Page 39 - Boletim numero 258 da APE
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 PALAVRAS SOLTAS
                  Ernâni Balsa
Ramiro Nolasco Sei de 19740268
um bando...
        19600300
CNocturno...
São asas...
  avalgo a noite na penumbra do meu espaço. Na ilusão do lar que criei à minha imagem e dimen- são, mas que projecto num espaço ainda maior.
soltas,
forjadas a ferro e fogo por um ninho que fervilha de vida, que as estimula a saudar a alvorada,
ao renascer, renascido a cada madrugada,
qual força do querer...
e as mantém impregnadas em vontades de voar,
para que a partida não seja partir
nem ausência... nem distância...
que o sentir, esse, está sempre presente.
São asas...
de regresso,
que, a cada Primavera, enchem os céus... de Maio,
de anil...
de vontade de juntar.
É um bando, nada brando.
   Imenso. que abrange o conceito de tudo caber num es- paço que é só meu, para o qual convido todos os amigos, que acabam por nunca vir, porque a dimensão do meu sonho não cabe na dimensão diminuta da verdadeira re- alidade do espaço que é meu. Tudo o resto é ilusão.
A penumbra que me envolve, ponteada de breves pontos de luz, afaga-me o corpo e a alma na noite que finalmente é só minha. Projecto-me nas imagens que o ecran me devolve, nos sons que a música empresta à minha sede de ouvir o belo e magia de melodias que me embalam na solidão que me acolhe. É na noite, nesta noite tão noite que eu insisto em prolongar, porque é nela que eu me sinto mais eu e me construo lentamente como ser e homem, que me reencontro comigo mesmo. Como entidade convivial, mas que não consegue viver sem este isolamento e clausura em mim mesmo. É nes- te cenário nocturno que me completo e solto o exercí- cio de pensar, sem limites nem argumento.
Muitas vezes, basta um leve som, um bailado, uma imagem que me faz brilhar uma ideia de escrita, uma repentina sofreguidão de criar e compor uma melodia de letras e palavras, que a pouco e pouco se vão cons- truindo numa arquitectura de frases, espelho das mais diversas cenas de um guião que me persegue e impul- siona para o mundo que vive dentro de mim, mas que também me desassossega na minha dimensão da reali- dade que me rodeia.
Em cada partícula desta minha encarnação nocturna, me revejo naquilo que sou e que terei sido até aqui, em cada noite deste meu lado obscuro. Obscuro, mas reple- to de luz criadora e emotiva, empolgante e inquieta, ava- lassadoramente produtiva de pensamentos e ideias, pro- jectos e sonhos, nem sempre cumpridos, mas perenes da sua essência motivadora.
É nesta penumbra que me alimento de espaço, de tempo, de vida. quando adormeço na tardia alvorada do dia, volto a ser eu, aquele que todos me conhecem e que não poderia ser outro se não fosse esta nocturna energia que de mim se apodera em cada noite de cada dia...
  Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • julho a setembro | 37







































































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