Pelas Malhas do Antigo Império – Pela Costa Ocidental Africana

Candido-de-Azevedo

Sabia que … Cabinda situava-se no Reino do Congo, reino esse onde durante mais de dois séculos a religião, títulos de nobreza, cerimónias palacianas e costumes passaram a ser exactamente como em Portugal? E que… segundo alguns autores, situava-se em Cabinda o mais valioso dos territórios portugueses ultramarinos de então, Maiombe, a segunda maior floresta do mundo depois da Amazónia? 

 

Cabinda

Diogo Cão foi o primeiro navegador europeu a chegar à região de Cabinda, por volta de 1482 estabelecendo contactos comerciais com os Ntotila, reis do povo cabinda, da família dos bantus, tributários do grande Reino do Kongo, com quem contactou. O Reino ou Império do Congo localizava- -se no sudoeste da África, no território que hoje corresponde ao noroeste de Angola, à República do Congo, à parte ocidental da República Democrática do Congo e à parte centro-sul do Gabão. Era governado por um monarca, o manicongo, e consistia em nove províncias e três reinos nomeadamente Ngoyo, Kakongo e Loango todos estes situados no actual Cabinda. A capital era M’Banza Kongo (cidade do Kongo), rebaptizada de São Salvador do Congo após os primeiros contactos com os portugueses. Notória foi a surpreendente conversão do manicongo, esposa e família ao catolicismo. Estes, baptizados a 3 de Maio de 1491 tomaram os nomes de João e de Leonor, tal como o Rei e a Rainha de Portugal. Durante séculos estes dois reinos, o de Portugal e do Congo, permaneceram unidos por profundos laços de interesses e de religião.

O acolhimento dado aos portugueses pelo povo local não podia ter sido mais favorável. Ao ponto que, embora houvesse resistência em defesa da cultura original, à medida que a conversão aumentava, os portugueses procuravam dar cada vez mais uma feição europeia a este reino africano e a estes príncipes negros dos séculos XVI e XVII: a língua, religião, títulos de nobreza, cerimónias palacianas e costumes passaram a ser exactamente como em Portugal. E então vemos uma sucessão de reis coroados com nomes cristãos: D. Afonso, D. Pedro, D. Henrique, D. Manuel, etc.

Com o tempo, colonos portugueses, holandeses e ingleses estabeleceram postos de comércio, fábricas de extracção de madeira e de óleo de palma na zona de Cabinda. O comércio, baseado nos produtos daquela que é considerada a segunda maior floresta do mundo, a do Maiombe, o mais valioso território de todo o Império Português segundo alguns autores, continuou e a presença europeia cresceu, resultando em conflitos entre as potências coloniais rivais. Portugal invocou por diversas vezes ao longo de séculos o seu direito histórico à posse dos territórios de Cabinda, tendo expulso e destruído em 1723 o fortim dos corsários ingleses com a ajuda do Rei de Ngoyo. Em 1784, foi a vez dos franceses atacarem os portugueses da fortaleza de Santa Maria de Cabinda, mas em 1786 reconheceram oficialmente a soberania portuguesa sobre a costa de Cabinda.

No quadro da “corrida europeia para África” Portugal concluiu em Fevereiro de 1885, com o chefe do reino de Ngoyo, o Tratado de Simulambuco, tratado que daria a Cabinda o estatuto de protectorado da Coroa Portuguesa “sob permissão dos príncipes e governantes de Cabinda” reservando dessa forma a Portugal os direitos de governação do território e protegendo da invasão do reino belga, o que não acontecera com o reino do Congo entretanto submetido. Meses depois viria a celebrar-se a Conferência de Berlim onde os europeus dividiram África às fatias como muito bem quiseram ou puderam. Portugal perdeu a maior parte da vasta região que percorria desde há quatro séculos. Cabinda acabou por ser a excepção, entre as zonas a norte do Zaire. Na sequência desta conferência e cedendo aos caprichos de Leopoldo II da Bélgica, Cabinda viria a separar-se de Angola, através de uma faixa de 60 Km por onde o protectorado belga do Congo acederia ao Oceano Atlântico.

