Page 16 - Boletim numero 260 da APE
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E QUANDO A MEMÓRIA NÃO DESMERECE E NOS ENGRANDECE...
BOLETIM APE | JAN/MAR 2021
O Processo (das colheradas) no IPE, era na altura reco- mendado para os adolescentes de “menor índice atlético”, que eram à época detetados por mensurações trimestrais de acordo com o famoso Índice de Pignet, que eram o orgulho do então Enfermeiro Lourenço «Fan» pai do AA João Louren- ço (19410296), uma das mais típicas figuras pilónicas dos anos 40.
Era certo que quem tivesse entre os 12 ou 14 anos e não atingisse os índices do Pignet, ia parar à temida «lista dos O.F.».
A título de curiosidade o índice de Pignet, era um índice utilizado desde o início do século XX para avaliação da cons- tituição física. Em 1901 Maurice Charles Pignet, que era médi- co da armada francesa, propôs uma forma de medir a capaci- dade dos soldados a partir de medidas físicas básicas: peso, altura e perímetro do peito. Atualmente este índice acaba por ser um absurdo, uma vez que acabaria por favorecer pes- soas obesas, mas não podemos deixar de ter em conta que no princípio do século XX, os exércitos procuravam soldados que não tivessem problemas de desnutrição, tuberculose, ou quaisquer outras doenças associadas a uma má alimentação.
Descreve-nos então assim o David Sequerra o tal proces- so horrendo do O.F. bacalhau nos anos 40 no IPE:
“...e não se livraria do suplicio de minutos antes da refei- ção, em pleno refeitório, lamber-se todo com uma “querida” colherinha (colherona!) de óleo de fígado de bacalhau, de colo- ração tão bonita, tão obediente a escorrer do frasco para a co- lher, aos cuidados do servente da enfermaria e sob atenta vigi- lância do “Fan”, impecável na sua bata branca e de penetrante olhar, lançado por cima das suas meias lentes de encavalitados óculos arcaicos e de uma certa solenidade.” ...
Conta neste pequeno apontamento que apesar de se ter tornado num homem de 1,78 m de constituição robusta, na passagem dos 12 anos para os 13 anos, face ao seu “espigan- ço”, quebrou todas as estatísticas do tal índice Pignet, ten- do-se transformado num verdadeiro “lingrinhas” e para seu terror lá foi parar à lista
negra do «O.F.».
“...por volta das 12.05 horas de cada dia sema- nal, quando as narinas se me enchiam com o odor abrutalhado de uma boa sopa de feijão encarnado ou de amarelíssimos e consistentes grãos sa- loios, lá vinha a «equipa fantasma» do mestre Fan e seu acólito, com frasco, lista e colher em punho, olhar agressivo por cima das meias-luas, convidan- do-me ao ritual que ainda hoje me arrepia todo, só de o evocar. Cabeça avan- çada, olhos fechados, língua de fora e toda a força psíquica do meu intelecto de adolescente
a tentar o «contravapor» circunstancial, pensando em pasteis de nata, bolos de arroz, bolachas de chocolate ou «tabletes» da Excelsior, dessas que as «organizações comerciais internas» vendiam com 100% de lucro, na sala de jogos, antes do recolher.
– Trezentos e trinta e três!
– Pronto.
– Vamos lá ao óleo...
E eu ia... ao óleo e “aos arames”, maldizendo a minha si-
lhueta magrizela, a minha falta de fôlego no assoprar do tubi- nho e enchendo de fel a memória desse tal Pignet que inventa- va índices com que o Sargento Lourenço nos tramava...”
Ainda na sua descrição é claro que o momento era o di- vertimento de todos os outros colegas que assistiam à afli- ção de quem era tramado pelo índice de Pignet.
“...A malta da mesa gozava, eu deglutinava o melhor pos- sível durante largos segundos e pedia para ser o primeiro a ser- vir-me da sopa, adejectivando-a sempre de maravilhosa, digna de Pantagruel, impulsionando dentro de mim um desabafo festivo e rancoroso, simultaneamente, por causa do suplício do «O.F»:
– Viva o Mestre Cuco* das Sopas!
– Morra o maldito Pignet dos índices...”
Há a registar também, que esta memória e apontamento
do David Sequerra em 1974, é despoletada pela escassez de bacalhau na altura. Em 1958, Portugal tornou-se o produtor no 1 de bacalhau salgado, a partir dos anos 60, começaram a surgir os problemas motivados pela mudança do direito do mar e pela crescente dificuldade de arranjar quem quisesse trabalhar em situações tão precárias, os últimos três grandes navios de pesca de bacalhau à linha vão pela última vez ao mar em 1974.
Quanto ao suplício do O.F. no IPE, lá diz um velho ditado «O que aperta segura e o que amarga cura» ...
* Mestre Francisco outras das figuras icásticas do IPE
Mestre Cuco em pé junto aos alunos
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