Page 5 - Anexo ao Boletim APE 272 Janeiro a Março de 2024
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Aterrar no aeroporto Tenzig-Hillary de Lukla é por si só
uma experiência libertadora de adrenalina. A pista tem o
curto comprimento de 527m, com um gradiente de 11,7% (a
subir para quem aterra) e termina numa parede de rocha, ou
seja, a avioneta ou pára a bem, ou… é melhor não pensar
nisso.
A nossa bagagem é colocada em iaques que seguirão o
nosso percurso de caminhada até ao Campo Base de Ama
Dablam, passando pelas aldeias de Phakding, Monjo, Namche
Bazar, Tengboche e Pangboche, nomes tão estranhos, como
familiares, para quem os percorre pela terceira vez. Toda esta
caminhada é uma espécie de “déjà vu”, onde vou anotando
as pequenas diferenças aqui e ali, mas não há nada de muito
diferente desde há 5 anos atrás.
Namche Bazar, considerada a capital do povo Sherpa, é
sempre um marco de referência, não só pela sua
característica geografia, casas nas encostas de um vale, mas
também pelo seu animado comércio, onde não faltam as
famosas “bakeries”, com excelentes café e pastelaria, lojas
de equipamento técnico, lojas de souvenirs e bares para
beber muita cerveja nepalesa… de preferência no regresso
da montanha.
Chegamos ao Campo Base, a 4.500m de altitude, no dia 7
de Novembro. Na verdade, não estamos no verdadeiro
acampamento que reúne as muitas expedições que tentam
subir o Ama Dablam, mas sim num pequeno hotel que foi aqui
construído recentemente. Devo dizer que estava um pouco
apreensivo relativamente a esta escolha da organização, pois
gosto muito do acampamento e do ambiente que se vive lá,
mas acabei por ficar conquistado pela simpatia dos nossos
anfitriões e pelas amenas instalações. E aqui também se
“respira” montanha, o Ama Dablam Lodge tem muito
carisma, sim senhor.
Após um dia de descanso, temos a tradicional cerimónia
de Puja, uma bênção e um pedido de autorização para
pisarmos o solo sagrado da montanha. Para os Nepaleses as
montanhas são entidades divinas, devemos por isso respeitá-
las e honrá-las na medida do possível. A cerimónia é também
uma oportunidade para libertar alguma tensão pré-escalada,
para fomentar o espírito de grupo e a desculpa perfeita para
beber, em generosa quantidade, algumas das bebidas
alcoólicas da região, nomeadamente chhaang (vinho de
arroz), roksi (parecido com vodka), rum e cerveja. Os sherpas
animam-se, cantam e dançam, contagiando os
envergonhados ocidentais, que acabam por se lhes juntar
numa das muitas rodas ao som de música tradicional.
A subida ao cume será organizada em 3 rotações, isto é,
faremos saídas para a montanha, cada uma atingindo um
ponto cada vez mais alto, regressando no final de cada uma
delas ao Campo Base:
1) O primeiro objectivo é o Campo Base Avançado
(ABC) a 5.100m, onde pernoitamos. No dia seguinte subimos
ao Campo 1 (5.800m) só para aclimatar o corpo por um breve
período, antes de regressar à base.
2) Na segunda saída seguimos directos para os 5.800m
do Campo 1, pernoitamos e, na manhã seguinte, fazemos
subida até ao Campo 2 (6.100m), onde repousamos meia hora
antes do longo caminho de regresso ao nosso pequeno hotel.
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CRÓNICAS
BOLETIM APE | JAN/MAR 2024