Page 7 - Boletim numero 259 da APE
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CRÓNICAS
enorme arrepio é provocado ao leitor, pela enumeração de uma miríade de episódios de uma brutalidade e selvajaria absolutamente surpreendentes.
Srebrenica, um enclave maioritariamente muçulmano, havia sido decretado como “Safe Haven” pela Conselho de Segurança da ONU6, em 16 de Abril de 1993, altura em que se encontrava cercado pelas forças sérvias. A partir de en- tão, passou a dispor de um contingente armado, da UNPRO- FOR7, cuja missão seria evitar a ocupação pelas forças sér- vias.
Em Julho de 1995, o exército sérvio da Bósnia (liderado pelo General Ratko Mladic), iniciou uma forte ofensiva do enclave de Srebrenica e, face à incapacidade tanto do bata- lhão holandês como de toda a ONU8 em defender o “safe haven”, Ratko Mladic, e os seus homens, acabou por tomar o enclave a 11 de Julho de 1995. Por esta altura, alguns lar- gos milhares de muçulmanos já haviam iniciado a fuga pelos campos dominados por sérvios, em direcção a Tuzla, que fi- cava a cerca de 120 km de distância.
Entretanto, a população de Srebrenica, em desesperada fuga aos ocupantes, acabou por ocupar a área onde estava instalada a força da ONU, na esperança de poder ser prote- gida por estes.
O General Ratko Mladic imediatamente estabeleceu contacto com o comandante do batalhão holandês, (o qual não podia, de forma alguma reagir, tanto pela superioridade numérica das forças sérvias, como pelo facto de parte da sua força ter sido feita refém das forças sérvias), tendo ini- ciado não uma negociação, antes a exposição do seu plano para as pessoas que tinham ocupado a base holandesa. O oficial holandês conseguiu obter a anuência de que ficariam com os militares holandeses somente os trabalhadores civis que tivessem credenciais da ONU, nada mais que isso.
Assim, no dia seguinte, as forças sérvias chegaram à base holandesa, munidos de cerca de 40 autocarros civis, e começaram a evacuar mulheres e crianças de tenra idade, para uma zona controlada por forças muçulmanas. Os ho- mens foram separados e levados em camiões, para diferen- tes áreas. Foi nesta altura que começou o suplício de milha- res de muçulmanos.
De uma forma sistemática e que demonstrou um prévio planeamento ao pormenor, os homens (e até crianças, a partir dos 14, 15 anos de idade), foram barbaramente assas- sinados9 e sepultadas em valas comuns. Os números suge- rem entre 7 a 8 mil homens10...
A testemunha “O”11 havia completado há pouco 17 anos de idade, quando, a 11 de Julho de 1995, o Exército Sérvio da Bósnia (Vojska Republika Srpska – VRS), tomou a cidade de Srebrenica, situada na parte mais a Este da Bósnia e Herzegovina. Naquele dia, a testemunha e o seu pai decidiram juntar-se a alguns milhares de homens de Srebrenica em idade combatente, numa tentativa de escapar para território controlado pelos muçulmanos da Bósnia, por temerem pelas suas vidas.
A 13 de Julho, quando se encontrava abrigado na flo- resta, o Oscar ouviu soldados sérvios da Bósnia a chamar
Autor na Landing Zone Visoko
os homens na floresta, por intermédio de um altifalante, e sugerindo-lhes que se rendessem, prometendo que os mesmo seriam tratados de acordo com as Convenções de Genebra. Nessa tarde, Oscar juntou-se a um grande grupo de homens que optaram por descer e sair da flo- resta. Oscar declarou que não sabia que eles estavam a render-se.
– Havia soldados a passar por nós, a pedir dinheiro, e após todos terem dado tudo o que tinham, amaldiçoa- ram a nossa mãe “balija” (termo pejorativo para muçul- manos)12.
Os soldados sérvios ordenaram que os agora prisio- neiros corressem com as suas mãos erguidas, ao longo da estrada a norte de Srebrenica, e em direcção à cidade de Bratunac. Os homens revezavam-se no transporte dos feridos, à medida que se deslocavam em passo de corrida. Os soldados sérvios obrigaram-nos a fazer a sau- dação sérvia dos três dedos, sempre que passavam por algum dos autocarros que deportavam as mulheres e crianças muçulmanas para território muçulmano. De- pois de terem passado algum tempo num terreno, os soldados sérvios carregaram os prisioneiros em ca- miões13, onde passaram a noite. Oscar relatou que os camiões estavam de tal forma superlotados, que alguns prisioneiros chegaram a desmaiar.
– Nós estávamos cheios de sede, ao ponto de alguns de nós beberem a sua própria urina – disse Oscar14
Na tarde de 14 de Julho, os soldados sérvios levaram os prisioneiros para salas de aula de uma escola. Um dos soldados perguntou:
– De quem é esta terra? – e acabou por responder ele próprio: – Esta é terra sérvia. Sempre foi e sempre será. – De seguida, voltou a perguntar: A quem pertence Sre-
Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • outubro a dezembro | 5