Page 26 - Boletim numero 259 da APE
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 NOTÍCIAS DO IPE
enhum país, nenhuma sociedade, nenhuma escola es- tava preparada para o cenário criado pela pandemia de COVID-19.
O confinamento generalizado, num primeiro momento, e por um bem maior: manter vivo o ensino experimental das as regras de distanciamento adotadas mais tarde, vieram pôr Ciências. Maior pormenorização na preparação dos materiais,
ON Ensino das Ciências Naturais em
 tempo de Pandemia
Alexandra Gonçalves*
               à prova a capacidade de adaptação e de criatividade em to- dos os níveis de atividade.
Concretamente no meio escolar, esse foi um enorme de- safio: a realização de aprendizagem supõe a criação de um ambiente motivador. As grandes questões: como motivar, como entusiasmar? Como vencer a frieza da comunicação on- line? Como preservar a componente experimental, no caso do Ensino das Ciências, totalmente fulcral para a integridade dos conteúdos lecionados?
Repensar, Reestruturar, Refazer, Recriar, Redimensionar, Rentabilizar recursos: a fórmula dos 6Rs aplicada agora ao processo de Ensino Aprendizagem. Este pode ter sido o fio condutor da grande revolução que foi necessário fazer.
O laboratório que temos em casa: a nossa cozinha! Na componente do ensino à distância, foi ela o nosso principal recurso para não abandonar o trabalho experimental. Foi nela (na de cada um, professora e alunos) que se encontra- ram os ingredientes, os utensílios e as condições de seguran- ça para levar a cabo todo um conjunto de experiências:
– o Ciclo das Rochas através da confeção de “BOLINHOS de MÁRMORE”;
– a formação das estalactites e estalagmites com o bicar- bonato de sódio;
– a diferenciação do Planeta Terra em crosta manto e nú- cleo, através do estudo da densidade, testando o comporta- mento do azeite, da água com corante alimentar, do mel e das pastilhas para a azia;
– as catástrofes ambientais devidas à ação antrópica, re- correndo à construção de maquetas 3D em caixa de sapatos, recorrendo a materiais reutilizáveis...
Se o ensino à distância foi um desafio, o ensino presencial, também fortemente condicionado por todas as regras de pre- venção, não o foi menos.
Como conciliar a minimização dos riscos com a participa- ção ativa que é condição para a efetiva aprendizagem? Como promover a segurança na sala de aula sem comprometer a motivação, o entusiasmo, a alegria de aprender participando, fazendo, experimentando?
Toda uma elaborada logística teve de ser inventada, um protocolo de pro- cedimentos recriado, uma disciplina de grupo reforçada e interiorizada, um conjunto de pequenos preços a pagar
mais materiais, maior dispersão das atividades, que deixaram de ser de grupo, maior monitorização individualizada, todo o rigor na higiene e no distanciamento.
Permitir com isto a preservação de uma dinâmica de entu- siasmo, de espontaneidade e de alegria no “aprender fazendo”. Nesta difícil, mas possível, coexistência das restrições extre- mas com os incentivos à participação ativa e à mente desperta, acabámos por assistir ao espetáculo da criatividade dos alunos e ouvir distintamente o som do processo de aprendizagem. As “Espetadas de fruta equilibristas”, a “Simulação dos processos de fossilização” em massa de modelar, no gelo e na gelatina, os Kits de simulação das interações “Hidrosfera-Solo-Biosfera”, re- correndo a materiais reutilizáveis, a construção de frisos geo- cronológicos, a simulação do processo de expansão dos fundos oceânicos, construindo modelos de rifte e de fossa oceânica, a simulação das correntes de convecção do magma, entre ou- tros: procedimentos experimentais que pudemos deste modo realizar. Momentos em que ganhámos ao vírus, em que pude- mos verificar a adesão dos alunos a este tipo de atividades, em que vencemos as barreiras do distanciamento e nos aproximá-
mos pela partilha do empenho e da realização.
Saúde acima de tudo? Sim, mas a saúde não é só ausência
de COVID-19. A escola proporciona às crianças e aos jovens vivências sociais e pessoais que são alicerces decisivos na pro- moção da sua saúde mental. Não podemos permitir que uma faça perigar a outra.
A aprendizagem dos conteúdos poderia ser proporciona- da aos alunos através de aplicações online. Estas até permiti- riam um ritmo de “consumo pedagógico” totalmente indivi- dualizado. Mas a escola, claro, é muito mais do que uma ferramenta de transmissão de conhecimentos. Na aplicação online, os alunos iriam aprender tudo sobre os dinossauros. Na escola, muito para além disto, eles vão poder elaborar, como o aluno número 426/20, Shall Panzo, do 7oC, sobre a história do pobre “Coitadossaurus”, pacífico consumidor pri- mário, presa de um carnívoro e preservado até nós pelo lento processo de mineralização...
Esta dimensão extra da instituição escolar é a sua principal qualificação. Criatividade, atividade crítica, experimentação, participação partilhada, são aspetos de crucial importância na verdadeira aprendizagem, que nem mesmo em tempos de pandemia podemos aceitar perder.
(*) É Professora de Ciências Naturais no Instituto dos Pupilos do Exército des- de 2015.
Licenciada em Ensino de Biologia e Geologia pela Universidade do Minho têm experiência profissional de lecionação nos 2o e 3o ciclos bem como no Ensino Secundário.
Exerceu cargos de Subcoordenação e Coordenação de Departamento, de Coordenação do Projeto de Educação para a Saúde (PES), de Direção de Turma e de Implementação e Coordenação, no IPE, do Projeto de Autono- mia e Flexibilidade Curricular (PAFC).
        24 | Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • outubro a dezembro







































































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