Tempo de Memória

“Setentão”, vi-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não dura para metade da livraria.

Recente acontecimento, consternou o País, a morte de Mário Soares. Há figuras que, goste ou não se goste, ficam na história. Mário Soares terá um dia o seu lugar, pois foi um lutador, pelo direito de se ser livre, pelo pluralismo de expressão.

Procurei na minha estante da memória um livro que há alguns anos li e que em algum lugar “repousava”.

Sim, lá estava e, quando os meus olhos viram aqueles escritos, senti uma certa emoção, pois aquele livro, silenciosamente, mas não adormecido, permanecia naquela prateleira há quarenta e três anos. “Portugal Amordaçado”, 1ª edição em Português, Outubro de 1974, Editora Arcádia, registo da memória de um tempo…(a).

Um depoimento sobre os anos de fascismo escrito por Mário Soares, quando exilado na ilha de São Tomé, deportado, sem julgamento. Este homem, como outros oposicionistas ao regime ditatorial então vigente, lutou contra totalitarismos, contra o absolutismo estatista.

Mulheres e homens sujeitos a prisões arbitrárias, repressão de violência irrestrita.

Uma pequena elite civil e militar, vivia no mundo do “tá-se-bem”!

Tempos em que, no trabalho ou no lazer havia que ter cuidado com os infiltrados (bufos), prontos para a denuncia dos “subversivos”. A igreja tinha tendência para “não ver, não ouvir, não falar”, conforme o correr da onda… no entanto, registo alguns corajosos desvios da regra geral, Prisões políticas espalham-se pelo continente e colónias. Na história da resistência, ficou um campo de concentração (mais conhecido por campo da morte lenta) situado no arquipélago de Cabo Verde, ilha se Santiago, nome Tarrafal, o pântano da morte o inverso de paraíso.

Um dia, em Abril, que foi a 25 no ano de 1974, um movimento militar dos “não-se-tá-bem”, derruba um regime apodrecido.

Em Liberdade, um ano depois uma nova constituição consagra no seu artigo 1º, um Portugal soberano, baseado na dignidade da pessoa humana, uma sociedade livre, justa e solidária.

Nunca acreditei que a história esteja pré-determinada, no entanto…

Décadas de 1960 a 1980. Sobre pretexto de se combater uma suposta subversão de ideologia socialista, em toda a América latina, aconteceu, segundo uma ordem não casual, o ressurgimento de regimes ditatoriais repressivos, limpeza ideológica e moral, a partir de quadrantes tidos de esquerda.

Governos, que em nome de uma segurança nacional, detinha, torturava, assassinava, em provas fraudulentas para justificar o injustificável.

Argentina, o poder das forças armadas, culminou com um golpe de Estado em 24 de Março de 1976. Consta o desaparecimento de milhares de pessoas, fuzilamentos nas ruas. Excessos execráveis contra ativistas políticos.
No meio destes horrores há sempre alguém que, em dor e desespero, luta pelos sofredores, famílias inteiras.

Um padre de bairro, em Buenos Aires, agindo na sombra correu riscos e perigos pessoais e para a sua Ordem Religiosa. Padre Gorge Mário Bergoglio, jesuíta, escondeu por longo tempo pessoas, expatriou muitas, para fronteiras mais seguras. Nunca as “contava”, salvas de um fim trágico, por Bergoglio e a Ordem Religiosa a que pertencia.

No decorrer destes tenebrosos tempos, os militares argentinos, sob as ordens dos “mandantes”, entram em conflito e confronto bélico com a Inglaterra. Em causa o domínio e soberania das Ilhas Malvinas. A derrota militar da Argentina, ditou o fim da ditadura. O Estado de direito voltou ao povo argentino a democracia renasceu em 10 de Dezembro de 1983.

E… Padre Bergoglio? Veio a ser Arcebispo de Buenos Aires.

Padre Bergoglio é Universal! Porquê?…… simples, Gorge Mário Bergoglio é hoje o Papa Francisco, um de nós!

A liberdade é sempre melhor!

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