE | JAN/MAR 2021
   Cada um de nós, enquanto crianças e jovens adultos de uma mesma casa, que nos serviu de base comum, criámos, na grande maioria dos casos, laços de amiza-
de perenes no tempo e forjámos alguns comportamentos comuns, formas de estar na vida aprendidas na convivência diária.
Quando olhamos para as fotografias desse tempo e com- paramos os trajetos de vida, passados 20, 30, 40 ou mais anos, percebemos a grande diversidade de obstáculos e de propósitos, cada um com os seus próprios desafios e circuns- tâncias, que traçam e narram muitas histórias diferentes, muitas vidas.
Hoje conto-vos a minha, ou pelo menos, a percepção que tenho dela.
Formei-me em Contabilidade e Administração no Pilão e depois segui para o ISCAL para completar a licenciatura em Finanças e ainda passei pelo ISEG no então Mestrado de Eco- nomia Monetária e Financeira. Em paralelo com os estudos, trabalhei 5 anos maioritariamente em controlo de gestão, em várias empresas. Mas isto são apenas dados, vazios.
A realidade, a minha realidade, é que me custava bastan- te levantar todas as manhãs. Ansiava por férias. Às vezes era um suplício aguentar até ao final do expediente. Queria fugir de algo que não sabia o que era. Era como se não encaixasse. Esse sentimento acompanhou-me durante toda a adolescên- cia e enfatizou-se muitíssimo quando iniciei a minha vida pro- fissional. E teve um impacto bastante negativo na minha pro- dutividade, ainda que me tenha “safado” bem e sem com- prometer muito, mas como vim a perceber mais tarde, não se trata de fazer os mínimos, mas de atingir os máximos.
Tive a felicidade de perceber, aos 25 anos de idade, que eu estava era a fugir de mim, da vida que tinha; que segundo
os meus valores, era meio plástica. Era como se fizesse coisas que não eram realmente importantes aos olhos da mi- nha consciência.
Essa visão de plasticidade, tenho a certeza que, em grande parte, foi apren- dida pela circunstância de ter perdido a maioria da minha família bastante cedo.
Essa perda, instiga nas crianças um sentido de efemeridade e ao mesmo tempo de profundidade que tem de ser gerido para que se torne algo valioso.
A relação com a morte é uma das maiores ferramentas que temos para im- pactar positivamente esta experiência, tão subjetiva, a que chamamos vida. A grande maioria das pessoas, apesar de saber e concordar com tudo o que aca- bei de dizer, na prática essa informação não se traduz nas suas decisões do dia a dia. Vivemos como se fossemos eternos,
ingenuamente. E isso complica muito.
Quer um exemplo?
Pense em um conflito que tenha tido recentemente e em
que se tenha alterado, quero dizer, ficado instável emocio- nalmente. Se se reportar a esse momento e pensar que o ou- tro interveniente desse conflito, vai morrer alguns minutos após esse episódio, fá-lo-ia mudar algo na sua atitude?
Pense!
A maioria das vezes respondemos que sim, mudaríamos radicalmente. Excluindo casos de ódio e do chamado nível 3 de conflito, em que já valem todos os meios para atingir os fins.
Faz tanta diferença saber que a pessoa iria morrer passa- dos alguns minutos, mas e se fossem algumas horas, alguns dias e 40, ou 50 anos. A verdade é que não é uma questão quantitativa, mas sim qualitativa. A morte valoriza a vida e utilizando a expressão popular, filtra o trigo do joio.
Essa depuração fez-me ter coragem para “largar” o sta- tus e o conforto do trabalho que tinha em uma conhecida sociedade de advogados e enveredar por áreas de estudo da existência, da filosofia e do comportamento humano. Reco- mecei a minha carreira aos 25, ávido por aquelas filigranas que a vida tem, que para mim eram o que a palavra sucesso espelhava. Refiro-me à estabilidade das emoções, capacida- de de gestão de conflitos e especialmente ao trabalho com as intuições.
Como em todas as profissões, no início foi duro e depois, com o tempo, vamos desenvolvendo a experiência e a sabe- doria. Hoje, após 20 anos de imersão, sinto-me a viver a me- lhor vida que podia ter arquitetado para mim, dedicado à melhor profissão do mundo, pelo menos segundo a minha ótica.
Eduardo Saldanha 19870041
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