Page 6 - Boletim APE_229
P. 6
EvOCAÇõES
FinaL de ano no QUiXiCo
Rui Cabral telo | 19480265
alferes comandante do pelotão “Os lobinhos”, gostava de petiscar – Como o meu Capitão vai connosco, não vai haver azar. Já quan-
O no Destacamento da Intendência. O Capitão comandante era do o levámos a Zala não houve nada. Porque é que julga que o convi-
quase da idade dele e a conversação normalmente era muito mais dei?
atraente do que a dos capitães do seu batalhão bastante mais velhos O alferes ria-se com ar malandro. Realmente assim tinha sido. A
e demasiado seráficos para seu gosto. Na Intendência a casa de jantar única vez que não tinham sido “cumprimentados” pelo inimigo naque-
era partilhada pelo capitão, o seu Alferes adjunto e os seus furriéis e la estrada, fora quando o Capitão da Intendência se deslocara com eles
sargento. Normalmente o capitão convidava outros militares para as a Zala para se inteirar sobre se os reabastecimentos se estavam a fazer
petiscadas e quase sempre eram alferes milicianos quer do batalhão a contento. Agora diziam que o Capitão estava feito com os “turras” e
quer do pelotão de apoio directo, este, o seu vizinho do aquartelamen- lhes dava sorte. Todos queriam a sua companhia.
to mais próximo. Um dos comensais que raramente falhava era o padre – Está então combinado. Vou tratar de tudo para ir com vocês. A
capelão que, quase sempre trazia consigo umas garrafas de vinho minha Mauser está sempre preparada. Vou só pedir ao cozinheiro para
Altar lá da garrafeira divina. Respeitavam-se as hierarquias mas existia arranjar umas buchas para o caminho.
uma grande camaradagem entre todos apesar dos diferentes postos. A “sua” Mauser era a sua arma de caça. Tinha experimentado todas
Após as refeições havia sempre cantorias acompanhadas à viola por as mauser da sua unidade e escolhera a mais certeira, tirara-lhe as
um dos alferes, antigo estudante de Coimbra e cantador de fado coim- orelhas do ponto de mira para que não atrapalhasse nos tiros nocturnos
brão. O Lobão, como o capitão chamava ao alferes por ser o coman- e estava que era uma maravilha, raramente necessitava de segundo tiro
dante dos lobinhos, mais parecia mesmo um lobinho devido ao seu para abater a peça.
físico franzino, o que não o impedia de se fazer respeitar pelos seus – Mas olha lá, como é que foi isso de estarem com poucas muni-
homens. Já mais de uma vez tinha mostrado, em combate, ser capaz ções?
de liderar e tomar as melhores decisões para resolver as situações sem – Parece que se meteram numa operação que deu para o torto. Os
nunca expor os seus militares a perigos desnecessários, mas enfren- tipos estavam à espera deles e bem emboscados. Deu tiroteio em
tando com determinação e sangue frio as confrontações quando a isso barda e só não teve consequências funestas porque o Alferes que
era obrigado. comandou a operação teve uma espécie de premonição e parou antes
Todas as Companhias de Comando e Serviços dos batalhões, que de entrar na zona de morte. Um “turra” mais nervoso apertou o gatilho
como o nome indica se destinava a prover todos os serviços da unida- antes de tempo e a malta conseguiu refugiar-se e camuflar-se bem na
de, possuíam um pelotão de reconhecimento, que se encarregava de vegetação. Mesmo assim aquilo durou demais e gastaram muita muni-
todos os assuntos da defesa da Companhia quer em deslocação quer ção.
no estacionamento. O comandante do Batalhão utilizava muitas vezes – Quando é para defender a vida está certo. Aí sim. É preciso rea-
esse pelotão para deslocações, sempre necessárias, entre as suas gir com grande poder de fogo para não os deixar pensar muito e não
companhias destacadas noutras localidades. levantarem a cabeça. Não é como aqui quando há uns tiros vindos de
– Meu Capitão. Amanhã vamos ao Quixico. Temos de levar umas fora. Os tipos passam, dão três tiros, fogem e nós ficamos a fazer a
munições para lá. Houve umas operações que deram para o torto e a guerra por nossa conta durante uma hora. Os meus homens estão
rapaziada deu tiros a mais. Agora temos de os reabastecer. Um dos proibidos de atirar à toa. Se atirarem têm de apresentar cadáver. Não há
alferes de lá é caçador e está com grande interesse em conhecer o meu nada mais ridículo do que dar tiros para o bananal sem ter a quem
Capitão. A sua fama de bom atirador já lá chegou e fartaram-se de rir apontar. É um desperdício de munição. Bem, vamo-nos deitar pois
com aquela história do tiro à onça que pôs o nosso comandante em amanhã sairemos cedo.
cuecas de G3 na mão julgando que era um ataque. Quer ir com a Saíram no dia seguinte pelas cinco da manhã. O Alferes da Inten-
gente? Vamos lá ficar o fim-de-semana e só regressamos segunda- dência substituiria o Capitão que, para o efeito, já lhe tinha dado as
-feira, dá para o meu Capitão ir com eles à caça. Temos é de passar lá respectivas instruções.
o fim do ano, paciência. A madrugada estava fria e orvalhada. Os militares cobriam os
– É capaz de ser giro, manda-se um rádio ao capitão de lá a dizer pescoços com o cachecol de rede camuflada e usavam luvas de lã. Os
que vou. Como passei aqui o Natal, os meus homens não se vão casacos camuflados escondiam as camisolas de gola alta que os
importar que faça o “reveillon” noutro lado. defendiam do frio da época do cacimbo. O sol começava a nascer e
– E também pode caçar alguma coisa pelo caminho. Ainda são uns brevemente teriam de começar a despir-se. África, naquela época e na
bons quilómetros e normalmente, quando lá vamos, vemos sempre mata era assim, noites muito frias e dias quentíssimos. A GMC dos
umas bichezas. Lobinhos, preparada para as minas, deslocava-se na frente seguida pelo
– O pior é se somos nós os caçados. O caminho não é seguro e jeep. Ao Capitão fora-lhe dado, por deferência, o lugar ao lado do
vocês já têm tido por lá uns percalços. condutor. O Alferes “Lobão” seguia atrás com o seu soldado guarda-
4 BOLETIM DA ASSOCIAÇÃO DOS PUPILOS DO EXÉRCITO