Page 9 - Boletim numero 259 da APE
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 Karadzic15, antigo líder da Republika Sprska e do General Ra- tko Mladic16, comandante das forças sérvias da Bósnia e res- ponsável pelo ataque a Srebrenica.
Há que referir que os sérvios, tanto os residentes na Sér- via como os sérvios da Bósnia, são cristãos ortodoxos. Será que este genocídio ocorrido em Srebrenica tem uma origem puramente religiosa? Sim e não. Sim, pois dá-se um embate entre cristãos ortodoxos e muçulmanos, com uma tentativa (por vezes conseguida) de se proceder a uma limpeza étnica nos territórios ocupados durante as diversas ofensivas ocor- ridas durante o conflito. Não, porque existe uma tentativa de reaver terreno que em tempos poderá ter pertencido a uma ou outra facção do conflito e que, entretanto, foi perdi- da para outra. A abordagem e a explicação da questão da Bósnia não se restringem à questão religiosa. Posteriormen- te tentaremos trazer alguma luz a esta questão, por forma a tentar compreendê-la melhor.
1 Arredores de Srebrenica.
2 Dado que eu era o comandante do pelotão de comando da companhia,
as minhas responsabilidades incidiam principalmente na componente logístico/administrativa da companhia, pelo que não estava directa- mente envolvido na componente dita operacional.
3 Os locais onde eram realizados os trabalhos de exumação eram trata- dos como “crime scene”, sendo que teria que ser assegurada a segu- rança das equipas que procediam às exumações, bem como ao local propriamente dito, por forma a evitar que, ao abrigo da noite, os mes- mos fossem vandalizados pelos locais, possibilidade essa que não seria, de todo, de descartar, dado que nas redondezas apenas moravam sér- vios da Bósnia. No nosso local de acantonamento da companhia, e cer- ca de dois dias antes de termos sido lá colocados, uma casa de retorna- dos muçulmanos foi destruída com o recurso a explosivos, suposta- mente por vizinhos sérvios.
4 Não posso deixar de referir o forte odor proveniente da vala comum, um misto de odor a urina, misturado com “cheiro a mofo”, o qual feria as narinas.
5 “Srebrenica – Record of a War Crime” – Jan Willem Honig & Robert Both – ISBN – 13: 978-0140266320.
6 Resolução No 819.
7 UNPROFOR – United Nations Protection Force – Força militar de manu-
tenção de paz criada especificamente para intervenção por parte da
ONU, no conflito armado na ex-Jugoslávia.
8 O General Janvier, comandante das forças da ONU na Bósnia, demorou
demasiado tempo a conceder cobertura aérea ao batalhão holandês, única defesa de Srebrenica face ao ataque do exército sérvio da Bósnia, pois não acreditava que as forças sérvias tomassem o enclave, o que acabou por acontecer.
9 Só pelos relatos dos 4 únicos sobreviventes da chacina, foi possível per- ceber os contornos da enorme matança que decorreu principalmente de 13 a 15 de Julho, pois os sérvios preocuparam-se em não deixar muitas evidências do sucedido.
10 Números aliás corroborados pelo ICTY – International Criminal Tribunal for the former Yugoslavia, acessível em: http://www.icty.org/
11 Designação genérica identificativa da testemunha do ICTY, no julga- mento de Radislav Krstic, a fim de proteger a sua identidade. Iremos apelidá-lo de Oscar. Esta é uma transcrição com tradução livre dos de- poimentos no Tribunal.
12 Termo que na realidade primeiro começou a ser utilizado pelos pró- prios muçulmanos, quando se referiam a um outro muçulmano com mácula e mentiroso.
13 Num outro testemunho foi referido que os soldados sérvios chegavam a colocar cerca de 100 prisioneiros na caixa de carga de um camião, fi- cando estes de tal modo apertados que tinham que passar a noite de pé, por não disporem de espaço para se sentar.
14 De facto, e apesar de os Invernos serem rigorosos na Bósnia e Herzego- vina, o Verão é uma estação extremamente quente e na zona de Sre- brenica, com temperaturas na ordem dos 40o C.
15 Capturado em 2008.
16 Capturado em 2011.
CRÓNICAS
       Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • outubro a dezembro | 7











































































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