Page 6 - Boletim 267 da APE
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 CRÓNICAS
A velhice
Apopulação portuguesa está a envelhecer e os participantes de organizações da sociedade civil, como é o caso da APE, não fogem a este determinismo demográfico. Entre as tertúlias por via virtual, em boa hora criadas pela Associação, uma delas teve como tema a velhice. Durante a tertúlia em que foi referido o esforço de manutenção da saúde física e mental – uma obrigação cívica e social de cada idoso –, tomei notas tendo em vista a importância do tema para associados da terceira idade. E decidi fixar essas notas em forma de crónica.
Bem, a vida é fugaz e só damos pela sua fugacidade quando envelhecemos. Mas a vida é uma experiência única que tem como principais momentos o dia em que nascemos, uma alegria familiar de que não nos damos conta porque acabámos de nascer e o dia da morte, um dia de tristeza de que também podemos não nos dar conta.
Cidadãos formados na classe média com anseios, sonhos e esperanças dessa formação, damo-nos conta de que cada geração tem as suas referências básicas na sociedade que o rodeia. Os meus avós, por exemplo, apenas conheci superficialmente um deles, foram filhos da 1a república e da I Guerra Mundial, foram ambos presos por relativamente pouco tempo. Um deles após o primeiro julgamento de monárquicos após a instalação da república, assunto largamente exposto num livro de Vasco Pulido Valente. O outro, o avô materno, por suspeitas administrativas numa importante empresa de navegação constituída pela república. Os meus pais foram filhos do regime de Estado Novo, da ditadura de Salazar e da II Guerra Mundial, a minha geração foi filha da guerra colonial, da resistência ao regime e do 25 de Abril, a geração dos meus filhos é filha da democracia e da União Europeia, a geração dos meus netos é filha das novas tecnologias, da guerra da Ucrânia...enfim, já passaram duas gerações por cima da minha, considerando que cada geração são mais ou menos 25 anos. (Há dias ao passar pelo Jardim da Graça, debaixo de uma árvore esplendorosa, vi dois velhos – mais ou menos da minha idade – a jogar dominó e talvez a lembrarem a guerra colonial ou amores de juventude.) Num exercício de futurologia diria que os meus bisnetos e trisnetos poderão ser filhos dos efeitos da ascensão da hegemonia mundial da China, das consequências das grandes mudanças climáticas... mas não estaremos aqui para confirmar ou não esse futuro.
Cada um de nós começa por dar-se conta da velhice por pequenas reações da sociedade e de pessoas próximas. Quando começamos a ser tratados por “avô, avô” (tenho um camarada de curso que já é bisavô) ... e também em nós próprios, estranhamos que com a idade a avançar, depois dos 80, surgirem sinais de lembranças de episódios e pessoas que passaram de raspão pela nossa vida e a velhice vem dar-lhes um incompreensível protagonismo, enquanto alguns acontecimentos importantes são pouco lembrados. E isto está relacionado com a “verdade dos fatos”. Parece-me que a verdade (ao contrário da realidade) não existe, porque cada um tem a sua e há sempre algum pormenor que se omite ou se acrescenta sem querer ou de
BOLETIM APE | OUT/DEZ 2022
forma deliberada... a vida como ela é. Mentir é uma arte de poucos, mas o bom mentiroso - como frequentemente o homem comum - pratica as meias verdades.
Dito isto, partilhei na tertúlia da Associação uma história pessoal que, creio, ilustra bem a questão da verdade e a noção de espaço e tempo que caracteriza a velhice. Desertei, era segundo-tenente, oficial da guarnição da fragata Pacheco Pereira, comandada pelo capitão de fragata Almeida d`Eça, em missão de serviço no porto da Beira (Moçambique), em março de 1968. Em plena guerra colonial. Parti para o exílio, fui amnistiado em 1974 depois da Revolução de 25 de Abril e entrei para o Ministério dos Negócios Estrangeiros exercendo funções diplomáticas no estrangeiro até à minha reforma em 2004 quando regressei definitivamente a Portugal. Mais de meio século depois da minha deserção, a guerra colonial terminara e procedeu-se à descolonização, a fragata Pacheco Pereira foi abatida e repousa em algum lugar do fundo do mar, Portugal tornou-se um país com uma sólida democracia e integrado na União Europeia... e a dado momento na grande casa centenária nos arredores de Santarém, onde nasci e vivo, construída pelo meu avô paterno, recebi um telefonema do Almirante Almeida d`Eça. Eu tinha 77 ou 78 anos e ele queria convidar-me para um almoço de aniversário em que estaria presente, a sua família, os oficiais da guarnição do navio e várias personalidades do Almirantado. E acrescentou que ele faria cem anos. No dia seguinte telefonei a confirmar a minha presença. O almoço correu bem e Almeida d`Eça faleceu poucos meses depois.
Alarguei-me na narrativa desta história por que ela caracteriza bem, entre outras questões, a importância dos fatos, a fugacidade da vida, a tolerância... na velhice.
Para terminar, recordo-me que o António Trancoso, na tertúlia, referiu-se à eutanásia que, como sabemos, está na agenda política do atual governo. Embora seja um assunto que se refere à doença incurável e ao sofrimento, os velhos como habitantes frágeis da sociedade são os alvos mais numerosos, creio, desta proposta de legislação. Conheço de perto apenas o caso de eutanásia de um velho conhecido meu com perto de 80 anos. Não tenho opinião a respeito deste delicado assunto e, além disso, trata-se de uma matéria que está fora do âmbito desta crónica.
   Jacinto Rego de Almeida 19850073
 Ilustração de João Almeida
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