Page 6 - Boletim numero 258 da APE
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CrÓniCas
 A cultura do óbito
Acidade de Sligo, capital de um condado no noroeste da Irlanda foi o lar de infância de William Butler Yeats (1865-1939), poeta, dramaturgo, Prémio No- bel de Literatura em 1923 que ao outorgá-lo salientou o seu elevado nível artístico que deu expressão ao espírito de toda a nação. Ele foi marcado por forte misticismo e espiri- tualismo, foi senador e politicamente tomou posições con- traditórias: admirador de Mussolini e também dos republi- canos espanhóis durante a Guerra Civil. Sligo tem, desde sempre, apreço pelos mortos e entre os seus sítios arqueo- lógicos tem o Cemitério Megalítico Carrowkeel construído há cerca de seis mil anos, antes das pirâmides do Egito. E nesta cidade, mais do que em qualquer outra do país, é no- tório o desembaraço com que, de forma geral, os irlandeses tratam a questão da morte (nas vizinhas Irlanda do Norte, Escócia e Inglaterra este assunto não é tratado da mesma maneira). Em Sligo, o tédio da cidade ganha vida com as quatro emissões diárias radiofónicas sobre obituários, as death notices têm atravessado gerações como fenómeno de audiência (só perde em popularidade para as notícias de fu- tebol). “Vê se advinhas quem morreu hoje?”, é uma pergun- ta diária entre os habitantes. A voz do locutor N. Delaney é famosa, antecedida por uma trilha musical de filme român- tico clássico, ele construiu o seu curriculum, metade da sua vida, a anunciar milhares de óbitos. um habitante lembra que o seu pai lia o jornal, primeiro a página desportiva e ra- pidamente passava ao obituário para ver se precisava de ir a algum funeral. “Só depois lia os títulos da primeira página.”
Caricatura Ilustrativa de James Joyce (Fonte: The NewYork Review Of Books)
Jacinto Rego de Almeida
19520049
E o cumprimento de pêsames em Sligo limita-se a um obsequioso aperto de mão.
“ulisses”, do irlandês James Joyce, como sabemos, revo- lucionou os cânones da ficção narrativa, foi proibido em vá- rios países pela forma como descreve alguns episódios e só em 1933 por decisão da Corte Distrital dos E.u.A. foi derro- gada a proibição de publicação no país. Neste livro há uma longa e conhecida descrição de um funeral. Em que na for- ma de monólogo interior é salientado (vou citar de cor):
Aqui devem ser uns dez enterros por dia. Funerais por esse mundo fora em todo o mundo. Milhares por hora. Então o padre retirou um bastão com uma bola na ponta de dentro de um balde com água que o sacristão carregava. Certamen- te era água benta. E sacudiu-o sobre o caixão... Repô-lo na balde e depois disse: Et ne nos inducas in tentatione. O sacris- tão repetiu a frase. Todo o dia a mesma coisa, enterros de homens de meia idade, mulheres velhas, crianças, homens de barba, negociantes calvos, mulheres mortas de parto...o padre a rezar sempre a mesma coisa por eles, a sacudir a água, in paradisum, a dizer que ele ou ela está a ir para o paraíso. Enfim, o padre fechou o livro e saiu seguido do sa- cristão. Os coveiros entraram, fecharam o caixão... o coveiro corpulento abriu caminho pelo pequeno labirinto de tumbas. um outro apanhava do chão uma pá vaga. Moscas voavam sobre nós, moscas de piquenique. “Diga-me, conhece aquele sujeito de impermeável?”, “Não, nunca o vi”, “quantos enter- ros tens amanhã?”, perguntou um coveiro ao outro. “Dois. Onze horas e duas e meia da tarde, mas não são aqui perto da igreja. (Pausa) O Santos vai tratar do da manhã”, e pôs uns papeis no bolso. “Pronto, ele descansa”, disse uma mulher a choramingar. “É a irmã do falecido”, disse um homem ao meu lado. “Olá, como é que vão as coisas?”, “Vão andando como sempre”, “quais são as boas novas?”, perguntou uma mulher sorridente. “Ora, não muitas. As coisas são assim”, respon- deu um velhote. “que coisas é que são assim?”, insistiu a mulher, “O quê?”, disse o velhote e afastou-se.
“A cultura do óbito está a transformar-se com a pande- mia”, sussurrei a caminho do carro depois de tirar a máscara. E lembrei-me de Sligo onde castelos, florestas, precipícios à beira-mar e a presença de lendas e mitos celtas que inspira- ram histórias como “Tristão e Isolda” ou os “Cavaleiros da Távola Redonda”, compõem cenários de filmes. Onde cerca de setenta mil pessoas vivem uma paz excessiva, jogam rúg- bi, passeiam a cavalo e entusiasmam a sua vida com as mais recentes listas de mortos das redondezas. Onde N. Delaney pela rádio para além do nome dos falecidos, fornece as suas moradas, circunstâncias do óbito, local do sepultamento e missa e sugestões para onde enviar as flores. Faz pausas e uma respiração pesada que produzem uma adequada ten- são. A simplicidade desta atração aumenta o enigma do seu sucesso na cidade de infância de William Butler Yeats.
                   4 | Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • julho a setembro
























































































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