Page 32 - Boletim numero 260 da APE
P. 32

EVOCAÇÕES
Último adeus a um pai
No dia 24 de Fevereiro de 2021, recebi a triste notícia do falecimento do 1o Sargento José Tairocas Velez. Quem frequentou os Pupilos do Exército nos anos
setenta, lembra-se do Homem Bom, respeitador e respeita- do por todos, do Pai que era para muitos de nós dentro do Instituto. Um verdadeiro Amigo dos alunos, que nos defen- dia perante alguns oficiais menos tolerantes em relação às nossas falhas.
Conheci o Sargento Velez logo num dos primeiros dias após ter entrado para os Pupilos do Exército, em Outubro de 1972.
Naquele tempo os alunos usavam sobre o bolso esquer- do da camisa ou blusão, conforme a época do ano, uma placa de identificação, a qual continha o número, o primeiro e o último nome de cada um de nós.
Num desses dias de Outubro, encontrava-me na portaria da 1a Secção, quando me apercebi de um sargento que me olhava com alguma atenção, e, de repente, desviando o olhar que mantinha fixo na minha placa de identificação, me perguntou:
– Como se chama o teu pai?
– Justino Teixeira da Mota – respondi.
– Estive com o teu pai na Índia – disse ele de imediato
com o entusiasmo natural de quem encontra mais um dos seus antigos companheiros.
– Que é feito dele?
– O meu pai faleceu em Angola – disse eu.
O Sargento Velez ficou mudo, como quem leva uma pan-
cada no peito, e apesar de me ter tentado dizer algo, foi em- bora sem dizer nada.
Pensando bem, que outras palavras me podia ter dito e para quê, se vim a verificar mais tarde, que a partir daquele dia tinha ganho um pai adoptivo?...
Durante os muitos anos que prestou serviço nos Pupilos do Exército, o Sargento Velez fez por mim tudo o que estava ao seu alcance.
Conversou comigo, deu-me conselhos, levou-me a conhe- cer a sua família, foi muitas vezes a minha salvação quando chegavam as férias e eu, já desesperado com o atraso dos correios, não tinha dinheiro para o bilhete do comboio.
Podia estar aqui indefinidamente a falar das ajudas do Sargento Velez e da amizade que nos unia, porque ele trata- va-me da mesma forma que um pai trata um filho, e eu reco- nheço que esta relação de amizade era algo indescritível, nutrindo por ele um verdadeiro fascínio.
Em Abril de 1996 realizei com a preciosa ajuda do Major General João Afonso Bento Soares a trasladação dos restos mortais do meu pai de Angola (Maquela do Zombo) para Por- tugal (Amarante). Na sequência desse complicado processo publiquei em 2005 um livro com o título Luta Incessante,
BOLETIM APE | JAN/MAR 2021
   adoptivo
1.o Sargento José Tairocas Velez
António Teixeira Mota 19720021
 onde num misto de prosa e poesia, relato essa verdadeira saga.
Como já sabem, o Sargento Velez participou com o meu pai numa Comissão de Serviço na Índia, entre 1955 e 1957, e segundo vim a saber mais tarde, relacionavam-se entre eles como se fossem verdadeiros irmãos. Talvez por este facto, mas não só, o Sargento Velez tratava-me no Instituto, como se eu fosse da sua família.
Por tudo isto, e como forma de agradecimento, decidi oferecer-lhe um exemplar do livro Luta Incessante, para que tivesse conhecimento da trasladação dos restos mortais do seu companheiro em Goa, Damão e Diu. Nesse sentido, con- tactei previamente o 19750072 Alberto Velez, o qual fez o fa- vor de me facultar o número de telefone de casa dos pais.
À hora de jantar marquei o número, e o Sargento Velez atendeu o telefone. Após aquela meia dúzia de palavras ini- ciais de saudação, disse-lhe:
– Sargento Velez, sou o António Mota, antigo aluno dos Pu- pilos do Exército! Lembra-se de mim?
O Sargento Velez, que não estava à espera do meu telefo- nema, ficou a pensar em voz alta:
– António Mota?!... António Mota?!... conheci tantos alu- nos nos Pupilos... estás a baralhar-me!
 30



































































   30   31   32   33   34