Page 10 - Boletim 267 da APE
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CRÓNICAS | VIAGENS BOLETIM APE | OUT/DEZ 2022
As montanhas não
se medem aos palmos...
... mas o Gasherbrum II tem 8035m, ou, se preferirem, 35149 palmos. É a 13a montanha mais alta do Mundo e, depois de em 2019 ter subido a 1a (o Evereste, com 8848m), achei que era um bom desafio para 2020. Bem, a ideia era essa, mas nesta coisa de preparar expedições há sempre imprevistos. E em 2020, se bem se lembram, levámos com o tal “bicho”, o que limitou bastante as deslocações internacionais. Cancelado!
Nova tentativa em 2021, mais 6 meses de treino duro, mas o bicho teimou em não ir embora. Cancelado!
Como se diz popularmente “à terceira é de vez” e foi mesmo isso que aconteceu. A 10 de junho de 2022 lá embarquei num avião com destino ao Paquistão, país onde estão localizadas 5 montanhas com mais de 8000m: o famoso K2 (a 2a mais alta, 8611m), Nanga Parbat (8126m), Broad Peak (8051m), Gasherbrum I (8080m) e Gasherbrum II. Se acham os nomes difíceis de dizer, nem queiram imaginar o trabalho que dá chegar lá acima!
E por falar em dificuldade, a grande maioria das pessoas não sabe os níveis de exigência física e mental requeridos para subir estes monstros de rocha, gelo e neve. Bem, em primeiro lugar e mais óbvio, tem que se caminhar longas distâncias e subir bastante. Nalguns dias a altitude transposta é de cerca de 500 a 600m. Para terem uma ideia, 10 andares equivalem a 30 metros, por isso imaginem o que é subir 200 andares... sem elevador!
O elevador seria de facto uma preciosa ajuda, pois é bastante normal carregar uma mochila com 10 a 15kg. Ah, e já agora, até escadas seriam um luxo, pois muitas vezes o terreno é de neve fofa, de gelo duro e liso, de cascalho escorregadio ou de rocha irregular.
Mas a maior dificuldade de todas é a falta de oxigénio. Para quem se lembra das aulas de Geografia ou Ciências da Natureza, a concentração de oxigénio varia na nossa atmosfera de acordo com a pressão. A 5000m temos disponível apenas 50% do oxigénio quando comparado
com o nível do mar. E a 8000m a quantidade de oxigénio que entra nos nossos pulmões por cada inspiração é de uns míseros 30%. O oxigénio é fundamental para alimentar os nossos músculos, pelo que nos sentimos mais cansados. NA prática, quer isto dizer que ter 10kg às costas a 7000m equivale a carregar 40kg ao nível do mar.
E não são só os músculos que consomem oxigénio, o nosso cérebro também utiliza este gás. A 8000m a nossa capacidade de raciocínio fica limitada, há quem diga que ficamos com a capacidade mental de uma criança de 8 anos. E esta é uma das razões porque acontecem tantos acidentes mortais a alta altitude, resultado de más escolhas. Quem viu o filme “Evereste”, de 2015, lembrar-se-á de decisões em alturas críticas que foram um perfeito disparate.
A falta de oxigénio é também a culpada pela chamada “doença da montanha”, que em casos agudos pode provocar o edema cerebral (HACE) ou pulmonar (HAPE), sendo também 2 das principais causas de morte.
Bem, mas porque é que estou para aqui a gastar palavras e espaço de revista a falar das dificuldades? Porque desta vez não cheguei ao cume, fiquei-me pelos 7400m, cerca de 600m abaixo do cume. É verdade, quebro desde já o suspense sobre se cheguei ou não ao topo. Mas não fiquem por aqui, ainda tenho coisas giras para contar.
Embarquei então rumo ao Paquistão no dia de Camões e, após uma breve escala em Istambul, aterrei em Islamabad no dia seguinte. Após uma breve pernoita num modesto hotel nos arredores da cidade e onde me juntei aos restantes 3 membros da expedição, rumámos novamente ao aeroporto para apanhar o voo doméstico para Skardu, capital da província do Baltistão, no norte do País. Foi aqui que nos reunimos com o nosso guia inglês, David Hamilton, velho conhecido da minha expedição ao Evereste. Para além do guia foi-nos também apresentada o resto da equipa local: 5 montanhistas/carregadores, um cozinheiro e 2 ajudantes.
Em Skardu pudemos gozar durante mais uma noite os luxos de dormir numa cama, ter casa-de-banho e usufruir do
Rui Silva
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