Page 8 - Boletim 274 da APE
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NÃO HÁ CHAMPANHE PARA NINGUÉM!!!
Decorria o ano de 1968, já lá vão 55 anos e eu, chefe da Contabilidade da Manutenção Militar à data,
estava como habitualmente sentado no gabinete, manuseando a mais do que muita papelada que
todos os dias dava entrada naquela Delegação. Estava muito longe de imaginar que um desses dias
não seria igual a tantos outros cuja monotonia era o denominador comum, e porquê?
Simplesmente porque nesse dia quis o destino que
eu viesse a cruzar-me sem que nada o fizesse prever
com o maior terror do Pilão nos anos cinquenta, o
famoso e bem conhecido Esguia, Mário Pimentel
(AA 19510148).
Trata-se de um encontro que tenho contado a
alguns pilões e também aos meus filhos e netos
sobretudo para lhes dar a conhecer como a nossa
Escola, que todos amamos nos preparou para a vida
e nos ensinou o que é a verdadeira camaradagem.
Disse para mim mesmo "a vingança serve-se fria"
e neste caso bem fria senão mesmo gelada. Disse
em voz alta:
- D.ª Alice, diga ao nosso 1.º que não há champanhe
para ninguém!
O Pimentel referiu então que se tratava de um
pedido expresso do seu comandante e que não
queria regressar ao Norte sem o tão apreciado
líquido!
A MISSÃO
O Pimentel, então 1.º sargento comando, deslocou-
-se do Norte de Moçambique a Nampula para
requisitar alguns bens alimentares no armazém
da Manutenção Militar e também, a pedido
do seu comandante, requisitar 14 garrafas de
champanhe que se destinavam a colorir a festa que
o comandante queria fazer creio que em Mueda, o
que não posso confirmar.
O funcionário que o atendeu no armazém, aviou a
requisição com exceção das garrafas de champanhe
tendo-lhe dito que para tal era necessária a
autorização do chefe da Contabilidade - o Alferes
Nelson Fernandes que trabalhava no 1.º andar.
O REENCONTRO
Após um breve compasso de espera disse em voz
de militar.
- Faça favor de entrar nosso 1.º sargento.
O Pimentel entrou e após a continência perfilou-
-se diante de mim, alferes com 22 anos e ainda um
imberbe.
Olhamos um para o outro e eu sempre na esperança,
que ele me reconhecesse, mas isso não aconteceu
e tive de ser eu a desbloquear a situação, tendo
quebrado o gelo com a seguinte frase:
- Ó Esguia, o que fazes por aqui?
O OBSTÁCULO
O bom do Pimentel subiu as escadas e no guichet
disse à funcionária que pretendia obter autorização
do nosso alferes para levantar umas garrafas de
champanhe.
Reconheci-o pela voz, mas para confirmar a minha
suspeita debrucei-me sobre a secretária e espreitei
pelo guichet e aí sim, aquele corpo longilíneo e seco
não me deixou margem para dúvidas, estava na
presença do terror do Pilão do meu tempo.
SAFO!
Imediatamente o Esguia disse:
- O meu alferes é do Pilão! e começou a esboçar um
sorriso como quem diz, já me safei.
- Esguia tens autorização para levar as garrafas de
champanhe, mas hoje vais ter de jantar comigo,
que eu tenho todo o gosto em te pagar o jantar.
Ele respondeu:
- Não posso meu alferes.





























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