Page 13 - Boletim numero 258 da APE
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CARAS DO PILÃO
tia lá umas barricas com ossos que tinham sido encontrados aquando das obras da parada, para além de estar tudo com muito pó e algum entulho, sem eletricidade e se queriam ver alguma coisa tinham de alumiar com velas. Eles eram quatro, escondidos um em cada canto da sombria cripta, cobertos por longos mantos de um tecido fino e comprido, a aguardarem pelos miúdos mais novos, que se aventura- vam a irem à cripta para “sacarem” da barrica um osso, a prova da sua indiscutível coragem. O que não contavam é que da escuridão, alguém começasse a andar na sua dire- ção. A brincadeira parou, quando se assustaram com o pânico de um dos miúdos e acharam que poderia ter-se finado por ali.
Também nos fala sobre o 25 de abril, uma altura compli- cada, conta-nos que na altura chegou a ser apelidado de fas- cista, por nunca ter gostado de ter o ar rebelde de muitos.
A entrada das raparigas no IPE, também lhe traz boas memórias, na sua turma eram apenas dois oriundos e o res- to raparigas e alguns alunos externos. Claro que se tinham de dar bem com elas, saltam as memórias das gargalhadas, brincadeiras, festas, bailes...
quando lhe perguntei como é que se passa de enge- nheiro para pároco, conta-nos que a religião sempre foi algo que o acompanhou. que aos 13 anos, pediu aos pais para entrar para o seminário, os pais recusaram, até porque o irmão mais velho, já lhes tinha feito o mesmo pedido, que acabou depois com o tempo por ficar em nada.
particularmente os mais novos, que sabiam que ali estavam a salvo das brincadeiras dos mais velhos, não tivessem eles todos protegidos pela Santa Igreja.
Para outros, quando viram que ele não estava a concor- rer aos estágios, provavelmente pensaram que o “Santos” já tinha um “tacho”.
Todo o complexo paroquial de Massamá foi construído comele,éo1oPriorejáláestáhá32anos,chegouater 1.300 crianças na catequese, considerando que no início a população de Massamá era composta essencialmente por casais jovens com filhos pequenos. Diz-nos que às vezes os paroquianos questionam os outros párocos, se ele não se vai embora (todos os outros padres têm alguma rotativida- de), e que os colegas lhes respondem que eles tem que ir falar com a Agência Cardoso (agência funerária) e enquanto isso solta uma sonora e contagiante gargalhada.
quando lhe pergunto se é um pároco exigente, respon- de-me sim SOu. Dizem-lhe que é por ser Pilão, apesar de ele não dar por nada. “Todas as pessoas que me conhecem sa- bem que sou Pilão.” Mas na na verdade, como nos explica de seguida, a sua exigência tem a ver com o direito da equidade e justiça para todos, é por isso que existe a lei da igreja.
O Luís Cláudio, foi ordenado em 3 de julho de 1988. Es- teve 7 anos no Seminário a seguir ao IPE. É licenciado em Teologia pela universidade Católica e tirou também Direito Canónico em Salamanca.
Para além de ser o 1o Prior em Massamá, exerce tam- bém outros serviços não remunerados, é Juiz do Tribunal Patriarcal, Presidente da Direção da Casa Sacerdotal e Assis- tente Diocesano do Curso de Preparação para o Matrimónio do Patriarcado de Lisboa.
quando lhe pergunto, se pudesse voltar atrás, se faria outro percurso de vida. Responde-me sem hesitar que teria entrado aos 13 anos para o seminário, esse era o seu cami- nho.
Mas, as coisas não aconteceram assim e o Pilão sempre o marcou pela positiva, que gostou de lá andar e que encon- trou lá uma segunda família e muitos amigos que o acompa- nham ainda nos dias de hoje.
A primeira mensagem que enviei ao “Santos” a pergun- tar-lhe se me dava a entrevista a resposta que me enviou foi “Pelo meu Pilão TuDO”.
Assim os pais disseram-lhe que ele deveria acabar o cur- so de Engenharia e se nessa altura ainda quisesse, então entraria no Seminário.
E assim foi, dormiu a última noite no IPE e no dia seguin- te entrou para o seminário.
quanto aos colegas, só souberam quando já tinha tudo tratado para entrar para o seminário, diz-nos que no Pilão tinha de se apreender a viver, se o tivesse feito antes teria sido gozado e massacrado com isso. Julga que para muitos não foi uma surpresa, mesmo no IPE sempre foi muito liga- do à igreja, existiam as missas diárias, o mês de Maria, as procissões nos claustros e a igreja estava sempre cheia. Com uma gargalhada, explica-nos que os miúdos na altura preferiam estar na igreja a estarem nas salas de estudo e
Boletim da Associação dos Pupilos do Exército • julho a setembro | 11