Page 12 - Boletim 274 da APE
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ENTREVISTA A SAMUEL RODRIGUES (AA 19760140)
Pintor, nascido em Almada, em 1966, vive em Madrid e vem a Lisboa frequentemente. Desde criança
que passa muito tempo a pintar. A vocação como pintor torna-se evidente quando, aos 10 anos,
desenha em qualquer suporte que tenha à mão.
Como se formou o pintor, no Pilão?
Inicialmente, a vida num ambiente tão
estruturado e disciplinado parecia limitar as
minhas oportunidades de explorar a arte. No
entanto, com o tempo, o ambiente do internato
também oferecia oportunidades únicas para
desenvolver as minhas habilidades artísticas.
O Pilão proporcionava momentos de silêncio e
introspeção que se mostraram fundamentais para
poder crescer como pintor. Longe das distrações
externas, comecei a dedicar mais tempo ao
desenho e à pintura. A rotina disciplinada, que
parecia um obstáculo, acabou por me ensinar a
importância da disciplina na prática artística e
ajudou a melhorar a minha criatividade.
As minhas vocações naturais, desde pequeno,
desenvolveram-se no ambiente das artes e os
Pupilos proporcionaram a minha participação
muito ativa nesse mundo; tocava trompete
na orquestra e tinha aulas de teatro. Estas
atividades, permitiam desenvolver a minha
curiosidade pelo mundo (limitado) à minha
volta, que se plasmava em rabiscos em papéis
que representavam o que via e o que me ia pela
alma…
Trabalhei em várias empresas do grupo
Centrel até 1995, quando fui para a Telecel,
para conhecer um mundo diferente na área
das telecomunicações, foi divertido, intenso,
frustrante e enriquecedor, tudo ao mesmo tempo
– só estive 2 anos. Quando fiz 30 anos, deixei a
Telecel para aventurar-me a outras culturas e fui
trabalhar para a Philips Ibérica em Espanha. Vivi
em Madrid até 2020, com estadias largas em
França e no Brasil. Profissionalmente, cheguei
Em resumo, o Pilão, com a combinação de
a ser Diretor-geral (para Espanha e Portugal) de
disciplina, tempo para introspeção e recursos
uma multinacional franco-alemã. Em 2016, deixei
educacionais, foi um terreno fértil para o
o mundo laboral durante 2 anos para o dedicar à
desenvolvimento da minha vocação como
minha mãe, que precisou de acompanhamento
pintor. Inicialmente percebido como uma
por uma doença da qual acabou por se recuperar.
limitação, acabou por proporcionar um ambiente
adequado para que eu pudesse dedicar-me à
arte e descobrir o meu potencial criativo. Tanto
assim que foi nos Pupilos que ganhei os meus
primeiros prémios de pintura e desenho. Com 12
anos ganhei o primeiro prémio de pintura e com
Em 2018, retorno à vida laboral e a Espanha para
trabalhar numa multinacional australiana na área
do IoT (Internet of Things) para desenvolver o
negócio da empresa na Europa e finalmente até
ao final de 2020, numa multinacional espanhola
na área do IoT, como Diretor Internacional.
18 o segundo prémio de pintura e o primeiro
prémio de desenho, nos jogos florais.
Como é o teu percurso pós Pilão?
Acabei “fracas” em 1987, e fui trabalhar para uma
fábrica de telecomunicações do grupo Centrel
(AEP – Automática Elétrica Portuguesa), onde me
encontrei com antigos pilões, velhos senhores
do lugar, que me acolheram e acompanharam
como sempre fazemos entre nós.
Ao longo deste tempo fiz novos amigos e
conheci o mundo, viajei por muitos países e
conheci muitas culturas e o mais importante,
consigo equilibrar de forma perfeita a minha vida
profissional com a minha vida pessoal, foram
duas vidas paralelas, uma de fato e gravata e a
outra com um avental sujo de tinta e entre telas
e pincéis. Mas essas duas vidas permitiram-me
ser feliz.



















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