Page 19 - Boletim numero 258 da APE
P. 19

 EM FOCO APE
                   Ana Oliveira
19781097
Estávamos em Outubro de 1978, não consigo precisar o dia, mas sei que foi na primeira ou segunda semana, e ape- sar de ser já Outono, a manhã estava ensolarada e havia di- versos grupos de rapazes e raparigas espalhados pela para- da inferior da segunda secção. Descobri depois que os grupos eram de alunos e alunas dos colégios Militar e de Odivelas, dos alunos (estes fardados) do Pilão, e os outros, que tinham vindo de diversas escolas e liceus. As alunas e alunos novos não tinham ainda farda (no caso das meninas a célebre bata azul).
Eu, como tinha vindo do liceu, estava meio encolhida, sentada num dos bancos, à sombra, a ver aquela fauna hu- mana, e a pensar no que me esperava. Embora o Pilão não fosse para mim novidade, o meu irmão tinha saído dois anos antes, viver a escola era um mistério, ainda para mais, para uma garota acabadinha de sair de um liceu só de meninas...
Estava eu embrenhada nos meus pensamentos, quando se aproxima uma miúda, alta, magra, cabelo escuro curti- nho, de nariz empinado, e, com voz esganiçada, me dirige a palavra! “O que é que esta quer? pensei eu, e “que voz mais irritante... espero que não seja da minha turma...”
Conversa para lá, conversa para cá, blá, blá blá.... Estava na turma A de Electrotecnia, “que sorte!!!! Eu também!!!! Ora bolas! que chata!”
Lembro-me do lanche, nesse dia comi concretos e nou- gat!!!! Foi o lanche da manhã e da tarde ou vice-versa. Fi- quei viciada! Em ambos. Ainda hoje sou doida por qualquer destes doces, embora os concretos já não sejam como anti- gamente. que pena!
O dia foi passado, entre salas, fotografias, papelada, con- versas, etc... e aquela miúda embirrante, que teve a (in)feliz ideia de meter conversa comigo no primeiro dia, ficou ao meu lado desde o primeiro até ao último dia de aulas! Curio- samente, também ela tinha um irmão a frequentar o Pilão. Eu e a Beli, andávamos sempre juntas, partilhámos parte da nossa vida durante esses quatros anos, e ainda hoje somos amigas!
quanto àquela voz estridente e irritante, quem conhe- ceu o Mestre Pelicano sabe bem do que eu estou a falar...
Carlos Palma
19720075
Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.
“Enfim duma escolha faz-se um desafio Enfrenta-se a vida de fio a pavio Navega-se sem mar, sem vela ou navio Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”
Deixando Luanda, as
lágrimas assentavam-me
no rosto, ao deixar o
meu pai e entrar no
avião com destino a Lis-
boa onde passadas mui-
tas horas aterrámos e
onde me esperavam os
meus tios que eu pouco
ou nada conhecia. Se-
guimos para Sacavém,
pois no dia seguinte iria-
mos começar no Pilão a
preparação do enxoval e
tirar as medidas para a farda, preparativos que eram efec- tuados antes do início do ano lectivo.
Sinceramente não sei, nem me recordo das sensações, mas uma coisa tenho a certeza, seguramente, andava meio perdido com tudo o que me rodeava.
Não havia horário de verão ainda naquele Outubro, de mil novecentos e setenta e dois, em que eu, pela primeira vez, dormia longe de minha mãe, do meu aconchego, do meu mundo, dos meus conhecidos aromas tão amados.
Embora o dia já tivesse raiado, naquela madrugada o sono ainda era intenso para todos os internos pilónicos. Não foi o trinar dos passarinhos moradores da árvore vizinha e nem a claridade que já se imiscuía pelas vidraças que nos acordou. Naquela primeira-manhã-madrugada o que nos trouxe do lado de lá, do lado de lá do mundo dos sonhos, para um desconhecido mundo do lado de cá, foi o som estri- dente e contínuo de uma corneta nos nossos ouvidos, e nas nossas cabeças.
Meio adormecido lavei o rosto, escovei os dentes, vesti a farda e entrei na bicha que se formava e seguiria, depois, escadaria abaixo e corredores à frente rumo à parada para a primeira formatura do dia, para a seguir, ir tomar o pequeno almoço e sentir na alma e no estômago as primeiras impres- sões desta nova vida, que se descortinava à minha frente.
Como escreveu Sérgio Godinho, na sua canção Primeiro Dia, que não sendo uma canção de amor, seria uma canção de percurso de interrogações, que culminaram em 1985, com as lágrimas caindo pela face, aos deixar aqueles por- tões de ferro por onde me escapava e na ferrugem do ferro, vi as marcas das mãos que não as minhas e as quais alicer- çaram aquilo que sou.
Manolo
                Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • julho a setembro | 17
Turma Pupilos 1978





























































   17   18   19   20   21