Page 6 - Boletim numero 259 da APE
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CRÓNICAS
SErebrenica
19830572
m Setembro do ano 2000, regressado de umas curtas férias em Portugal, fui transportado para o local onde a minha companhia havia sido colocada, nas imedia-
ções de Nova Kasaba, na zona de responsabilidade dos EUA na Bósnia e Herzegovina1.
A nossa missão seria a de assegurar os patrulhamentos normalmente efectuados pelo contingente, os quais iriam ser comprometidos durante o período de cerca de uma se- mana, devido ao TOA (Transfer of Authority) do contingente colocado no local (rendição da força no terreno por uma ou- tra, chegada dos EUA).
Uma tarde, o comandante do 1o pelotão convidou-me a acompanhá-lo na sua patrulha, essencialmente pelo facto de tal constituir uma oportunidade de visitar o PX (Post Exchange) americano, situado em Camp Dobol, a unidade dos EUA que nós estávamos a apoiar2. Foi-me dado o bree- fing sobre o que iríamos fazer na realidade, quais os itinerá- rios, e atribuída a função de chefe de viatura da Chaimite que iríamos levar em apoio.
Iniciámos o nosso deslocamento e o primeiro ponto de passagem seria junto de uma vala comum, onde estava uma equipa forense da ONU a efectuar trabalhos de exumação de cadáveres. À direita da estrada encontrava-se um terreno que eventualmente já havia sido cultivado, mas que se en- contrava abandonado. Virámos à direita e iniciámos marcha num trilho em terra batida, e percorremos cerca de uns 200 metros até à orla de uma floresta. Aí, bem no limite do ter-
Miguel Laranjeira
reno, encontrava-se a nossa força, a qual montava seguran- ça à equipa forense da ONU. Chegados ao local, procede- mos à rendição da secção que iria montar segurança ao local durante a noite3, e formámos a coluna em ordem de marcha, já com as viaturas da ONU, por forma a que fosse feita a sua escolta até a Camp Dobol.4
Arrancámos em boa ordem, realizámos a nossa escolta, percorrendo lindas paisagens bucólicas ao longo da margem sul do rio Drina, estivemos no dito Camp Dobol, onde pude, pela primeira vez, tomar contacto com o dia-a-dia numa unidade dos EUA – O pessoal sempre com a M16 a tiracolo, até mesmo quando se dirigiam ao WC, ou quando pratica- vam jogging com equipamento desportivo, o que era um pouco surreal relativamente ao que estávamos habituados.
Após regressado ao acampamento, e em conversa com o comandante do 2o pelotão, foi-me dado a conhecer, de uma forma mais aprofundada, o que havia ocorrido por aquelas “bandas”, principalmente em 1995. Todos nós tínhamos no- ção de que estávamos num território onde havia decorrido um conflito armado, com baixas de parte a parte, (até pela presença das valas comuns), que decorreu entre os anos de 1992 a 1995, mas ali havia algo um pouco diferente. Tal constatei, após leitura atenta de um dos capítulos de um livro que ele me emprestou5. Nesse capítulo, o qual tem por base os depoimentos de sobreviventes do massacre, um
3o Pelotão de atiradores preparado para a missão em Srebrenica – Setembro 2000
4 | Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • outubro a dezembro