Page 36 - Boletim numero 258 da APE
P. 36
EVOCAÇõES
Memórias do Capitão Teixeira
oN “ Trolha”
Dagoberto Campos Lima
o início do ano lectivo de 1940-1941 aí por volta do mês de Novembro de 1940, o Prof. de Matemática Capitão António Vicente Teixeira, tinha por hábito,
– “Ah, grande Alfarazes” (...era a minha alcunha!), estás a fazer “uma velha”!...– expressão muito usada pela malta que queria dizer que “a chamada ao quadro” estava a ser um êxito, pelo que o aluno iria obter uma excelente classifi- cação!...
Depois disto o Capitão Teixeira, mantendo a boa disposi- ção, acrescentou:
– “Define, outra vez o que é o “quadrado da soma” e coloca à frente da expressão I e II o desenvolvimento res- pectivo”
Interpretando, com clareza, o que me foi pedido, escrevi à frente das mencionadas expressões:
• (Expressão I): (a+b)2 = a2+2 vezes a×b+b2; • (Expressão II): (2+4)2 = 22+2 vezes 2×4+42
= 4+16+16=36
Continuando a aplaudir, com um sorriso e um olhar vi- brante de vivacidade (... e de “entusiasmo” diria eu, pois é a imagem que dele guardo!...), o “meu Capitão Teixeira”, vol- tou a interpelar-me, mas agora com tudo o mencionado nas expressões I e II, expostas no quadro negro, dizendo:
– “Agora volta a definir o que é “o quadrado da soma”. E ao mesmo tempo que fores dizendo, “aponta” no quadro.” Aqui, neste ponto do episódio, que estou revivendo,
com toda a minúcia, porque não entendia o “vibrante apon- ta” que o Prof. proferia quando eu chegava ao ponto da definição que dizia: “... é igual ao quadrado da primeira ...”, fiquei calado olhando para o quadrado sem nada me ocor- rer como resposta ao “terrível aponta!”, de que não fazia a menor ideia!...
Então o Prof. Teixeira, já a dar sinais de nervosismo, vol- tava a dizer:
– “Repete lá a definição!”, ao que eu correspondia de imediato, mas quando chegava ao ... “quadrado da primei- ra”, aí vinha o “nosso Capitão Teixeira”, rápido que nem um tigre em cima da presa, frenético e apoplético, interromper- -me, desabridamente, para me voltar a dizer:
– “Aponta!” (... terrível palavra!) “Agora Aponta no qua- dro!...” –, e eu, coitado de mim, que não sabia o que o nosso Capitão “queria que apontasse”!? olhava para o quadro e perguntava-me, subconscientemente, cada vez mais bara- lhado, mas o que é que este tipo quererá que eu “apon- te”?!... E ali ficava, ansioso, perscrutando num vazio infinito, sem nada me ocorrer ao espírito!...
Depois de algum tempo, com a sala num silêncio absolu- to (... não se ouvia o zumbido duma mosca!), o Prof. cada vez mais excitado e fora de si, insistia em perguntar-me.
19400246
para além dos “Pontos Escritos” a que submetia os alunos, depois de explicada a matéria que já tinha sido dada, fazia “chamadas ao quadro”, para ir aferindo a capacidade de aprendizagem dos mesmos, adoptando um critério “sui ge- neris” (pouco comum) – Também existia a modalidade (esta rara), do aluno que pretendia elevar a nota, ir pedir ao Pro- fessor para ser “chamado ao quadro!...” – que consistia em retirar da sua pasta as cerca de três dezenas de cadernetas de cada aluno que constituía a Turma B, (que era o meu caso) e, com movimentos bruscos, espalhando-as em cima da secretária, misturava-as como se faz com um baralho de cartas!..., e, em seguida, perante a excitante, bem visível an- siedade da turma, tirava uma, ao acaso, para, de imediato, daquela vez, anunciar com voz clara e compassada:
– “Aluno 246, Dagoberto Campos de Lima vem ao qua- dro!...”
Enquanto a restante malta respirou aliviada, eu, com os nervos à flor da pele, lá me encaminhei para o quadro ne- gro, resignado, mas disposto a enfrentar o “temível Trolha”, alcunha por que era conhecido o “nosso Capitão” Teixeira, para a qual desconhecia a origem.
Lembro-me bem, como se fosse hoje, não obstante te- rem sido decorridos 80 anos!..., que nos primeiros 15 mi- nutos tudo me estava a sair bem, porquanto, aparentando presença de espírito, à-vontade e tranquilidade, porque, na realidade, estava “Senhor da matéria”, ia respondendo, correctamente, a todas as perguntas que me iam sendo fei- tas pelo Professor (... “a quem, segundo a linguagem mili- tar, a malta tratava por ‘meu capitão’, em vez de ‘Profes- sor’!...”), que se mostrava, francamente, satisfeito, a avaliar pela fisionomia do seu rosto, onde bailava um acentuado sorriso!...
Foi, então, que surgiu a polémica pergunta que deu aso a este traumatizante episódio que estou a narrar, relem- brando-o!...
Depois de uma rápida consulta à minha caderneta, que tinha à sua frente após a escolha (“à sorte”, como acima descrito!), levantou a cabeça, e, encarando-me, bem-dis- posto, disse-me:
– “Muito bem 246! Diz-me lá o que é “o quadrado da Soma”? – acrescentando de imediato:
– Escreve no quadro: (I) e (II),
Satisfeito com mais esta pergunta cuja resposta eu sabia “na ponta da língua!”..., apressei-me a fazer o que o “nosso Capitão” me pedia e, tendo pensado “para com os meus botões” (subconscientemente):
34 | Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • julho a setembro