Page 30 - Boletim 274 da APE
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UMA LEITURA DE VERÃO, DO RUI VARGAS (AA 19810132)
Este verão, revisitei o romance Malta Brava, de Alexandre Cabral, com a mesma
alegria com que cruzaria os velhos portões de S. Domingos de Benfica.
Com Malta Brava voltei à adolescência e ao seu constante desafio de limites.
Vi o Buces fazer um salto enorme, difícil de acreditar. Vi o 8 gravar na parede uma
frase lacónica. Abriguei-me do calor estival na frescura da gruta da Madalena.
Observei o velho Convento já não em ruína, ou talvez, ainda não em ruína. Almocei
no refeitório uma sopa servida numa terrina de inox.
Corri em redor da palmeira que já não nos dá sombra nem ponto de referência
(malvado escaravelho!). De soslaio, espreitei embevecido a Maria de Lurdes.
Joguei barulhentamente ao mata no claustro, em contraste com o silêncio orante
dos frades que por lá viveram.
Com Malta Brava recordei personagens que só por acaso não integram este romance, mas que povoam
os romances que mentalmente todos escrevemos. Recordei o valor de um cubo de
marmelada e as regras nunca escritas que tivemos de aprender a respeitar. Olhei
com desdém o muro, imponente na sua inutilidade, e com respeito a cruz cimeira da
capela, pelos mitos de coragem que alimentou. Cruzei-me com o Cartolas, e com ele,
ri das travessuras que nos pregou.
E por fim, recordei o derradeiro diálogo. Uma frase que, em si, encerra toda uma
identidade insubmissa, que já venceu um século, e que esta malta promete continuar:
“Os gajos vão saber que a malta não amochou!”.
É a leitura!
Rui Vargas
(AA 19810132)
João Simas (AA 19650239)
Foz do Arelho
FOTOGRAFIA







































































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