Tempo de Memória

Afeto, sentimento que, felizmente se está a sentir neste País. Obra de gente que quando abraça, estabelece uma amizade com o próximo e aquele que o recebe, confia na verdade do gesto .
No meu tempo… não foi assim, fiquei entre muros e paredes, confuso talvez, já que a mãe protetora tinha ido embora. Ambientei-me e no dia seguinte, tinha 400 amigos. Fui aceite, era um Pilão!
Aconteceu, 62 anos se passaram e sempre me senti como uma parte daquela Escola.
Nos tempos atuais, a recepção dos novos alunos, envolve um cerimonial, cujo o abraço de um Comandante de Batalhão Escolar ao mais jovem Pilãozinho transmite, secularmente, a amizade e o respeito que existe naquela Casa. Os pais e parentes daqueles “putos,” confiam os seus rebentos, a uma Escola de exemplos, assim deve ser!
Um abraço estabelece uma intimidade emocional. Vivemos à 43 anos com liberdade, respeito e responsabilidade, sem medos. Tempos de afetos, dizem alguns, como tal foi triste e doloroso, tomar conhecimento por imagens de um órgão de informação, do depoimento de uma mãe de um de Nós, que com dor, chore pelas dores que o seu filho sente.
Como acreditar num abraço de boas vindas, quando provavelmente, na mente daquele “puto”, só existe confusão e medo, após tal “experiência”…
Algo de errado está acontecendo.
Aquelas paredes os meus pais me confiaram, tempos difíceis e duros e encarei com educadores e professores. Fui para áreas de Industria, consignada de forma explicita em Maio de 1911 e na reforma do Ensino Técnico Profissional em 1948 (ETP). O dito Estado Novo, sentiu que uma fraca Industrialização seria um perigo e entendeu o que disse Lavoisier- Industrializar um País é dar-lhe vida e riqueza; a industria é a vida de um Estado civilizado-assim a escola técnica é pois a alma da industria.
Após o ciclo, sem direito a escolha, fui “atirado” para um curso de Ótica e Instrumentos de Precisão. Iniciei esse curso, um só aluno-eu!!
Rapidamente odiei lentes, óculos e binóculos, fios de aranha, micrómetros e micrometria! Bolas, tirem-me daqui!
Um Professor, um Mestre, o Sr. Fernando Jesus Ferreira, entendeu a minha frustração. O curso que então frequentava, tinha no seu horário escolar aulas de laboratório de fotografia. O senhor Ferreira era o Mestre nessa área.
Foi pois com imensa alegria que, no Boletim 239 Out. Dez/2015, revi em foto o senhor Ferreira, sorridente com os seus noventa e tais anos, ladeado de seus filhos também eles Pilões. Saiba pois senhor Ferreira que, aquele puto o Cristo, 373, também é pai de dois Pilões avô e bisavô, saiba pois senhor Ferreira, que não o esqueço, ajudou-me a superar aquela confusão, deu-me “dicas” para mudar de curso e isso veio a acontecer.
Após o ano letivo concluído, passei para as áreas de eletricidade/ eletrónica e assim foi até chegar à aposentação. Trabalhei com máquinas simples às mais sofisticadas em termos eletrónicos e eletromecânicos. Era isso que eu queria foi isso que o Senhor me ajudou a encontrar o caminho. Um grande abraço Sr. Ferreira.
Quanto aos meus anos no Pilão, também senti dores e amarguras. Todos deixaram heranças e memórias, a todos estou reconhecido.

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