Page 18 - Boletim numero 258 da APE
P. 18
EM FOCO APE
Nota do Editor:
O 1o dia no IPE...
Com o início do ano letivo, novos alunos enchem a parada do IPE, começando assim o seu percurso na nossa escola.
O primeiro dia marca o início de uma aventura que merece ser relembrado.
Resolveu a Equipa do Boletim celebrar a data, lançando o repto a alguns antigos alunos para que fossem ao baú das memórias e escrevessem sobre o seu primeiro dia no IPE...
André Gil
20000116
Poderia lembrar-me se entrei de pé direito, mas a memória não guardou esse pormenor. Foi trémulo, isso sei. Trazia a insegurança de um lugar estranho, o olhar felino de alerta a todo o movimento, na esperança de consumir
tudo ao meu redor e sorver o Instituto todo num trago só. As mãos suavam em bica, sempre suei muito com o ner-
vosismo!
Olhei de relance para a minha mãe, também ela nervo-
sa. Mais do que eu, provavelmente! Ela não tinha “à vonta- de” para situações onde “firme” e “sentido” eram mais do que sentimentos e sentidos e passavam a ser ordens de voz possante e assertiva. Nunca gostou muito desta “ordem” imposta. Eu não sabia se gostava, estava fascinado e ia com vontade, nervoso, porém.
Dividíamos os “volumes” entre nós. A mala de viagem e os sacos riscados, o saco de desporto e a pasta com inúme- ros livros (é sempre um choque a quantidade de livros que temos face aos 4 ou 5 da escola primária).
– Este saco riscado é para a lavandaria. – dizia a minha mãe, mais talvez para ela não se esquecer.
Fomos recebidos pelo Corpo de alunos, militares e futu- ros alunos graduados e encaminhados para a que viria a ser a nossa camarata. Deixámos os nossos pertences junto do cacifo com a nossa identificação. Aquela impessoalidade deixou-me um pouco desconfortável. Os cacifos metálicos verdes, de um tamanho que achei minúsculo para tanta coi- sa, principalmente pelo meu pouco apurado sentido de or- ganização. As camas metálicas verdes e os colchões...aper- cebi-me que nem sabia fazer uma cama!!!
- Depois vais ter que fazer a tua cama todos os dias Andruco! – disse-me a minha mãe quase em tom de pena enquanto eu engolia em seco.
Aprendemos a fardar-nos com o serviço interno. Toda aquela farda afinal fazia algum sentido! Reparei logo num ponto positivo: não tinha que ter a preocupação de escolher “aquelas calças” que ficavam bem com “aquela t-shirt”.
A minha mãe, que não descolava, o nervosismo, lá me ensinou a fazer a cama, os alunos graduados iam dando as indicações de como deveria ficar a almofada e a coberta
azul, aprendi depressa, mas num futuro muito próximo iria aprender melhor.
Almoçámos todos juntos, ainda. Na minha mesa, para além da minha mãe e eu, estava o Telmo Luís e os pais, que nos deram boleia para o Instituto. Eu e o Telmo éramos já conhecidos e próximos, não tivéssemos vindo os dois da mesma escola primária.
Depois do almoço, vieram as despedidas. As lágrimas rolaram um pouco em beijos desmedidos e abraços aperta- dos, na promessa de que não tardaríamos a estar juntos (há sempre um pequeno sentimento de que os abandonamos, falo por já ter estado do lado da minha mãe).
Enxugaram-se os rostos e abanaram-se as mãos pela úl- tima vez naquele dia.
Cortou-se o cordão umbilical.
Fomos entregues aos nossos graduados, que se identifi- caram logo. Os primeiros momentos são muito engraçados, quando os tratamos por “você” e eles riem dizendo que somos todos iguais, uma família.
O Tavares viria a ser o meu comandante de pelotão e o Ferreira o seu adjunto. O Pereira e o Marques apresenta- ram-se como comandante de companhia e adjunto respec- tivamente. Fomos apresentados ao Luz, o nosso comandan- te de batalhão.
Ainda aprendemos ordem unida básica, o tal “firme”, “sentido”, “descansar” e “à vontade”.
Ditaram-nos horários e explicaram-nos funcionamentos e regras básicas, principalmente de convivência em grupo e de uma família que nos recebia.
Chegou o jantar. A minha mãe já ali não estava e pela primeira vez senti a falta dela. Fechei o sentimento, tinha que ser forte por ambos e pelo meu pai que se encontrava fora do país em missão.
Aproximando-se as 21h30, iniciaram-se os preparativos para deitar, num recolher que estava ditado para as 22h. Estava exausto!
Todos de pijama azul, começaram-se a abrir os lençóis e os choros começaram. Os sentimentos de alguns cederam àquela primeira noite, alguns pela noite fora até não haver mais energia para alimentar a sua tristeza.
Eu adormeci, com o sentimento de ser forte e com a esperança de que era o início de uma jornada que não tar- daria a parecer pouco... e pareceu.
16 | Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • julho a setembro