Após uma constante presença portuguesa de quatro séculos e um domínio efectivo de noventa anos, Cabinda integra hoje a República de Angola, embora possua ainda um movimento independentista, a FLEC.

(Alberto Oliveira Pinto, António Custódio Gonçalves, Damião Peres, Joel Serrão)

Duarte Lopes

Em 1578, partia de Lisboa, com destino a Luanda, um português chamado Duarte Lopes, acompanhando um seu tio que seguia para África com diversas mercadorias. Os portugueses ensaiavam então uma primeira fixação definitiva nesta região, com a fundação de Luanda três anos antes, por Paulo Dias de Novais. Os contactos com o reino do Congo eram, porém, muito anteriores. Na verdade, contavam já com quase um século, desde que Diogo Cão chegara à foz do Zaire e fora bem recebido pelas tribos locais. Duarte Lopes teve ocasião de conhecer com alguma profundidade a região, efectuando diversas viagens no interior do continente que o tornaram no primeiro grande explorador europeu de África. Vamos hoje acompanhar alguns passos da sua vida, assim como a obra que nos deixou, chamada de “Relação do Reino do Congo e das terras circumvizinhas”.

Conhece-se muito pouco da vida de Duarte Lopes. Sabe- -se que terá nascido em Benavente em meados do século XVI, de família cristã-nova, e ignora-se a data da sua morte. Os dados da sua biografia referem-se sobretudo à sua estadia no reino Congo. Aqui viveu durante alguns anos, até 1584. Durante este tempo, Duarte Lopes viajou por diversas regiões de África, em parte graças aos favores do rei do Congo, que conseguiu captar, em parte devido à sua curiosidade e espírito aventureiro. No decorrer de tais viagens recolheu um vasto conjunto de informações, que mais tarde viriam a ser publicadas, e que constituem a primeira descrição fidedigna do interior de África. Por esta altura, os portugueses detinham um conhecimento de África que só muito mais tarde veio a ser suplantado. Todos conhecemos as viagens pioneiras de Livingstone e de Stanley, e também dos portugueses Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, no século XIX. Estes homens exploraram o interior de África, mas não foram os primeiros, ao contrário do que muitas vezes se julga. Já alguns portugueses, entre os quais Duarte Lopes, haviam dados os primeiros passos. A este propósito escreveu um historiador belga, no século XIX:

“Comparando uma carta de África, feita no ano de 1850, antes das viagens de Barth, Livingstone e Speke, com uma carta dos fins do século XVI, depois das grandes explorações de Diogo Cão, Francisco Gouveia e Duarte Lopes, vê-se que o interior desse continente era muito menos conhecido há 30 anos do que há 300 anos”.

Em 1585, após as suas viagens, Duarte Lopes regressa à Europa. A sua posição no interior do reino do Congo era tal que é nomeado embaixador deste reino junto do agora rei de Portugal Filipe I, e também junto do Papa. O Congo era nesta altura um reino cristão, mas havia uma situação de tensão e conflito com os portugueses estabelecidos em Angola. Duarte Lopes não consegue os seus objectivos junto do rei de Portugal, e segue para Roma, onde o Papa Sisto V o recebe favoravelmente. A política do rei do Congo nesta época, de que Duarte Lopes era porta-voz, era a de obter margem de manobra e apoio que contrabalançasse o peso crescente dos portugueses de Luanda, que ameaçavam o seu poder local e o seu prestígio.

