VIETNAME – O comunismo de rosto humano

Jacinto-Rego-de-Almeida

Estávamos no centro de Ho Chi Minh (a antiga Saigon), a maior cidade do Vietname, começava a escurecer, muitas luzes coloridas, grandes prédios modernos, alguns com pista para pouso de helicóptero, lojas de marca e no fim da rua em frente ao prédio de arquitetura francesa sede da Assembleia Municipal uma estátua majestosa de Ho Chi Minh. Muitos turistas passavam excitados com as compras baratas, tirando selfies, e Cat Minh, ex-vietcong, amigo de um amigo meu, um homem idoso, duro, mas afável, disse-me: “Depois de milhares e milhares de mortes em guerras com a França, com os E.U.A. e do conflito sino-vietnamita em 1979 na sequência da invasão do Cambodja pelo Vietname, sempre, sempre em busca de um comunismo de rosto humano que dignificasse as nossas religiões, o budismo e o cristianismo, e de termos vencido todos os inimigos sem exceção (fez uma longa pausa para acender um cigarro)… a ordem liberal e o capitalismo estão a entrar com força pela porta dos fundos do nosso país”, e sorriu-me antes de se despedir. Viu-o a afastar-se devagar pelo peso dos anos e pensei numa visita que fizera dias antes ao pagode Thien Mu às margens do rio Perfume, em Hue. Lá está em exposição o carro dos anos sessenta, um Austin azul com a matrícula DBA. 599, que transportou o venerável monge Thich Quang Duc até à rua Phan Dinh Phung nesta cidade, em 11 de Junho de 1963. O monge saiu do carro, sentou-se no chão, atirou gasolina por cima da sua cabeça e imolou-se. A fotografia do homem a arder no centro de Saigon correu mundo e foi uma das três fotografias icónicas de contestação mundial à guerra do Vietname (as outras duas são a da “menina de napalm”, Huynh Cong Ut, que venceu o Prémio Pulitzer – UT que é atualmente, com 50 anos, Embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas – e também a fotografia de um suposto vietcong a ser executado à queima roupa pelo chefe de polícia de Saigon numa rua da cidade). O fato é que o coração do monge Thich, inexplicavelmente, resistiu intacto à incineração do seu corpo e está guardado e mantido no cofre de um Banco em Saigon, o que justifica a sua veneração no pagode em Hue.

A República Socialista do Vietname, com todas as suas particularidades – a resistência contra o colonialismo e o “imperialismo”, a diversidade populacional do país com 54 grupos étnicos, a consagração de um líder nacional que proclamou a independência do país em 1945 e o estado socialista em 1976, a sua economia de médio porte com largos recursos minerais e agrícolas e uma população acima de 90 milhões de habitantes, e o budismo e o cristianismo que dominam o forte sentimento religioso da população, entre outras – é um caso de relativo sucesso de implantação de um sistema político comunista com desenvolvimento económico apoiado pela grande maioria da população.

Hanói tem cerca de 8 milhões de habitantes, um trânsito caótico, mas não conheço nenhuma outra praça pública, praça de Estado, que se assemelhe ao complexo Ho Chi Minh, a norte da capital. É uma área sem trânsito, suscita paz, contemplação e vigília, e solene apesar dos milhares de pessoas que diariamente a visitam. O antigo palácio do governador-geral da Indochina atualmente destinado a receções de Estado, o Museu da Revolução, o Mausoléu de Ho Chi Minh com o corpo embalsamado, a Câmara dos Deputados, a sede do governo, as antigas residências de trabalho e lazer de Ho Chi Minh, tudo rodeado de espessa vegetação tropical, jardins amplos e bandeiras vermelhas, muitas com a foice e o martelo, a esvoaçarem… quem foi Ho Chi Minh? Nasceu em 1890 com o nome de Nguyen Sinh Cung, usou muitos nomes falsos, o último dos quais Ho Chi Minh (“aquele que ilumina”) que o consagrou – segundo uma versão, este nome era o de um mendigo com quem conviveu –, em 1911 começou a trabalhar num navio francês, conheceu o mundo, depois instalou-se em Londres e aos 21 anos passou a residir em França com as profissões de jardineiro e empregado de restaurante. Em 1920 colabora na criação do Partido Comunista Francês, três anos depois em Moscovo entra para o Comintern braço internacional do comunismo soviético, em 1927, em Hong-Kong, dirige o movimento anti-imperialista da Indochina dominada pela França desde 1854, em 1941 funda a Liga pela Independência e utiliza a guerrilha para combater os japoneses invasores da Indochina. Em 1954, após a batalha de Dien Bien Phu e a vitória sobre a França passa a presidir o Vietname do Norte e treina as forças do vietcong para “libertar “ o Vietname do Sul e unificar o país. Teve uma política de culto à sua personalidade, foi considerado um celibatário (apesar de ter sido casado com Tang Tuyet Minh o que contraria a versão oficial) “casado com a causa da revolução” e estima-se que 24 mil vietnamitas terão morrido em campos de reeducação e concentração instalados pelo seu governo entre 1945 e 1956. Morreu em 1969 e em 30 de Abril de 1975 um tanque norte-vietnamita entrou no Palácio Presidencial em Saigon derrotando o regime fortemente apoiado pelos E.U.A. durante mais de dez anos. Os norte-americanos sofreram nessa guerra que nunca chegou a ser formalmente declarada, 58 mil mortos e 150 mil feridos.

Para além das belezas naturais e da História do país – com especial destaque para as formações rochosas das milhares de ilhotas e grutas da conhecida Halong Bay e a Cidade Imperial na antiga capital, Hue – as lembranças das guerras de libertação estão presentes nomeadamente o complexo das relíquias históricas dos tuneis de Cu Chi na zona rural da antiga Saigon, com cerca de 250 quilómetros de uma verdadeira cidade que acolheu 16 mil combatentes debaixo do chão com armadilhas artesanais em terreno de savana o que “exprime a vontade inflexível… e é um símbolo do heroísmo revolucionário do povo vietnamita”. Com restaurante, piscinas e campos de tiro, o centro turístico de Cu Chi recebe mais de um milhão de visitantes estrangeiros por ano.

Histórias e mais histórias que nos mostram que a História segue o seu rumo com “a ordem liberal e o capitalismo a entrar pela porta dos fundos” do país como me referiu pesaroso o antigo militante vietcong.

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