Page 12 - Boletim numero 259 da APE
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CULTURA E CONHECIMENTO
Crew Dragon
UOm charter para o espaço
Alexandre Correia*
(Dep. Física Univ. Coimbra)
ano de 2020 constituiu mais um marco na história da pelo computador de bordo da Crew Dragon, sendo apenas exploração espacial: pela primeira vez uma missão monitorizadas pela tripulação, para o caso de surgir algum tripulada ao espaço foi totalmente levada a cabo por imprevisto. Durante 62 dias permaneceu ligada à ISS, tendo
uma empresa privada, a SpaceX. Já em fevereiro de 2018 a os astronautas participado em alguns trabalhos com a restan- mesma empresa tinha conseguido enviar um carro em dire- te tripulação da estação espacial. No dia 1 de agosto de 2020,
ção a Marte (ver Boletim #248), mas desta vez estavam vidas humanas em jogo, por isso tudo tinha de correr bem.
O foguetão usado foi o Falcon 9, desenvolvido inteira- mente pela SpaceX, que tem a grande mais valia de ser par- cialmente reutilizável, permitindo assim diminuir considera- velmente os custos das missões espaciais. A primeira versão começou a ser usada em 2010 para transportar carga para o espaço, tendo desde então recebido sucessivos melhora- mentos. É atualmente a forma mais barata de transporte espacial, o que despertou o interesse das agências espaciais.
Até 2011, a NASA (agência espacial dos EUA) sempre co- locou os seus astronautas no espaço através de meios pró- prios. Devido aos acidentes ocorridos com o vaivém Challen- ger (1986) e Columbia (2003) e devido aos sucessivos cortes orçamentais, a partir do ano de 2011 os astronautas passa- ram a deslocar-se à ISS (estação espacial internacional) usando o veículo Soyuz, desenvolvido pela Rússia. Algo que seria impensável antes do final da guerra fria: os EUA paga- rem à Rússia para transportar os seus astronautas!
Mas agora em 2020 tudo mudou. A NASA contratou a empresa SpaceX para levar dois astronautas, Douglas Hurley e Robert Behnken, até à ISS. Curiosamente, Hurley tinha sido também o piloto da última missão do vaivém Atlantis em 2011. Desta vez, usaram o veículo Crew Dragon, monta- do no topo do foguetão Falcon 9. Este novo veículo, igual- mente reutilizável e contruído pela SpaceX, consiste numa simples cápsula espacial e tem capacidade para transportar até sete astronautas.
Este primeiro voo foi de carácter experimental. Partiu do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, a 30 de maio de 2020, e acoplou com sucesso à ISS no dia seguinte. Todas as mano- bras de acoplamento foram realizadas de forma automática
a Crew Dragon desligou-se da ISS e regressou à Terra, tendo “aterrado” com sucesso no Oceano Atlântico, no dia seguinte. Estão já planeadas novas missões da Crew Dragon para o futuro. O próximo lançamento da NASA deverá ocorrer a 23 de outubro de 2020, naquela que será a primeira missão ofi- cial (não experimental) deste novo veículo de transporte. Uma vez que se trata de um meio de transporte desenvolvi- do por uma companhia privada, ele não é um exclusivo da NASA. Qualquer agência espacial pode agora recorrer aos
seus serviços para colocar pessoas ou carga no espaço.
A redução dos custos de transporte da Crew Dragon abre ainda novas perspectivas para a exploração espacial. A em- presa Space Adventures (https://spaceadventures.com/) pretende usar a Crew Dragon para fazer turismo espacial, ou seja, proporcionar experiências em órbita da Terra a qual- quer pessoa, ou até mesmo viagens à volta da Lua. Outra empresa, a Axiom Space (https://www.axiomspace.com/), pretende construir uma estação espacial privada, com o úni- co fim de turismo espacial. O meio de transporte, claro está, será a Crew Dragon ou outros concorrentes que entretanto forem surgindo. Em breve, será como apanhar um voo char-
ter até ao espaço!
(*) Alexandre C. M. Correia
Professor Associado – Departamento de Física – FCTUC
Grau: – Universidade de Lisboa 1997: “Licenciatura” (B.Sc) em Física;
– Universidade de Paris VII / Observatório de Paris, 1998: “DEA” (M.Sc) – Astrofisica;
– Universidade de Paris VII / Observatório de Paris, 2001: PhD – Dinâ- mica do Sistema Solar;
– Universidade de Genova / Observatório de Genebra, 2003: Pós- -doutoramento – Exoplanets;
– Universidade de Aveiro, 2014, “Agregação” (Habilitação) em Física.
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