Page 31 - Boletim 267 da APE
P. 31

 BOLETIM APE | OUT/DEZ 2022
EVOCAÇÕES
 Natal à casa
Cai Dezembro na parada e há quem se esconda atrás das TP-25 estacionadas ao lado do que era, antes, a velha padaria verde já esquecida. Maio foi-se.
Os rapazes foram-se. E pouco ficou, na verdade. Ficaram as paredes, que insistem em sempre ficar, e ficou a chuva torrencial que se atira vinda de outras alturas, invejáveis admita-se, e embate num duro chão de alcatrão pouco absorvente. O tempo é Dezembro, daqueles chuvosos, e maior parte dos rapazes partiu para junto das suas famílias. Correm em jardins, porque lá não chove, e conseguem ser..., porque lá não chove, crianças a desfrutar de um merecido descanso escolar. Férias, dizem quase todos. Atenção: porquê apenas quase todos? Porque uma parte dos que faltam para a integralidade se completar, esconde-se atrás das tais carrinhas TP-25 e a outra parte, também faltosa aos ditos rituais familiares ainda que em família esteja, nada mais consegue fazer do que projectar formas de vir a enaltecer as formaturas que para sempre, mesmo quando esquecidas e aparentemente ultrapassadas, lhes levantarão os queixos que a vida tentará sempre tornar pesados. Os rapazes que ficam e os que vão sem ir são os tais que discordam da palavra descanso merecido. Não param. Não fecham os olhos. Não nada. Sim a tudo, desde que pensado. E pensam constantemente no que aquelas paredes aos seus ombros parecem querer. E o que será que querem, paredes mansamente cobertas por chuva fria? Ora, pois! Pergunte-se isso aos rapazes, que as escutam mesmo fazendo barulho entre si, numa azáfama pouco disfarçada. Pergunte-se a Eles que não desembrulham prendas, ou quando o fazem esperam mauser´s e nunca manelica´s que deixam para a raia miúda, aguardando, isso sim, somente que tudo passe e regressem os corredores que ecoam botas desengraxadas em corrida atrapalhada, o sol a passar revista a pelotões eternamente imóveis e o seu plano à casa. Ó rapazes, é Natal. Chegou o tempo do frio quente que vos estanca as existências mornas. Chegou o Natal e com ele a hipótese de se descobrirem em união ao detalhe. De farejarem todos os cantos da casa, até os mais esquecidos, objectivando, dessa descoberta única a vós, inconsciente e enquanto todos partiram, o tempo que vos insiste em espreitar escondido, meio cobarde, atrás do sino grande dos claustros. O Natal acontece e começa então, a um ritmo só seu, longe dos portões, uma vez que, dentro deles, o ritmo será sempre o vosso: íntimo e profundo. Mas lá fora, longe dos vossos corpos em rebuliço entre escadas infindáveis, há quem espere todo o ano por este momento, desconhecendo, talvez, que, vocês, aqui, não o esperam porque criam-no! Criam-no do vosso interior para o interior de quem ao vosso lado ficou. Até porque, mesmo para os que decidiram partir, impossível é esquecer os portões que a todos recebe: podemos fazer isto, temos de fazer aquilo, é preciso falar-se de tal... Ó rapazes, alguém vos deu uma consciência tão refinada que, por vezes, parece nem existir. Por vezes, de tão acentuada que é, a vossa consciência parece nula e acaba por resultar numa irmandade intimíssima pouco compreensiva ao mundo alheio que teime em não se esforçar
em compreender-vos. O que ganham com isso? Não fazemos para ganhar, ouve-se. Fazemos porque não existimos sem os nossos pares. Ó rapazes e daí, dessa existência para sempre colectiva, haver em vós quem decida deixar em casa famílias que vos esperam de azevias na mão, para darem a quem não as tem um Natal em irmandade plena. Sim, a irmandade é uma família sangrada da dor, escuta-se. Pois bem, claro que sim. Louváveis são estes rapazes, que, uns aos outros, de forma primitiva, atiram sorrisos de cara a escorrer chuva, entre paredes curiosas que para sempre lhes darão encosto, e se empurram em gritarias selvagens até alguém se fartar e dizer: pára, vamos abrir as nossas prendas, é Natal pá! Se é... O Natal dos rapazes que ficam sempre foi o Natal mais natalício de todos: tostas mistas em aquecedores ferrugentos, um colchão extra em jeito de trono régio, consolas de jogos dentro dos armários verde tropa e banhos quase quentes de madrugada em batuque de quem manda. Ó rapazes, como se vos vê, em passo corrida já no dia de Natal, que decide, então, acontecer com a vossa doutíssima autorização. Espreitou o sol e lá foram, os rapazes, depois de uma consoada em família fardada, rodeados por irmãos felizes e por tectos que os viam a enternecer a vida em ápices que não voltarão. Ó... se eternos serão esses momentos... Eternos até à eternidade do que eterno é se aborrecer e decidir terminar por si só. Mas nunca vocês, rapazes de sorrisos afoitos e cabeças erguidas, que, até depois do fim dos tempos, deambularão, em marcha de pés ao alto, pelo vazio, de penachos branquíssimos e alisados ao ritmo de quem vai sem voltar. Um Natal tornado tão especial simplesmente por... existir. Alegria e gargalhadas à solta por camaratas longuíssimas e distantes de tudo o que lá fora decide acontecer em vida banalmente ordinária. Uma festividade singularmente singular, só vossa e, às vezes, quando calha, de quem convosco tenha tido o luxo de a
  Gonçalo Soares de Jesus 20050021
 29



























































































   29   30   31   32   33