Page 22 - Boletim numero 258 da APE
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 EM FOCO APE
           Maria do Rosário Pires
19771001
Devo confessar que hesitei bastante. Sete anos no colé- gio de Odivelas tinham-me moldado o caráter e o brio, habituada que estava a um ambiente protegido, em que singrei e num arroubo consegui levantar a média final do 7o ano em dois valores. um brilharete!
Tinha, portanto, um horizonte aberto de escolhas, sem nenhum caminho pré-definido. Tanta abertura não me faci- litou a decisão, poderia ter seguido qualquer percurso, com maior ou menor capacidade de adaptação... Resiliência, acho que é o termo que melhor me define, tento sempre percorrer e adaptar-me ao caminho que escolhi.
E naquela altura, entre as promessas de liberdade dos cravos e das gaivotas que voavam com asas de vento e cora- ção de mar e a segurança de uma escola em tudo semelhan- te a Odivelas, empurrada pela minha amiga Cristina Montei- ro, eu decidi-me pela atração das fardas.
E assim, entrei pela porta grande no Instituto Militar dos Pupilos do Exército: por causa da média que trazia de Odi- velas, foi-me atribuído o no 1001, uma capicua que ficou para a vida!
Essa já ninguém ma tira, fui a primeira aluna externa dos Cursos Superiores nos Pupilos do Exército, em 1977!
A memória do primeiro dia já se diluiu com os restantes, mas relembro a parada da Segunda Secção repleta de alu- nos, uma imensa mancha ondulante a duas cores, o cinzen- to da farda dos rapazes pontilhado pelo azul das batas das raparigas, recortada pelos risos de uma juventude vibrante.
Se fosse agora, eu diria que era um ajuntamento perigo- so, mas naquela altura a felicidade era total!
Para mim, oriunda de um colégio interno, a bata azul foi um upgrade qualitativo à túnica de quadradinhos que sem- pre usara, mas os externos torceram um pouco o nariz.
As novidades continuaram, o elemento masculino era quase tabu em Odivelas e ali eles surgiam de todas as esqui- nas: talvez pela presença das raparigas numa escola habitualmente masculina, houve uma certa rivalida- de inicial entre os alunos internos dos Pupilos e os que vinham de fora. Não tardaram a formar-se ca- salinhos, estávamos na pujança da vida e a atra-
ção era total.
Lembro-me que não
achei graça nenhuma às partidas que certos gru- pos de internos prega- ram a alguns dos meus colegas, mas a vida ba- ralhou os dados e acabei por casar com um deles!
Turma de 77 – Eletrónica e Telecomunicações
Por falar em dados, jogava-se poker no bar, nos interva- los das aulas. E subíamos aquela rampa imensa e pedrego- sa todos os dias, para ir para as nossas atividades, aulas, vestiário, ginásio, enfim, era um exercício necessário, mas salutar!
Os laboratórios de Eletricidade e Mecânica eram logo a seguir à parada principal, subindo-se uma escadaria. Relem- bro com graça um episódio das aulas práticas de Eletricida- de em que uma colega deitou fora alguns condensadores da bancada porque pensava que eram fita-cola!
Não posso deixar de falar da atividade física e das exibi- ções da Classe Especial de Ginástica que tantos suspiros nos arrancavam, porque eram um espetáculo ímpar de força e beleza masculina, os nossos colegas eram um motivo de grande orgulho!
Mas as meninas não ficavam atrás e a grande parada da Primeira Secção foi palco das nossas exibições a solo e em pares, todas muito elegantes, vestindo maillots azul claro. Algumas de nós, mais destemidas, integravam com os cole- gas, as equipas de Taekwondo.
Os bailes são outra das minhas grandes memórias, espa- ços de alegria e convívio, mas também de uma formalidade como hoje já não há: eu tive um baile de finalistas à séria, nunca vou esquecer a figura garbosa dos meus colegas far- dados a rigor rodopiando no ginásio da Primeira Secção com as mulheres lindas e elegantes em que nos tornámos.
Já estou a ir muito além da impressão do primeiro dia, mas o que agora relembro são marcas desse tempo, do rigor na qualidade do ensino, a que eu já me habituara em Odive- las e de uma convivência engraçada entre jovens colegas vindos de diferentes realidades.
De certeza que todos eles relembram, tal como eu, esse passado com nostalgia e ainda hoje nos reunimos sob o culto dos Pupilos do Exército com colegas de todas as idades, quer em almoços, presencialmente, quer num esforço coletivo, como o caso do último 25 de maio, na versão monumental do Hino do Pilão, como só os Pilões sabem fazer!
Porque querer é Poder sempre foi e será o meu lema para a vida!
É Jacaré? Não.
É Perdigão? Não.
Então o que é? IPE, sempre e para sempre!!!!!
       20 | Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • julho a setembro
Baile de finalistas






































































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