Page 8 - Boletim numero 260 da APE
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CRÓNICAS | VIAGENS BOLETIM APE | JAN/MAR 2021 Uma aldeia esquecida...
   Marina Fereira*
   Em 1919 foi lançado um dos maiores romances da Litera- tura Portuguesa – “Terras do Demo”. Este romance de Aquilino Ribeiro fala-nos de terras “bárbaras e agres-
tes”, fala-nos de almocreves, estalajadeiros, ciganos, alcovi- teiras, moças enganadas e padres mulherengos ... fala-nos da terra natal do autor, não que o mesmo a quisesse chamar de terra do pecado ou residência do Diabo, mas sim, de terra trabalhosa e fatigante, castigada pelo meio natural onde a vida é dura e pobre...
Percorrendo as Terras do Demo, encontramos a aldeia de Arcas. Uma aldeia desconhecida para muitos, esquecida por alguns e adorada por outros, como é o meu caso.
A aldeia de Arcas situa-se na freguesia de Sever, conce- lho de Moimenta da Beira, distrito de Viseu e é uma das mais antigas terras da região. Esta aldeia possui nos seus limites pedras antigas com jeito de marco, dispostas em quatro pa-
redes como uma espécie de resguardo que poderá tratar-se de marcação territorial neolítica ou divisão administrativa romana, dúvidas que persistem na sua história ainda nos tempos de hoje.
Na parte mais alta da aldeia terá existido um mosteiro, o Mosteiro das Arcas, desde meados do séc. VI que acabou por ser destruído aquando da invasão do povo muçulmano, mais precisamente entre o ano de 978 e 1001 com a chegada de Hajib Almançor que ordenou a destruição de todas as igrejas e edifícios cristãos. Neste ato de guerra, as freiras ou monjas beneditinas terão sido degoladas bem como a madre supe- riora, a abadessa Comba Osores.
Reza a lenda que seria um edifício belo e cheio de riqueza e que esta riqueza, ficou subterrada e ainda permanece, por baixo do solo onde hoje existe a capela em homenagem à santa padroeira da aldeia, a Na SR.a das Seixas.
A aldeia de Arcas é hoje mais uma aldeia no “fim do mun- do”, longe dos olhares perdidos por quem passa por aquela Estrada Nacional 226, onde existe apenas um entroncamen- to com uma tabuleta de pedra indicando a entrada da aldeia. Mas essa estrada não nos leva ao “fim do mundo”, leva-nos para um outro mundo, com caminhos rurais circundados por muros de pedra, com fontes antigas, pequenos santuários nos seus cruzamentos, cheio de gente simples e humilde que busca sustento no cultivo das suas terras.
Em tempos, a produção de milho, centeio e batata, eram os produtos mais rentáveis, atualmente, a maioria dos seus habitantes vive do rendimento dos vários campos de casta- nheiros e essencialmente do pseudofruto pomáceo da ma- cieira, que encontramos em pontos de venda espalhados por todo o nosso país sem fazermos a menor ideia da sua ori- gem. Há de todo o tipo, desde o Bravo Esmolfe à Jonagold, passando pela Fugi até à Jonagored e acabando na Golden e na Royal Gala, que “nascem” em maior quantidade. São as melhores maçãs de Portugal!
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