É em Roma que Duarte Lopes entra em contactado com o humanista Filippo Pigafetta, certamente interessado em obter informações acerca do continente africano, que o português parecia conhecer tão bem. Dos contactos entre as duas personagens viria o italiano a escrever uma obra, chamada de “Relação do reino do Congo e das terras circumvizinhas”, que sairia em 1591. Na verdade, não sabemos se o italiano escreveu directamente dos relatos de Duarte Lopes, nem se este acompanhou de perto a redacção do texto. Desta forma, é impossível distinguir o que proveio das informações do português do que foram os acrescentos e correcções do humanista italiano.

Mas tal não diminui o interesse da “Relação”. Nela o autor mistura descrições do Congo e das suas diversas regiões com a história do reino desde a chegada dos portugueses, onde estão patentes as diferenças com a mentalidade europeia, mas igualmente o sentimento de curiosidade e interesse pela civilização africana. Eis como Lopes e Pigafetta descrevem os habitantes da terra:

“Os homens e mulheres são negros, alguns menos, tirando mais a baço, e têm os cabelos crespos e negros, alguns também vermelhos, a estatura dos homens é de mediana grandeza, e tirando-lhes a cor negra, são parecidos com os Portugueses: as pupilas dos olhos de diversas cores, negras e da cor do mar, e os lábios são grossos, como os Núbios e outros negros, e assim os seus rostos são cheios e subtis e váriados como nestas regiões, não como os negros da Núbia e da Guiné, que são disformes.”

Esta obra conheceu uma rápida expansão por toda a Europa, tendo sido traduzida pouco depois para outras línguas, o que revela o interesse que este tema despertava na época. Pigafetta fez acompanhar o texto com uma série de desenhos e ilustrações supostamente baseadas no relato de Duarte Lopes. Mas estas mostram que quem as desenhou nunca esteve em África: os habitantes parecem europeus, as cidades congolesas assemelham-se à Roma Clássica e mesmo os animais não têm correspondência com a realidade: a zebra, por exemplo, é claramente um cavalo pintado às riscas.

Noutros aspectos, provavelmente os que provêm mais directamente de Duarte Lopes, a obra revela rigor e cuidado. A descrição da capital do reino, S. Salvador do Congo (no Norte da actual Angola) e das suas diversas províncias, assim como a história do reino desde a chegada dos portugueses, é muito interessante e provavelmente fidedigna. É particularmente curiosa a forma como descreve as alterações que a conversão do rei ao Cristianismo e o contacto com os portugueses provocaram ao nível do quotidiano e do vestuário local:

“Antigamente este rei e os seus cortesãos vestiam-se de panos de palma, com os quais se cobriam da cintura para baixo, apertando-os com cintos feitos da mesma matéria e de belos lavores; no ombro traziam um rabo de zebra preso a um cabo, por ser de uso antigo naquelas regiões; na cabeça tinham carapuças de cor amarela e encarnada; andavam descalços a maior parte deles. Mas depois daquele reino ser cristianizado, os grandes da corte começaram a vestir-se à moda dos portugueses, trazendo mantos, capas, tabardos de escarlata e de telas de seda; na cabeça, chapéus e barretes, nos pés, alparcas de veludo, de couro, e borzeguins à moda portuguesa. Logo que o rei se converteu ao Cristianismo, reformou também a sua corte de certo modo imitando a de Portugal, e principalmente quanto ao modo de estar à mesa. Possui baixela de ouro e de prata, com um salva para comer e beber.”

Duarte Lopes regressou novamente a Madrid, onde voltou a contactar Filipe II e a informá-lo das vantagens de intervir no Congo e de promover o relacionamento com aquele rei. Lopes pretendia provavelmente incrementar a acção evangelizadora naquela região de África, invocando para tal o interesse da Coroa Portuguesa nas possíveis riquezas, como ouro e prata, que estariam hipoteticamente por descobrir no interior do reino. Nada mais conhecemos da sua vida, nem sequer se alguma vez regressou a África. Apenas conhecemos a “Relação do Congo”, que permaneceria durante muito tempo como a mais importante descrição de um reino africano.

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